15/02/2016

Emergentes terão de dobrar aportes em energia, diz estudo

Países emergentes terão de dobrar seus investimentos em energia nos próximos 20 anos, e o Brasil, mesmo com a crise, pode arcar com parte significativa dos gastos. Estudo da Bain & Company em parceria com o Fórum Econômico Mundial (WEF na sigla em inglês) estima que até 2040 serão necessários que os investimentos subam da média de US$ 250 bilhões para US$ 495 bilhões por ano para fazer frente às necessidades das economias em desenvolvimento.

O estudo foi apresentado preliminarmente em Davos, na Suíça, durante o encontro anual do WEF. De acordo com o Fórum Mundial, 1,2 bilhão de pessoas não tinham acesso a energia elétrica em 2012.
O Brasil deve investir no período mais de R$ 200 bilhões, estima Antonio Farinha, sócio da Bain & Company. O número tem por base a projeção da Empresa de Planejamento Energético (EPE) em seu plano plurianual 2015-2024. A estatal projeta gastos de R$ 260 bilhões em geração e distribuição, que podem não se concretizar por inteiro devido à recessão.
“Essas projeções foram feitas quando o cenário macroeconômico não era tão difícil”, diz Farinha. “O investimento será menor nos próximos anos. Mas qualquer coisa acima de R$ 200 bilhões é significativo.” O consumo per capita de energia relativamente baixo no país deve assegurar o investimento acima dos R$ 200 bilhões, diz.

O estudo cita a experiência brasileira do Luz para Todos, programa oficial que investiu cerca de US$ 7 bilhões nos anos 2000 e levou a eletricidade para 3 milhões de famílias. O programa brasileiro é considerado bem-sucedido ao elevar de 73% para 97% a eletrificação rural entre 2002 e 2012.
Caso as projeções se confirmem, nos próximos 25 anos os mercados emergentes tomarão a ponta nos investimentos em geração e transmissão de energia, superando as economias maduras. O desafio consiste em atrair dinheiro privado, já que nos emergentes o poder público tradicionalmente responde por 70% dos investimentos.

O estudo defende a importância de desenvolver projetos que resultem no menor custo possível para a ponta de consumo. Farinha entende que os governos precisam se preocupar com a questão regulatória – a fim de assegurar confiabilidade – e com a modelagem dos contratos – para garantir o retorno dos investimentos.

Para Farinha, o setor elétrico brasileiro perdeu valor de mercado nos últimos quatro anos, o que diminui sua capacidade de investimento. Levantamento do Valor Data mostra que a perda de valor de mercado das 20 principais empresas do setor na bolsa brasileira foi de 20,6% entre fevereiro de 2012 e a última quinta-feira. Desconsiderada a Eletrobras, a queda é de 21,6%. Já o investimento (Capex) teve recuo de 15,3% (16,5% de queda excluída a Eletrobras) até o terceiro trimestre de 2015 comparado a igual período de 2014.

O resultado do setor no período cresceu em torno de 11% sem a estatal, mas caiu 29,3% quando a Eletrobras entra na conta. A decisão de excluir a estatal considera a distorção causada pelo prejuízo de R$ 4,5 bilhões da empresa até o terceiro trimestre de 2015. Retirada a estatal, o resultado líquido do setor no período sobe de R$ 4,3 bilhões para R$ 8,8 bilhões.
A necessidade de investir em energias “limpas”, que, por enquanto, requerem gastos iniciais mais elevados que as fontes tradicionais, favorece o cumprimento das projeções, comenta Farinha. Outro aspecto que referenda as projeções da consultoria é a perspectiva de aumento da renda per capita nos principais países emergentes. Como têm consumo per capita menor, emergentes têm maior aumento de demanda por energia quando a economia reage.

A situação pode não se aplicar ao Brasil neste momento, lembra Farinha, devido à estagnação da economia e a retração dos investimentos no país, que já provocaram queda de 3% no consumo de energia do ano passado. Mas outros emergentes, como China e Índia deverão puxar os investimentos.
“Fala-se em desaceleração da China, mas é porque crescia 10% ao ano e em 2015 cresceu 6,9%”, afirma Farinha. “Para este ano, a previsão é de 7%, mas mesmo que cresça menos, 6%, é um crescimento muito grande para a segunda maior economia do mundo. É um crescimento importante, que demanda mais oferta de energia.”

O consultor acredita que os segmentos com maior potencial para crescer são as fontes mais limpas e recentes, como eólica – segmento que mais cresce no Brasil – e solar.