28/08/2015

Saída sustentável para déficit está na diversificação

Diante do cenário atual de escassez hídrica e o tarifaço nas contas de luz, o Brasil precisa apostar na diversificação das fontes energéticas para aumentar sua oferta de forma sustentável, apontam especialistas. Ainda dependente da geração hidrelétrica, que responde por 60% da capacidade instalada atual, o parque gerador brasileiro precisa abrir espaço para mais termelétricas a gás, eólicas e usinas solares, entre outras fontes.

O Plano Decenal de Energia (PDE 2015-2023) indica que as hidrelétricas continuarão a ser o motor da expansão da capacidade instalada do país. Mas cedem espaço à geração eólica e a gás natural. Juntas, essas fontes devem representar um aumento de 21 mil MW contra aproximadamente 24 mil MW das hidrelétricas no período.

Apesar da atual escassez de oferta doméstica, as termelétricas a gás terão papel importante em firmar a oferta em um contexto de aumento da sazonalidade e intermitência do parque gerador. “O gás é a alternativa viável para firmar a energia de hidrelétricas a fio d’água e eólicas”, explica Edmar Almeida, coordenador do Grupo de Estudos de Energia (GEE) do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A opção para a expansão das térmicas a gás deverá ser a importação de gás natural liquefeito (GNL). O combustível é mais caro do que o gás convencional, mas está se tornando competitivo com a queda no preço do energético em um cenário de oferta abundante.

A geração a gás ainda enfrenta desafios. Faltam gasodutos e há percepção de que os planejamentos elétricos e o do gás não conversam entre si. “Há necessidade de geração térmica em regiões distintas, o que exigiria uma rede de gasodutos que o país está longe de ter”, aponta Roberto Pereira d’Araújo, diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético.

Para eliminar esse gargalo, o GEE do IE/UFRJ e o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) elaboram uma proposta conjunta. A ideia é que o Plano Decenal de Expansão da Malha de Dutos (PEMAT) incorpore um conjunto de térmicas estruturantes. O papel desses empreendimentos seria a expansão da malha para o transporte de gás natural.

Os especialistas recomendam que o país continue apostando na fonte eólica para aumentar a oferta. Limpa, de baixo impacto ambiental, e com custos competitivos, a modalidade ganha espaço desde 2011 e mantém o crescimento. Tem a vantagem, ainda da complementariedade com a geração hídrica em períodos de seca. O planejamento prevê 13 mil MW eólicos até 2023, que se somam aos 6 mil MW atuais.

A energia solar também deve ser considerada para o aumento da oferta. Para Roberto D’Araújo, seu melhor aproveitamento é na geração distribuída – sistemas instalados juntos aos pontos de consumo. “Acho incrível que com o nível de insolação no país ainda se esteja discutindo ICMS sobre equipamentos solares”, protesta, se referindo à falta de uma política de incentivo tributário para os equipamentos solares.

D’ Araújo critica o fato de o programa de medidores eletrônicos – que ajudaria a viabilizar a geração distribuída solar – estar nas mãos das distribuidoras. Em sua opinião, as empresas desse segmento não têm interesse em fomentar a competição pelo geração de energia que seria possibilitada pela instalação desses sistemas pelos consumidores.

Os especialistas concordam que a fonte hídrica continuará a ter papel preponderante na expansão da oferta de energia do país. Entretanto, é preciso rever o modelo de construção de apenas usinas a fio d’água. Essa opção provocou a redução da capacidade de regularização dos reservatórios, tornando o sistema ainda mais vulnerável aos regimes de chuvas.

Mas construir usinas com grandes lagos não é uma opção simples. O estoque para novos aproveitamentos está majoritariamente localizado na Região Norte do país. A característica dessas bacias hidrográficas é de aproveitamentos com menor capacidade de reserva. Há também a questão de alagamento de terras indígenas, protegidas pelo Estado. “É preciso promover um diálogo de maior qualidade com os índios, para que eles possam ser ouvidos, sem a intermediação da Funai”, afirma Rafael Kelman, sócio-diretor da PSR.

Atenta a isso, recentemente a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou um estudo em que identificava 25 aproveitamentos com capacidade de regularização. Essas quedas somam de 3 mil MW de capacidade e energia armazenável de 8 mil MW. Kelman, no entanto, acredita que esse estudo partiu de uma base viciada.

Essa opinião parte do princípio de que os parâmetros das usinas que compõem a oferta de energia no país estão superavaliados. Ao longo do tempo, os equipamentos perderam eficiência e estão gerando menos que o previsto. Os reservatórios, por sua vez, sofreram assoreamento, o que dá uma falsa impressão do volume de água represada.

Por esses motivos, o consultor defende que seja feita uma revisão completa dos parâmetros da oferta hídrica no país, antes de o planejador decidir quais caminhos tomar. “Hoje o governo fala em excesso estrutural. Mas acredito que seja necessária uma avaliação mais cautelosa do suprimento”, diz.