13/11/2015

Grupo de CEOs globais se reúne no país para debater segurança hídrica

Quando se encontrarem na manhã de hoje em Brasília, os 31 CEOs e representantes da política monetária mundial poderão se chocar com a secura, percebida como acima do normal, que assola a capital federal este ano. A chuva foi ingrata mas, para sorte deles, caiu na semana passada, após um intervalo de semanas consecutivas de estiagem que levou até os mais fortes a hospitais diante do calor inclemente do Cerrado neste inverno.

O ar que secou a garganta dos brasilienses poderá incomodar menos uns que outros, caso de Greg Page, conselheiro da Cargill, gigante do agronegócio fincada no verão insuportável de Minnesota, nos Estados Unidos. Ou Muhtar Kent, chairman da Coca-Cola, mais acostumado ao clima depois de passagem pela Ásia Central. Seja como for, algo parece certo: nada melhor que sentir na pele o desconforto do ambiente para entender as implicações.

Reunidos pela segunda vez no Brasil, os executivos farão nova rodada de reuniões como integrantes do Conselho Latino-Americano para a Conservação (LACC, em inglês), sigla que pretende fazer avançar três agendas decretadas cruciais e urgentes para a região: escassez de água, segurança alimentar e infraestrutura.

Criado em 2011 por Mark R. Tercek, ex-banqueiro de investimentos do Goldman Sachs, hoje CEO da organização ambientalista “The Nature Conservancy” (TNC), o grupo reúne o know-how, a influência política e os recursos financeiros de grandes empresários para ajudar na conservação do chamado “capital natural” – a terminologia que denomina a riqueza embutida nos rios, oceanos e florestas. A intenção é fomentar a inovação e soluções aplicáveis em larga escala para os desafios à frente.

“Temos outros grupos similares a esse, mas a América Latina é diferente porque os ecossistemas estão em melhores condições – certamente muito melhores que na América do Norte e na Europa – e, ao mesmo tempo, a região não só registra crescimento rápido, como sofre a pressão de ser o celeiro agrícola do mundo”, diz Tercek. “Os ecossistemas precisam ser preservados para que o desenvolvimento perdure”.

Formado por pesos-pesados do mundo empresarial e financeiro (incluindo presidentes de bancos centrais e Henry Paulson, ex-secretário de Tesouro americano), o LACC se reúne uma vez por ano para um “brainstorming” sobre o estado dos recursos naturais. Já passou por Cidade do México (2011), Foz do Iguaçu (2012), Playa del Carmen (2013) e Cali (2014).

Em Brasília, o conselho se trancará hoje para ouvir os avanços obtidos nas três agendas. Segundo Tercek, como bons executivos, eles continuarão pressionando por resultados eficazes e mais rápidos. “A ideia de criar o conselho partiu da percepção de que há muita coisa boa sendo feita para assegurar segurança hídrica e alimentar, ou combater as mudanças climáticas, mas são ações isoladas e pequenas diante dos desafios que teremos”, diz o executivo. “O sentimento é que precisamos acelerar as soluções e ganhar escala.”

No encontro deste ano, um dos pontos de destaque será a apresentação da Coalizão Cidades pela Água, um projeto lançado esta semana que pretende elevar a segurança hídrica de 12 regiões metropolitanas brasileiras – há outras 13 cidades na América Latina.

A agenda de Tercek, ontem, previa encontros com representantes dos ministérios de Minas e Energia, Agricultura e Meio Ambiente para discutir infraestrutura verde. As conversas ocorreram desde o início da tarde em um hotel de luxo, à beira do Lago Paranoá. A programação previa a realização de um jantar no local. Entres as autoridades brasileiras confirmadas estavam os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e de Minas e Energia, Eduardo Braga.

A lista de convidados ilustres incluía, além de Paulson, o ex-CEO do Banco Nacional de México (Banamex), Roberto Ramírez, e o ex-presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. Também integram a relação de participantes executivos como Alain Belda (Warburg Pincus), Jorge Paulo Lemann (AB Inbev) e Greg Page (Cargill).

Hoje, as conversas dos CEOs deverão voltar-se sobretudo à água, commodity diretamente ligada à operação de membros como Coca-Cola e Anheuser-Busch InBev. Amanhã, o grupo parte para Alta Floresta (MT) para ouvir sobre a dinâmica floresta-agricultura.

“O debate com executivos é muito interessante, porque eles fazem perguntas duras, que obrigam os cientistas a ajustar o foco”, diz Tercek. Ele cita o interrogatório ao qual foi submetido por Carlos Salazar, presidente da Femsa, maior engarrafadora independente da Coca-Cola. “Salazar fazia perguntas sobre os locais que deveriam ser conservados para garantir o abastecimento confiável de água, se florestas mistas são melhores que as de uma espécie só e, claro, quanta água obteria em cada dólar gasto em conservação.”

Para a Femsa, a saúde dos mananciais que abastecem Monterrey, onde está sediada, tornou-se uma variável econômica da mais alta importância. A cidade mexicana sofre com inundações no verão e seca profunda no inverno, uma volatilidade difícil de administrar para um negócio baseado na oferta contínua e estável de água. Desde que foi criado, o LACC estruturou uma série de fundos de água, como os de Quito, Nova York e Monterrey. O conselho conta com US$ 15 milhões. As empresas contribuem com dinheiro e pesquisadores para o aprimoramento das pesquisas e o pagamento dos cientistas.