15/01/2016

Bioeletricidade teve crescimento lento no 1º semestre de 2015

De acordo com levantamento feito pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) sobre o desempenho de usinas movidas à biomassa no 1º semestre de 2015, o crescimento foi de 15% na comparação com 2014. Já a representatividade da fonte chegou a 7,7% da matriz energética brasileira no período. O montante médio produzido (1.860 MW) foi 239 MW superior ao registrado no mesmo período de 2014.

O Estado de São Paulo se manteve como principal produtor de energia a partir da fonte no Brasil, gerando 841 MW médios no primeiro semestre de 2015. Em seguida estão o Mato Grosso do Sul com 272 MW médios, Goiás (208 MW médios) e Minas Gerais (182 MW médios).

Diante dos dados, o presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), Celso Junqueira Franco, ressalta que o valor de 7,7% se refere a toda a energia que a usina gera, incluindo seu consumo próprio. Ou seja, esse valor não é totalmente disponibilizado para a rede, mas sim apenas 2%.
Celso comenta que a falta de estímulo para produção por parte do governo não pode ser explicada. “Há problemas como a falta de planejamento a longo prazo, em que o governo defina o uso de cada uma das fontes. Por ano há os leilões promovidos pelo Ministério de Minas e Energia (MME), mas quais critérios para estabelecer os valores teto de energia de cada fonte?”, contesta. Segundo ele, o que deveria ocorrer seria a opção por energias mais limpas ou mais econômicas, além de uma maior transparência nos critérios dos valores de energia.

O gerente em bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Zilmar de Souza, avalia que a bioenergia hoje já é bastante representativa no Brasil. Entretanto, ele também acredita que é possível avançar ainda mais, dado o potencial existente: “Em 2014, por exemplo, a gente poderia ter gerado algo em tordo de seis a sete vezes o que geramos. Isso não acontece porque temos que ter uma política dedicada não só para bioeletricidade como também etanol e açúcar. Há falta de uma política de longo prazo que informe qual o papel da bioeletricidade”.
De acordo com Zilmar, em 2014 foram exportados para a rede 19 terawatts-hora (twh), sendo que, com a mesma biomassa, era possível ter chegado a 129 twh. “Precisamos de regras claras e estímulo ao investimento”, afirma.

Por outro lado, o professor da Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Enes Gonçalves Marra, não compartilha da ideia de que o governo seja o principal responsável por induzir o uso da biomassa na matriz de energia elétrica do País. “A limitação no uso dessa forma de energia decorre de uma série de fatores. Um deles é a dispersão da matéria-prima – qualquer galho de árvore ou resíduo animal pode ser considerado biomassa, que é definida como matéria orgânica de origem vegetal ou animal passível de ser transformada em energia térmica ou elétrica. Outro é a pulverização da geração, distante dos grandes centros. Um terceiro é a associação dessa fonte ao desflorestamento e à desertificação – um fato que ocorreu no passado, mas que está bem resolvido”.

O professor destaca que, atualmente, a indústria sucroenergética é responsável por cerca de 90% da energia elétrica da biomassa, utilizando o bagaço de cana como combustível.
Dificuldades

Conforme analisa o professor Enes, há desafios técnicos no modelo de conexão desse tipo de geração à rede de energia elétrica: “A geração de energia a partir da biomassa é feita por meio de geradores dispersos ao longo da rede, chamada de geração distribuída (GD). Esse tipo de geração aumenta o custo operacional e requer a adaptação da proteção do sistema, além de acarretar riscos operacionais. A GD tem dificuldades de atender índices de qualidade e confiabilidade para fornecimento de energia elétrica. Além disso, o fornecimento da energia é sazonal e depende ciclos de produção e colheita”.

O presidente da Udop destaca que o setor sucroenergético, ao processar a cana, já tem disponível o bagaço como um combustível utilizado nas cadeiras, além da palha que fica nos canaviais. “O combustível já existe, mas o setor precisa viabilizar os gargalos da conexão que deveria ser resolvido dentro da distribuição de energia. Com isso o setor poderia contribuir com o equivalente a 18% da energética consumida. Hoje basicamente são 3%”, explica Celso.
Com relação às tecnologias envolvidas no processo de produção da energia, Celso afirma que não há entraves, já que os equipamentos são totalmente nacionais. Ou seja, não há dificuldades na adequação das usinas. “Não temos outro problema além do governo. É ele que define as regras”.

Já Zilmar lista quatro pontos de destaque que emperram o desenvolvimento da bioenergia no Brasil: ausência de leilões dedicados à biomassa; dificuldade de conexão até o ponto de distribuição, o que chega a representar 30% do valor de investimento para o produtor; dificuldade de financiamentos e o encarecimento das linhas de crédito e os tributos e encargos do País.

Mercado
Nesse contexto, por se tratar de um projeto de retorno lento, as usinas não se arriscam a comercializar a energia no mercado livre. Para que seja viável, é preciso assinar contratos a longo prazo, que seria o modelo de leilões, mas que hoje apresentam um teto muito baixo, o que inviabiliza a participação do setor sucroenergético.

Celso comenta que “nos últimos 13 anos tivemos apenas a entrada de 3% na matriz, sendo que poderia ser 18%. Com não existe nenhuma sinalização clara do MME, não há como prever cenários futuros”.
Sobre os leilões, Zilmar destaca o A-5, a ser realizado em janeiro de 2016 e que vai contratar energia para 2021. “Nós estamos na fase de cadastrar projetos. O penúltimo leilão havia comercializado R$281 por kwh. Qual vai ser o preço agora? Precisamos de regras claras com leilões que tenham preços remuneradores”, diz.

No final de 2008, a biomassa chegou a vender mais de 30 projetos. Desde então houve uma instabilidade nessa contratação, quando se chegou a venda zerada em leilões no ano de 2012 em leilões.
Em 2013 o governo tirou a biomassa da concorrência direta com eólica, mas colocou concorrência com carvão e gás, que não são renováveis. “De 2013 para cá houve melhora no preço da biomassa. A gente esperava que continuasse melhorando, mas o preço foi reduzido no último leilão”, lamenta Zilmar. Segundo ele, espera-se que haja uma melhora de preço.
“Em 2015 não temos mais nenhum outro leilão a apresentar e vendemos apenas três projetos. Tem que ousar mais”, conclui.

Para o futuro, Enes afirma que o desenvolvimento da produção de energia dependerá da sua capacidade de competição econômica. “Por exemplo, atualmente já existe tecnologia para produzir álcool a partir do bagaço de cana, embora seja cara. Então, no futuro, pode ser mais vantajoso produzir álcool a queimar o bagaço para produzir energia elétrica. O preço de remuneração da energia elétrica produzida será um fator determinante”.
Entretanto, o professor lembra que queimar bagaço de cana emite CO2 na atmosfera, embora seja uma forma renovável de energia. “A energia da biomassa deve se expandir também para o aproveitamento do biogás originado, por exemplo, de resíduos de suínos, aves e bovinos, de aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto, ou como subproduto em processos da indústria de alimentos. Outras alternativas são as florestas plantadas e resíduos da indústria madeireira”.

Enes ressalta que o objetivo de desenvolver a bioeletricidade não é torná-la o principal produto das usinas ou da matriz brasileira. “Toda forma de energia é bem-vinda e necessária. O importante é haver uma matriz energética diversificada e confiável, com a participação de diversas fontes de energia. Devemos nos perguntar como podemos viver com menos energia, afinal, qualquer que seja a forma, a fonte é uma só: o planeta Terra, a natureza”.