11/01/2016

Distribuidoras enfrentarão consumo menor em 2016

As distribuidoras de energia devem conviver com mais um ano de retração na demanda, ao mesmo tempo em que as tarifas cobradas devem continuar em alta, pressionando seus resultados financeiros. A inadimplência, que cresceu já no terceiro trimestre do ano passado, deve continuar em alta, sendo um fator adicional de preocupação para o setor.

Dados divulgados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) na semana passada mostraram que o consumo de energia caiu 1,8% em 2015 na comparação com o ano anterior. Segundo o Santander, isso indica que todas as distribuidoras, especialmente Eletropaulo, CPFL e EDP Energias do Brasil, serão pressionadas nos próximos trimestres.

Para João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia, os preços de energia devem crescer aproximadamente 15% em 2015, devido ao pagamento dos empréstimos e contratos feitos pelas distribuidoras nos últimos anos. Também projetam uma alta nessa linha Pedro Machado, sócio diretor da consultoria GV Energy, e Fábio Cuberos, gerente de regulação do grupo Safira Energia.

Se concretizada, essa alta será muito inferior aos reajustes de cerca de 50% aplicados às tarifas em 2015. Ainda assim, deve ajudar a reforçar o cenário de redução do consumo e aumento da inadimplência, principal desafio enfrentado pelas companhias neste ano, segundo o Credit Suisse.
Esse cenário de baixa no consumo pode resultar na sobrecontratação das distribuidoras, e na redução do interesse delas em novos leilões de geração.
Segundo Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vai haver menos demanda para os leilões. “Em geral as distribuidoras estão atendidas, o que é natural, porque elas fazem um contrato com uma previsão de crescimento. Sem dúvida vai ter uma queda de necessidade de contratação”, afirmou. Para ele, o lado positivo é que “[pouca demanda] aumenta a competitividade. Vai ter um preço melhor para o consumidor [nos leilões]”.

O professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica (Gesel) da UFRJ, também espera que os leilões de 2016 sejam fracos. “[A distribuição] é um setor defensivo, em relação ao cenário econômico e político”, apontou.
Ao mesmo tempo em que enfrentam o cenário adverso, as distribuidoras precisarão cumprir as exigências feitas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para a renovação das concessões, o que deve resultar indiretamente num movimento de consolidação do setor. Esse movimento deve ganhar força também com a privatização das distribuidoras da Eletrobras.

Leilões devem ser mais fracos neste ano, refletindo a menor demanda das empresas, diz Nivalde de Castro
Para permitir a renovação das concessões de distribuição com vencimento de 2015 a 2017, a Aneel exigiu o cumprimento de uma série de indicadores financeiros e de qualidade ao longo de cinco anos depois da renovação. Se certas metas de qualidade não forem cumpridas, a Aneel deve restringir a distribuição de dividendos.

Se as metas periódicas não forem cumpridas por dois anos seguidos, ou no quinto depois da renovação ano, a concessionária pode perder a concessão. Com isso, abrirá espaço para a consolidação, uma vez que empresas em condição melhor podem ter interesse em expandir suas operações, avalia o Morgan Stanley.

Segundo Eduardo Haiama, diretor financeiro e de relações com investidores da Equatorial Energia, o movimento de consolidação deve acontecer, sendo reforçado pela provável privatização das demais distribuidoras da Eletrobras, além da Celg Distribuição (Celg D).
“Até porque o momento econômico favorece [a privatização e a consolidação]. O governo tem de focar no que é essencial. A venda da Celg D mostra isso”, disse Haiama.

Os acionistas da Eletrobras iam deliberar sobre a privatização de todas suas distribuidoras em uma assembleia marcada para 28 de dezembro, mas o controlador – o governo federal – tirou da pauta do dia a discussão sobre as distribuidoras, exceto a Celg D. Com isso, foi aprovada apenas a venda das ações da distribuidora de Goiás.

A Equatorial Energia mantém o interesse em participar do leilão de privatização da Celg D, mas ainda precisa analisar os números da companhia e as condições do negócio, disse Haiama. “Interesse, nós temos. Sempre falamos isso”, afirmou ele.

A CPFL Energia também já declarou ter interesse na distribuidora, devido às possibilidades de ganho operacional e vantagens de sinergia. Segundo o Morgan Stanley, a CPFL é a concessionária melhor posicionada para expandir suas operações com a consolidação que deve resultar das concessões que serão renovadas, por ser considerada “um agente eficiente”.

Das 41 concessões que estão expirando, 22 não atingiram as métricas de qualidade estabelecidas pela Aneel e muitas delas estão localizadas próximas das concessões da CPFL. Entre as concessões que podem interessar a CPFL, o Morgan Stanley indica algumas localizadas no interior de São Paulo e Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, devido à possíveis sinergias.