18/08/2015

Estiagem revela a fragilidade hídrica e os desafios para o país

A estiagem revelou não só um desafio crônico do Brasil, mas também toda a fragilidade hídrica do país. O mapa do problema se espalhou do Nordeste para o Sudeste, parte do Sul e quase todo o Norte. Os motivos são diferentes. A natureza sempre foi a vilã no Semiárido Nordestino. A degradação dos rios e a falta de chuvas aliadas ao desperdício no consumo afetam São Paulo, mas não poupam também o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O uso intensivo pelos arrozais e a poluição dos cursos d’água ameaçam o Rio Grande do Sul. As perdas e as deficiências de gestão das concessionárias tornam o abastecimento precário até na Região Norte, onde ela é abundante. Os avanços no saneamento, nas políticas governamentais de infraestrutura e os esforços das empresas na busca de soluções de uso mais racional do recurso não são suficientes ainda para alterar as previsões mais pessimistas: a oferta diminuiu, o consumo aumentou e a natureza dá o troco.

“O patrimônio hídrico está sendo dilapidado a uma velocidade muito grande. É preciso rever a nossa relação com a água”, diz a especialista em recursos hídricos Marússia Whately, coordenadora da Aliança pela Água, que reúne 60 organizações, como Greenpeace e Conectas, preocupadas em propor soluções para a crise hídrica. “O Brasil enfrenta o paradoxo da escassez em meio à abundância por falta de gestão”, afirma Gesner Oliveira, sócio da GO Associados, consultoria em negócios e serviços. “Temos que aumentar nossa capacidade de suportar os eventos climáticos que afetam a oferta de água. Já temos uma lei exemplar, temos uma agência reguladora, não precisa reinventar nada. O debate agora é mais político do que técnico”, diz Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil, que trabalha com outras organizações para estabelecer 40 padrões que funcionem como uma certificação de uso sustentável da água para as empresas.

Embora o Brasil tenha 12% das reservas de água potável, muita gente ainda não tem acesso a ela. Na Região Norte sobra água, mas a qualidade é ruim para o consumo porque a falta de saneamento contamina os rios ou ela sequer chega à população porque para cada dez litros produzidos cinco se perdem na rede. Na Região Metropolitana de São Paulo a disponibilidade hídrica é comparável à do Sertão Nordestino. Diminui a oferta, mas aumenta a demanda.

De 2006 a 2010, o consumo de água no Brasil cresceu 17%. Cada brasileiro, que há sete anos consumia 151,2 litros por dia, passou a usar 166,3 litros em 2013. Só na agropecuária o crescimento foi de 23%. Trata-se do maior bebedor no Brasil: 72% da água consumida vai para o campo e para a lavoura, que perde sete de cada dez litros por causa de técnicas precárias de irrigação. “A economia de água é importante, mas é preciso entender o problema em escala integrada”, Cláudio Bicudo, da H2O Company.