25/03/2013

Mais ousadia, menos mesquinhez

Enquanto os critérios de avaliação do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio), que concederam nota máxima para redações que traziam erros como “trousse”, “rasoavel” e “enchergar” são destaques na mídia, recebo a sétima edição do Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) organizado pela Fundação Seade.

Inevitável não associar os dois temas, impossível não refletir sobre o projeto educacional brasileiro.

Segundo o último Relatório de Desenvolvimento de 2012, divulgado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar – 24,3% – entre os 100 países com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

É inadmissível imaginar que crianças estejam fora das escolas. Mas o fato é que muitas estão. Indignação, pura e simplesmente, não mudará essa realidade.

Discursos no horário nobre tampouco. Então, se é válido descrever, no Enem, a receita de um macarrão instantâneo, por que não experimentar receitas que possam incrementar a minguada educação no Brasil?

Nos países que apresentam os melhores índices de desenvolvimento, não por acaso, a educação é prioridade. A Europa, em crise, propõe cortes e austeridade, mas mantém os projetos educacionais.

O provimento de cerca de 280 mil bolsas de estudo Erasmus, um dos mais prestigiados programas destinados aos jovens, no ano letivo de 2013-2014, foi confirmado.

Além disso, a parceria com instituições privadas é incentivada. Universidades e empresas atuam juntas, compartilham pesquisas, laboratórios, conhecimento. E geram resultados.

Tímidas, as iniciativas de parceria no Brasil ainda se restringem a poucas instituições e soam quase mesquinhas diante do enorme déficit que o país apresenta no campo educacional.

A mesma irreverência que se mostrou abundante aos corretores das redações do Enem se mostra escassa em outras instâncias do Ministério da Educação. Falta ousadia e ambição ao MEC.

Em São Paulo, há alguns anos, demos início a um projeto educacional arrojado e factível. As Fatecs e Etecs, com índice de empregabilidade dos alunos que chega a ser superior a 90%, são prova disso.

Essas instituições oferecem um ensino gratuito e de qualidade para mais de 280 mil alunos. Não é pouca coisa, mas a ideia é continuar expandindo esse modelo. Como mostrou o resultado do IPRS, as 3 dimensões consideradas pelo estudo – riqueza municipal, longevidade e escolaridade – revelam que educação e melhores condições de vida vêm, frequentemente, juntas.

Infraestrutura adequada, como eixos rodoviários, também foi um dado associado.
Portanto, a receita é simples, mas é preciso querer fazer. É preciso construir estradas (em todos os sentidos) e formar os engenheiros e técnicos que irão viabilizar essas obras. É preciso investir em políticas públicas que promovam, de fato, o desenvolvimento do país.

Nesse sentido, o IPRS e o famigerado resultado das redações do Enem são indicadores importantes que revelam, de fato, o que há além dos discursos.

José Aníbal é economista e secretário estadual de Energia de São Paulo.