08/10/2013

Geração de energia é desafio para São Paulo; Estado vai apostar em fontes alternativas

Atingir o estágio de segurança energética é um desafio a que se propõe o governo do Estado para os próximos anos. A meta é não depender tanto do fornecimento das hidrelétricas e térmicas. Isso só será possível por meio do incremento da participação de fontes alternativas na matriz energética, ao mesmo tempo em que, por tabela, fontes limpas e renováveis diminuem o efeito estufa. Esse é o caminho apontado pelo secretário de Energia do Estado, José Aníbal.
Leia entrevista à Associação Paulista de Jornais, da qual O VALE faz parte:

Qual a prioridade no setor energético paulista?
A segurança energética. A Grande São Paulo gera 66% do ICMS do Estado. O Estado gera 45% do IPI e do IR do Brasil, os dois maiores impostos federais. Imagine se faltar energia

Como é possível se chegar à segurança energética?
Tendo alternativas para situações como a que estamos vivendo hoje, de escassez de água. Estamos lidando com reservatórios que não estão se recompondo. Isso faz com que se use a capacidade de geração reserva nas térmicas. Neste momento, o governo está mandando todas as térmicas gerarem, estão gerando o equivalente a uma Itaipu. Isso movido a óleo diesel, óleo combustível e gás, uma energia cara.

São Paulo depende de energia externa?
Metade da energia que São Paulo consome é gerada aqui e a outra metade vem de fora, é uma rede nacional, hidrelétricas integradas. O operador sabe onde está sendo consumido por isso vai fazendo solicitação de despacho técnico, manda as térmicas funcionarem para ter segurança. Mas elas são caras e poluentes. Com a exploração da potencialidade de biomassa, resíduos sólidos, eólica, solar, teremos potencial de mais 35 mil megawatt, mais do que produzimos hoje.

A competitividade da indústria depende das fontes renováveis?
Sem a energia térmica a esse preço de 3 a 4 vezes maior, e isso vai para a conta de um modo ou de outro, poderíamos estar gerando energias renováveis cujo preço é um terço. O governo precisa de política ousada, estimular a co-geração de energia com bagaço e palha de cana, resíduo urbano e eólica. Não pode se acomodar.

A indústria está no gargalo?
Não, mas o preço da energia é alto, embora isso seja relativo. A energia da Alemanha é muito mais cara do que no Brasil e é competitiva. O governo reduziu o preço da energia para a indústria, melhorou a competitividade? Nenhum sinal.

A política nacional no que interfere no panorama da energia paulista?
Interfere porque o governo não faz o planejamento adequado. Faz por impulso. Não tem isso aqui (mostrando catálogos da secretaria), um plano para 2020 e que foi feito com a participação de especialistas.

E o Plano Paulista de Energia, qual é o foco?
São Paulo tem a Política Estadual de Mudanças Climáticas aprovada na Assembleia em 2009 que determina que em 2020 o Estado vai emitir menos 20% de gases de efeito estufa do que em 2005. Fará isso limpando a matriz energética, que já é renovável hoje em torno de 56%, e passará a ser de 69%. No mundo, esse índice é de 12,5% e no Brasil, 45%. Qual é o nosso propósito? Primeiro, estimular a geração de energia com fontes renováveis.

E qual é o caminho para a energia renovável?
A principal fonte renovável hoje no Estado são os produtos da cana: 33,5% da energia de São Paulo. Em 2020, queremos chegar a 46% da cana na matriz e o petróleo que hoje é de 36% cai para 20%. Espero aumentar outros renováveis, como o solar, eólica, resíduo sólido urbano, mas a cana é o ponto forte. Estamos fazendo o biogás.

O impacto será sentido em todas as regiões?
Prevemos que a co-geração de energia com o bagaço e palha de cana vá de 5.000 megawatts hoje para 13 mil megawatts em 2020, uma Itaipu. Investimentos de R$ 30 bilhões. Sim, (o programa) vai ser feito no Estado inteiro. Vai gerar empregos e demanda no setor de equipamentos. Todas as regiões, com exceção do Vale do Paraíba e do Vale do Ribeira, têm usinas de açúcar e de álcool.

Que cenário que se vislumbra para o interior?
Há uma efervescência em São Paulo em matéria geração de energia equivalente ao que houve nos anos 60 e 70 quando foram construídos os grandes empreendimentos de barragens como Ilha Solteira.

Como a infraestrutura se insere na questão?
O governo do Estado e o federal estão fazendo investimentos de R$ 1,5 bilhão na hidrovia Tietê-Paraná. Um tubo de 207 quilômetros vai de Ribeirão Preto a Paulínia, capaz de transportar 4 bilhões de litros de etanol para a Refinaria de Paulínia por ano. Já está funcionando. Vai tirar 90 mil viagens de caminhão. Investimentos em modais como estão sendo feitos na capital — metrô e trem –vão derrubar muito a emissão de gases do efeito estufa com o propósito de chegar a uma matriz energética de 69% limpa em 2020.

E o pré-sal, como se insere nesse contexto?
Esperamos muito do ponto de vista da renda. São Paulo não quer que o pré-sal seja uma maldição do petróleo, com riqueza extraordinária que não gere impacto positivo na população. Ao contrário, precisa melhorar a renda. A tendência é que a partir de 2016 a atividade do pré-sal na Bacia de Santos no Estado de São Paulo se acelere e São Paulo passe a ter uma produção expressiva de petróleo em 2020, talvez da ordem de 600 mil a 800 mil barris/dia. SP já é hoje responsável por 45% da receita da Petrobras no Brasil.

E o etanol?
A expectativa é que se multiplique a produção. Segundo o professor Cerqueira Leite em artigo, o país pode produzir 120 bilhões de litros; hoje produz de 16 a 17 bilhões e quer chegar a 20 a 23 bilhões. É um problema de investimento. Que a Petrobras, e o governo brasileiro seu acionista majoritário, permitam que se pratique o preço de mercado da gasolina e não faça a alucinação do subsídio que custa R$ 1 bilhão à Petrobras e atrapalha o setor de açúcar e álcool.

O sr. é um crítico em relação à Petrobras?
O governo tem errado muito com relação à Petrobras. Todas as petroleiras do mundo tiveram uma valorização nos últimos seis a sete anos de 70% a 80%. A Petrobras teve uma desvalorização equivalente de 70% a 80%. Chegou a valer US$ 300 bilhões ou mais; hoje vale de US$ 90 bilhões a US$ 100 bilhões e tem risco de perder investment grade porque está se endividando muito.

Os municípios assumirão a manutenção da iluminação pública a partir de 2014. Como o sr. vê essa questão?
É natural que a gestão seja feita pelo poder público municipal, que tem mais sensibilidade para a questão de iluminação pública, porque está associada à segurança, destaque de espaços públicos, prédios históricos. Mas, atenção: a conta relativa ao posteamento e iluminação pública já está no IPTU, então não tem que adicionar nada sobre isso.

Como fazer?
Diretamente, por terceiro contratado ou consórcio entre municípios. A ideia de consórcio pode ser viável, mas não temos nenhuma iniciativa firme nessa área. Os prefeitos estão inseguros, mas estão autorizados a cobrar a Contribuição para a Iluminação Pública e alguns se anteciparam e aprovaram nas Câmaras, de modo bem simples especificando quanto vai pagar o consumidor residencial, o industrial, o comercial e de serviços. Um exemplo é Botucatu, que estabeleceu sistema gradativo por consumo.

O Estado está fazendo algo para apoiar os municípios?
A Desenvolve SP está com linha de crédito com recurso imediato. Várias prefeituras já procuraram. Tem empresas que se interessam pelo serviço. E algumas se interessam só por municípios maiores.

Por Wilson Marini