15/04/2013

Pelas vias do diálogo

“Defendo um Estado pequeno e forte e o que me parece é que o que vocês têm no Brasil é exatamente o inverso, ou seja, um Estado grande e fraco”.

Essa foi a resposta de Margaret Thatcher a um empresário, durante sua única visita ao país.
A frase foi uma das muitas que surgiram na seção “obituário” dos principais veículos do país e do mundo, há uma semana, quando soubemos da morte da dama de ferro.

Quase duas décadas depois de sua visita, alguns ministérios e algumas estatais a mais, muita coisa mudou no Brasil, outras, porém, avançaram pouco, ou quase nada.

Enquanto pairam dúvidas sobre a criação, ou não, da Hidrobrás, que seria a quinta estatal criada pelo atual governo, navegar pelos rios brasileiros continua sendo uma atividade muito pouco praticada se compararmos com o potencial hídrico existente.

Entre o que poderia ser e o que é há um abismo enorme ou, para ficarmos mais alinhados com o tema, há um rio enorme, desperdiçado.

Em 2012, dos R$ 407,7 milhões previstos para serem investidos nas hidrovias e portos fluviais brasileiros, apenas 32% (R$ 145,1 milhões) foram, de fato, investidos. Tudo indica que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pela gestão da área, deve estar tendo dificuldade para administrar tamanho potencial.

Aliás, esse foi o argumento utilizado pelos que defendem a criação da estatal. Curioso pensar que o que em outros países seria uma solução, aqui é encarado como problema. Na escassez ou na abundância patinamos na gestão.

A Eclusa de Lajeado, no rio Tocantins, é um dos projetos que deveria ter sido contemplado com recursos do Dnit, mas que não recebeu nada dos R$100 milhões previstos.

O canal de navegação do rio Madeira teve um pouco mais de sorte e recebeu R$ 3,9 milhões. É bem menos do que os R$ 10 milhões com os quais contava, mas ainda assim é melhor do que nada.

Em São Paulo, o governo tem procurado fugir à regra e transformar investimentos em vias navegáveis. A modernização e ampliação da hidrovia Tietê-Paraná no trecho paulista é um exemplo.

Em 2011, o governador anunciou a liberação de R$ 600 milhões para a realização de obras no trecho paulista da hidrovia. Somados aos R$ 900 milhões provenientes do PAC 2, o investimento totaliza R$ 1,5 bilhão.

As obras, cujo término está previsto para 2015, irão promover a adição de um trecho de 55 quilômetros pelo rio Piracicaba e 200 quilômetros pelo rio Tietê, totalizando um percurso de mais de 2.400 quilômetros.

A rota, que vai de São Paulo até a divisa com o Mato Grosso do Sul, seguindo pelo rio Paraná até a divisa brasileira com Uruguai e Argentina, também passa por regiões metropolitanas de Campinas e São Paulo, contribuindo para reduzir o gargalo hoje existente no modal rodoviário.

Eis um bom exemplo de que o diálogo é o melhor, senão o único caminho a percorrer quando buscamos resultados. Talvez a dama de ferro estivesse mesmo certa. Em vez de pensarmos em criar mais estatais, melhor administrarmos bem o que temos.

José Anibal é economista, deputado federal licenciado (PSDB-SP) e secretário de Energia de São Paulo