28/01/2016

Conta de luz cara dá ao mercado de energia livre novo fôlego no Brasil

Pequenas e médias empresas promovem, desde o ano passado, corrida em busca de melhores alternativas; diferença, considerando cenário conservador, pode chegar a 25% no preço final da conta

A adoção das bandeiras tarifárias não foi a única novidade da conta de luz em 2015. O valor da energia elétrica também sofreu uma forte puxada, com alta de 50% na comparação de janeiro a dezembro do ano passado, sendo motivada pela crise no sistema hídrico e pelo abandono da política de represamento dos preços que vinha sendo adotada pelo governo federal.

Como decorrência, pequenas e médias empresas (indústrias, prédios, centros de compras, hotéis e hospitais) iniciaram no último trimestre do ano uma corrida para fora do sistema regulado de fornecimento de eletricidade para ingressar no mercado livre de energia.

Ainda desconhecido da maioria dos empresários, ele não passa pelo processo de precificação do governo federal e não tem seu preço vinculado às bandeiras tarifárias instituídas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) – ela cobra mais caro ou mais barato pelo eletricidade de acordo com o custo de geração no período do consumo.

Ontem, a Aneel anunciou um novo – e mais barato – patamar para a bandeira vermelha, que vem sendo paga pelos consumidores brasileiros desde janeiro do ano passado. Os novos valores, mais baixos em relação aos atuais, passam a vigorar em fevereiro e, segundo contas de operadores de mercado, devem reduzir em cerca de R$ 15 o preço pago pelo MWh pelos usuários do mercado cativo.

Mesmo assim, ao obedecer apenas as regras de oferta e procura, o mercado livre tende, ao menos em teoria, a trazer maior previsibilidade no preço do ativo. Como consequência, isso cria um ambiente para a consolidação de ferramentas consagradas no mercado financeiro, como operações de compra de energia futura que travam o preço a se pagar mensalmente pelo produto em seis meses, um, dois ou até nos próximos cinco anos.

“A diferença de preço é muito favorável para o mercado livre hoje e, pelo menos, nos próximos dois anos. Estamos vivendo um momento de grande interesse por parte dos empresários”, diz José Maurício Carvalho, sócio da Ecom Energia, empresa que comercializa e presta serviços de intermediação entre geradores e compradores corporativos de energia no mercado livre.

“Além da oscilação natural, o preço da energia livre varia muito dependendo do consumo médio do cliente, da região em que ele está, dos fornecedores e do gerador. Mas dá para dizer que, no longo prazo, o preço tende a ser mais baixo que o do mercado cativo”, afirma Walfrido Avila, presidente da Trade Energy, que também atua na área.

Na região Sudeste, por exemplo, o preço médio do megawatt hora adquirido por uma empresa com consumo médio de 730 MWh por mês gira em torno de R$ 307,67 no mercado livre, 25% menos que os R$ 384,25 da energia cativa.

“Nosso número de clientes deve crescer em 40% do último trimestre de 2015 até o fim deste ano”, afirma Alexandra Susteras, gerente de gestão de consumidores da Ecom.

Coincidentemente, os números de expansão da base de clientes da Ecom seguem próximos ao interesse pela migração do mercado cativo para o livre. Dados da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel) apontam para 700 novas migrações esperadas para este ano. Isso representaria um incremento de cerca de 40% na base de 1.826 empresas que já atuam fora do ambiente regulado.

“Nós verificamos um número importante de processos abertos no nosso sistema para migrar do mercado cativo para o livre. São 438 pedidos, 283 com migração esperada até março e 155 após março deste ano”, afirma Rui Altieri, presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

“É preciso analisar que essa decisão de migração não é simples de ser tomada. Geralmente, a empresa vem de um relacionamento de longa data com os fornecedores no formato cativo”, analisa o especialista.