18/11/2015

Alemanha é modelo de mudança energética

O dia 25 de julho deste ano foi um marco na história da matriz energética da Alemanha: 78% da demanda de energia do país foram atendidos por fontes renováveis. No total, a produção foi de quase 48 gigawatts, o equivalente ao que produzem 50 usinas de carvão.

A mudança energética alemã acontece de forma contínua. Quase um mês antes, em 27 de junho, foi suspensa a operação da usina nuclear de Grafenrheinfeld. O reator, que funcionou por 33 anos, teria condições técnicas de gerar energia por mais duas décadas. Mas a decisão de fechá-lo foi política, tomada pelo governo da chanceler alemã Angela Merkel, cuja meta é não usar mais a energia nuclear. “Há décadas tentamos deixar a terrível tecnologia nuclear. O fechamento definitivo de Grafenrheinfeld é motivo de alegria”, diz Hubert Weiger, da Associação para o Meio Ambiente e Conservação da Natureza do país.

A Alemanha é prova de que até uma das maiores economias do mundo pode orientar sua matriz energética para fontes renováveis, mas é também exemplo de complexidade dessa mudança. Em 2014, 28% da demanda energética alemã vinham de fontes renováveis, como a eólica, a solar, a biomassa e a das hidrelétricas e o objetivo do governo era elevar o percentual em 35% até 2020.

As fontes renováveis deixaram de ser um nicho e se tornaram o grande foco da matriz de energia alemã

Em 2000, quando a nova Lei de Energias Renováveis (EEG, na sigla em alemão) foi implementada e a mudança energética, iniciada, a participação não chegava a 7%. Ao assegurar subsídios a investidores em energia eólica e solar, a EEG fez os projetos nessas áreas se multiplicarem. E não foram apenas as empresas que construíram aerogeradores. Milhares de domicílios instalaram sistemas de energia solar.

Apesar das mudanças, o país é um dos que apresenta a menor média de interrupção de geração de energia. O índice em 2014 foi de 12,28 minutos. “Nunca a confiabilidade da geração de energia elétrica na Alemanha esteve em um nível tão alto, mesmo comparado a outros países europeus”, diz Jochen Homann, presidente da agência federal responsável pelas redes de energia. Na Grã-Bretanha, a média é de mais de 80 minutos, na França mais de 100 e na Itália mais de 150.

O medo de apagões foi grande quando a Alemanha acelerou a mudança energética – em 2011, após a catástrofe com o reator de Fukushima, o país desativou rapidamente oito dos 17 reatores nucleares do país. Mas a chanceler Merkel foi incisiva: “A porcentagem de energias renováveis deixou de ser um nicho para tornar-se o pilar de nossa distribuição enérgica”, disse na ocasião. O que mais a preocupava era o aumento dos custos com a energia elétrica. A solução foi dividir a diferença entre os elevados subsídios para a energia limpa e os preços cobrado pelos atacadistas entre as operadoras de rede e os consumidores.

A acelerada reforma da energia eólica e solar trouxe grandes desafios às operadoras de rede. Nos períodos máximos, as energias renováveis deveriam cobrir mais de 70% da demanda, como aconteceu no dia 25 de julho. No entanto, nos dias cinza de inverno, quando não há sol e o vento sopra pouco, a potência cai rapidamente para 5%. E, quanto mais a oferta energética oscila por causa do clima, mais difícil é evitar quedas de energia. Além disso, as operadoras de rede precisam redistribuir a energia porque, enquanto as usinas nucleares eram desativadas no sul da Alemanha – onde a demanda energética é grande, por causa da concentração industrial – surgiam na costa norte os parques eólicos offshore.

A meta é atingir o objetivo de construir, nos próximos dez anos, cerca de 4 mil quilômetros de novas linhas de alta tensão. Para isso serão necessários € 20 milhões. O plano prevê a distribuição a novas regiões por três grandes rotas. A maior, Südlink, cruza a Alemanha de norte a sul por mais de 800 quilômetros. O planejamento e a construção serão feitos em quase uma década. Mas a instalação da rede está parada, por causa de protestos de moradores. “Este será um ano decisivo para o sucesso da mudança energética”, diz Hans-Jürgen Brick, gerente da operadora Amprion. “Se a construção da rede não começar agora, a mudança energética irá por água abaixo”, afirma. O governo nacional está se esforçando para que o projeto da mudança energética seja um sucesso, propondo novas leis e regulamentações para reequilibrar o mercado.

Mas os esforços não param por aí. É preciso proteger as usinas de gás que, com o avanço das energias eólica e solar, estão ameaçadas de sair do mercado pelos reduzidos preços de energia pagos pelos atacadistas. Outro foco é conter as operações das instalações de carvão que continuam comprometendo o meio ambiente local. Além de regulamentar o processo de desativação dessas usinas, é preciso ainda estabelecer normas para o descarte seguro das usinas nucleares. Tudo isso demonstra que a mudança energética da Alemanha está no caminho certo, mas permanece ainda bem longe de alcançar suas metas.