18/02/2016

Energia limpa é a tendência

A reunião sobre o clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a CoP-21, realizada em Paris, em dezembro, reforça uma tendência para o setor de energia: o petróleo perde relevância gradualmente, ao longo das próximas décadas, com investidores e governos analisando investimentos crescentes em fontes renováveis.

“O petróleo funcionou por décadas como preço diretor das fontes de energia, mas agora podemos assistir ao início do fim dessa era, com as medidas de Paris tendo realmente efeito”, diz o ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) Helder Queiroz. Hoje as fontes respondem por apenas 3% da matriz energética mundial, mas com tendência de expansão. Para ele, a velocidade de penetração de novas tecnologias, como o carro elétrico e a energia solar, que reduziria o consumo de petróleo, dependerá da criação de políticas públicas de incentivo para essas fontes. Em dezembro, os 195 países representados na Conferência do Clima em Paris chegaram a um acordo, que valerá a partir de 2020, obrigando a participação de todas as nações no combate às mudanças climáticas. O acordo faz referência a esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC.

Para Lavinia Rocha de Hollanda, coordenadora de Pesquisa da FGV Energia, o cenário energético mundial mudará ao longo das próximas três décadas com uma preocupação crescente em relação ao aquecimento global. “O mundo caminha para um avanço das energias renováveis e é um caminho sem retorno em um ambiente em que a precificação do carbono ganha alcance”, destaca. Após a reunião de Paris, fundos de pensão dos Estados Unidos, como o New York State Common Retirement e o de aposentados da Universidade da Califórnia, já começaram a exigir das petroleiras nas quais investem informações sobre como as empresas se preparam para a economia de baixo carbono.

A transição do petróleo para as energias renováveis será lenta e gradual, salvo uma revolução tecnológica. As economias emergentes, principal motor da demanda, são altamente dependentes de combustíveis fósseis. No Brasil, que responde por 3% do consumo de derivados no mundo, metade da demanda energética se origina do setor de transportes, com as rodovias respondendo por 60% da circulação de mercadorias. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que, em 2035, o petróleo, o gás natural e o carvão fornecerão 75% da energia consumida em todo o mundo.

“A agenda renovável faz muito sentido para alguns países e pode moderar a potencial demanda de petróleo para baixo”, diz o sócio da Bain & Co, José de Sá.
Entre as energias renováveis que ganharão espaço estão a solar e a eólica. “No mundo, a energia solar tem tido uma redução de custos de mais de 50% nos últimos dez anos e ela pode se tornar ainda mais competitiva”, diz o presidente da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), Mauricio Tolmasquim. Em 2024, a energia hidrelétrica responderá por 58% da matriz elétrica do Brasil; as eólicas, 11%; a solar, 3%; e as térmicas, 14%, segundo a perspectiva preliminar do Plano Decenal 2024.

Reduzir a pegada ambiental é preocupação da L’Oréal. Em 2012, a fábrica de SP passou a substituir suas caldeiras a gás por equipamentos flexíveis, que funcionam a etanol. Em 2015, o projeto foi estendido para a unidade do Rio de Janeiro. Já a energia elétrica que abastece as duas fábricas é toda oriunda de contratos no mercado livre de compra de energia de fontes renováveis. Em 2013, a Honda iniciou a operação de seu primeiro parque eólico e o primeiro do setor automotivo. Localizado em Xangri-Lá (RS), com investimentos de R$ 100 milhões, a unidade produzirá energia suficiente para atender toda a demanda da fábrica em Sumaré (SP).