06/01/2016

Seca no Nordeste põe em risco queda de preço da energia

Os riscos de um racionamento de energia podem ter ficado para trás, mas 2016 começa com sinal preocupante devido à forte seca no Nordeste, que pode exigir o religamento contínuo de térmicas mais caras e colocar em risco uma eventual mudança da bandeira tarifária vermelha e um alívio esperado para a inflação. A região tem menor peso no Sistema Interligado Nacional (SIN), o que reduz o risco desabastecimento no país, mas, para garantir o fornecimento de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pode ter que contar com usinas que foram desligadas em agosto de 2015.

Na última segunda-feira, o ONS determinou o acionamento de seis termelétricas do grupo de usinas mais caras – com custo de operação superior a R$ 600 por megawatt-hora (MWh) – localizadas no Nordeste. Essas térmicas produziram apenas 184 megawatts (MW) médios, mas segundo relatório do órgão, as usinas “geraram, por solicitação do ONS, ao longo do dia, devido à menor disponibilidade de geração eólica e térmica no submercado Nordeste”.
Devido ao fenômeno climático “El Niño”, caracterizado pela escassez de chuvas no Nordeste, o nível dos reservatórios hidrelétricos da região está no patamar crítico de apenas 5,05%, de acordo com dados do ONS. No início do ano passado, os lagos dessas usinas estavam com 18,1% da capacidade de armazenamento.

Além disso, ao contrário de outras regiões do país, a expectativa do ONS é que o consumo de energia no Nordeste neste mês (de 10.890 MW médios) cresça 2,6% em relação a igual período de 2015, de 10.616 MW médios.
Considerando a situação dos reservatórios e a variabilidade do fornecimento das eólicas, que têm forte presença na região Nordeste, o religamento das usinas caras pode voltar a acontecer, colocando em risco a redução do custo extra das bandeiras tarifárias.

“Como o sistema de bandeiras olha o cenário energético do Brasil, se houver um despacho térmico, o custo dessa térmica é que vai ser considerado para identificar a bandeira que vai ser aplicada no mês seguinte. Se o preço no Nordeste estiver mais alto, e isso ocorre porque alguma térmica está sendo despachada lá, aquela térmica vai impactar no preço da bandeira tarifária”, afirmou Fábio Cuberos, Gerente de Regulação do Grupo Safira Energia.
Atualmente, está em audiência pública na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) uma mudança na cobrança das bandeiras. Se a nova regra for aprovada, a bandeira vermelha será dividida em duas categorias. Se o custo variável unitário (CVU) da termelétrica mais cara despachada ficar entre R$ 422,56 por MWh e R$ 610 por MWh, haverá acréscimo de R$ 4,00 para cada 100 kilowatts-hora (kWh). Se o CVU da usina mais cara for superior a R$ 610 por MWh, o acréscimo será de R$ 5,50 para cada 100 KWh consumidos.
Hoje, o brasileiro tem um adicional de R$ 4,50 para cada 100 kWh consumidos, relativo ao patamar atual da bandeira vermelha.

“A geração térmica do Nordeste vai continuar segurando o sistema”, disse Eduardo José Bernini, ex-presidente da AES Eletropaulo e sócio-diretor da consultoria TempoGiusto. Segundo ele, o ONS está tendo um grande desafio para manter a sincronia e a estabilidade do sistema. Para Bernini, a tendência é que o adicional da bandeira tarifária tenha redução nesse ano.
Se concretizada, a mudança da categoria “2” para a “1” da bandeira vermelha representaria uma ajuda para reduzir a inflação, diz Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, suficiente para baixar as contas de luz em cerca de 1%. Como esse item tem peso de 4% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a deflação retiraria apenas 0,04 ponto percentual do indicador. Um alívio maior poderia ocorrer com a entrada da bandeira amarela ou verde, mas, devido às elevadas incertezas no cenário para os preços de energia, Leal prefere não trabalhar com essa hipótese. Por isso, ele estima alta entre 8% e 10% para a tarifa residencial em 2016. “Se houver alguma surpresa favorável e mudança para bandeira verde, esse número poderia ir para algo próximo de 5%”, calcula.

Para João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia, o ONS deve aguardar o fim do período chuvoso para definir se vai alterar a bandeira. “Acreditamos que devem continuar com a bandeira vermelha, pois essa é uma boa hora para recuperar os reservatórios”.

O sócio diretor da consultoria GV Energy, Pedro Machado, também não espera uma mudança na cor da bandeira até o fim do primeiro semestre. “O período úmido ainda está muito seco no Nordeste, que já vem de crise hídrica muito forte. A situação do Nordeste é bem crítica”, disse.

No caso dos preços de energia no mercado de curto prazo, a diferença impressiona. Na primeira semana de janeiro, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) ficou próximo de R$ 40 por MWh nas regiões Sul e Sudeste. No Nordeste, foi para cerca de R$ 350 por MWh. “Pode ocorrer do PLD [no restante do país] chegar ao piso, mas é importante deixar claro que a situação não está confortável. Estamos com bastante despacho fora da ordem de mérito para segurança energética”, disse Cuberos.

Machado prevê um PLD médio no Sudeste de R$ 42 a R$ 132 por MWh este ano. Segundo ele, os contratos de longo prazo (quatro anos) no mercado livre são negociados hoje a preços 45% menores que no início de 2015, devido à menor demanda.