10/08/2015

Sol crescente

Pequenas empresas aproveitam financiamento subsidiado para investir em energia solar e fugir da alta da luz

Nos últimos 12 meses, o custo da energia ficou 60% mais caro no Brasil, segundo o IBGE. Mas a conta do hotel para cachorros Vila dos Cães, em Itapecerica da Serra, passou de R$ 1.300 por mês para apenas R$ 210.

O alívio foi resultado dos painéis solares instalados no início do ano.

O diretor da hospedagem, Walter Marquart, 52, conta que os aparelhos para secar os cachorros gastam muita energia e, temendo uma alta da tarifa de luz, decidiu investir na fonte alternativa.

Desde 2013, o número de edifícios com painéis solares cresceu quase dez vezes, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Leia mais acima.

A previsão da associação do setor, a Absolar, é que o número chegue a mais de 1.000 até o fim do ano.

A maioria das instalações, cerca de 71%, está em edifícios residenciais. Mas bancos oferecem linhas de crédito subsidiado para pequenas empresas comprarem tecnologia que possibilite captar a irradiação solar.

A instalação na Vila dos Cães saiu por R$ 80 mil, mas os donos só desembolsaram R$ 14 mil.

O resto foi subsidiado por uma linha de crédito do Banco do Brasil a juros menores por se tratar de um projeto que reduz o impacto ambiental do negócio.

Em São Paulo, a agência do governo Desenvolve SP também oferece crédito subsidiado para esse fim.

O presidente da agência, Milton Luiz de Melo Santos, afirma que, além de interessados em gerar energia, ele negocia com cinco empresas a instalação de fábricas de painéis solares.

Já o Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo) tem planos para criar centrais de captação para fornecer energia para seus associados.

O projeto prevê que um fundo de investimentos faça aportes para custear a instalação das placas.

FAÇA AS CONTAS

Segundo Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar, não existem produtores nacionais dos painéis e dos inversores –os aparelhos que transformam a irradiação em watts.

No entanto, essa tecnologia ficou mais barata porque a China aumentou muito a sua produção.

Apesar do interesse crescente nesse tipo de energia, Sauaia alerta que há muitas variáveis que influenciam o cálculo para saber se o investimento vale a pena.

Ele cita a incidência de irradiação solar no lugar, o consumo, o tipo de tarifa cobrado da empresa (na maioria dos Estados, as indústrias pagam um valor menor pela energia) e quanto custa a instalação.

Em média, afirma, em um período entre 6 e 12 anos a diminuição do valor da conta mensal vai “pagar” o investimento nos painéis.

Isso sem levar em conta eventuais aumentos do preço da conta de luz.

A PGM Sistemas, empresa que produz softwares em Uberlândia (MG), investiu R$ 85 mil em 2011 para instalar os painéis.

Segundo o diretor Vítor Moura, 28, a projeção atual é que o valor será compensado em 2019.

Ele diz considerar que, além do retorno financeiro, empresários devem se preocupar com o ambiente, e a medida foi, em parte, para reduzir o impacto que seu negócio causa.

Empreendedores reclamam de imposto sobre a energia gerada

O imposto sobre o consumo de luz é um dos entraves para o investimento em energia solar, afirmam empresários que instalaram painéis.

A questão chave é como os Estados devem tributar os edifícios que geram parte da energia que consomem.

Ao instalar um painel, o dono pode optar por acumular a energia captada excedente em baterias ou compartilhar com a rede.

Esta última foi a opção de Márcia Fernandes, 47, diretora da Farmácia Biológica, de Cuiabá. A empresa acumula créditos por esses quilowatts.

O problema é que, em Mato Grosso, o cálculo do imposto é feito usando como base todo o consumo de energia, e não somente o que Fernandes usou além daquilo que ela mesma gerou.

“É um imposto sobre circulação de mercadoria, mas não tem circulação. Eu mesma produzi e consumi a energia”, afirma a empresária.

Em abril, o Confaz, órgão oficial que toma decisões sobre benefícios fiscais, definiu que os Estados só devem cobrar o consumo líquido de energia (ou seja, o que excede a geração). Mas, até agora, apenas seis Estados aderiram (São Paulo, Goiás, Tocantins, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará).

Em Minas Gerais, essa regra só vale para os cinco primeiros anos depois da instalação do equipamento.

A Absolar e outras entidades fazem campanha para que a determinação seja adotada no país inteiro.