11/11/2015

A sustentabilidade sucroenergética

O setor sucroenergético é, com frequência, analisado sob a óptica ambiental, em reflexões sobre sustentabilidade. Não é para menos. Envolvendo uma ampla cadeia produtiva, o setor tem promovido avanços importantes ao longo dos últimos anos, com a adoção de novas tecnologias e processos – como a utilização do etanol na qualidade de combustível – que aprimoraram a gestão do negócio, ao mesmo tempo que contribuíram para a preservação ambiental, o uso racional da água e a redução da emissão de gases do efeito estufa.

Encarar a sustentabilidade a partir de aspectos ambientais é bastante comum. Mas, de fato, a sustentabilidade ocorre com o equilíbrio de três dimensões integradas: ambiental, econômica e social. Considerando que as questões econômicas sempre foram amplamente discutidas, proponho refletir sobre um aspecto pouco abordado em boa parte dos textos e das falas ligados ao setor no Brasil: o social. Um estudo publicado pela Universidade de São Paulo, sob a coordenação do professor Marcos Fava Neves, mostra como são impressionantes os números da cadeia de fornecimento do setor.

No cultivo da cana-de-açúcar e na produção de açúcar e etanol, por exemplo, estima-se que a geração de empregos diretos seja de, aproximadamente, 613 mil pessoas e pode chegar a quase 1 milhão de trabalhadores, se considerados os empregos sazonais gerados no pico da colheita. Se levarmos em conta os empregos informais, diretos e indiretos, alcançaremos a marca de 3,56 milhões de trabalhadores. Para se ter uma ideia da relevância desse número, somente na safra 2013/2014, o setor movimentou uma massa salarial de cerca de US$ 4,13 bilhões.

Somada a esses importantes valores, uma característica única do setor é a sua dispersão no território nacional, diferente de outros segmentos, que se desenvolvem de forma concentrada, levando à migração da mão de obra e à convergência de trabalhadores em busca de oportunidade para algumas poucas cidades. Atualmente, existem cerca de 400 unidades produtoras de açúcar e etanol distribuídas nas regiões Centro-Sul e Nordeste e milhares de fazendas de cana-de-açúcar, em quase 1.200 municípios do Brasil, o que permite a geração de riqueza de forma descentralizada.

O desenvolvimento social promovido pelo setor sucroenergético é ainda mais perceptível quando se acompanha a evolução de municípios que tenham recebido instalação de usinas. A transformação e o progresso são comprovados pelo crescimento de arrecadações de impostos municipais. Em Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul, onde a Biosev tem instaladas duas de suas unidades, a arrecadação de ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) deu um salto de 800% entre 2005 e 2012.

Em outro estudo, foi constatado que, após uma década da chegada de uma usina em um município de Goiás, o número de empregos formais aumentou de quatro para quase 11 mil. Além disso, o salário médio triplicou, juntamente com o PIB (Produto Interno Bruto) per capita, a frota de veículos e a arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Já o número de empresas quase dobrou em cinco anos. Todos os indicadores econômicos analisados tiveram um crescimento superior ao da população, que foi de 18%.

Esses exemplos não são fatos isolados, afinal, melhorias semelhantes aconteceram em outras regiões que igualmente receberam investimentos do setor sucroenergético, ao longo dos últimos anos.Todos os dados mencionados se somam ao fato de que o setor tem hoje uma série de caraterísticas que o diferenciam ainda mais. No início desta década, começaram dois processos relevantes: a mecanização das práticas agrícolas e o início da consolidação do setor, com a formação de alguns grandes grupos responsáveis pela gestão de usinas em várias partes do País.

Com o advento da mecanização, a mão de obra agrícola, que era, em sua grande parte, formada por trabalhadores migrantes, temporários e de baixa formação, deu espaço a uma nova população de trabalhadores treinados para operar equipamentos de alta tecnologia, como colhedoras e plantadoras dotadas de pilotos automáticos e GPS. Além disso, esses funcionários passaram a fazer parte do quadro efetivo de empregados das empresas. Hoje, cerca de 95% das operações de colheita já são mecanizadas no Brasil.

Os grandes grupos também contribuíram para esse processo com sua capacidade de investimento, papel socioeconômico e repertório de valores ligados à sustentabilidade. Em muitos casos, a usina é a principal fonte pagadora de impostos e geradora de empregos na cidade. Suas atividades relacionadas à educação e à saúde ultrapassam a esfera corporativa e alcançam a população, colaborando para o desenvolvimento dessas regiões.

A Biosev, por exemplo, está realizando um Diagnóstico Social Participativo em todas as suas unidades, que permitirá elaborar um mapa de impactos sociais, ambientais e econômicos das atividades da empresa. E, a partir dessas informações, deve caminhar em uma direção que contribua para tornar suas relações ainda mais sólidas e construtivas com a sociedade. O papel das empresas do setor sucroenergético é fundamental para fortalecer os conceitos de sustentabilidade e a sociedade como um todo. Sob esse aspecto, as atenções podem e devem ir além das questões financeiras e ambientais.

*Artigo originalmente publicado na Revista Opiniões, edição de Novembro/Dezembro de 2015.

Rui Chammas