02/02/2016

Geração distribuída ganha força na crise

Em tempos de crise, o aumento dos preços de energia e os receios de um racionamento de energia incentivaram o aumento da busca dos consumidores por serviços de eficiência energética e dos investimentos em geração distribuída. Em novembro, a Aneel publicou aprimoramentos na normativa que regula esse tipo de geração, o que deve dar mais força para as empresas do setor.

Em 2015, as conexões em geração distribuída cresceram mais de quatro vezes, saindo de 424 para 1.731 clientes. A potência instalada dos projetos ainda é pequena, de 16,5 megawatts (MW), mas a expectativa é de um crescimento mais acelerado a partir de agora. Apenas em novembro e dezembro do ano passado, mais de 700 clientes foram ligados ao sistema.
Apesar do alto custo de instalação, a procura continua elevada, pois a economia gerada ajuda a financiar os investimentos. A eficiencia energética é outro serviço oferecido geralmente em conjunto com a instalação da geração distribuída.

Conexões de geração distribuída cresceram mais de quatro vezes em 2015 e empresas veem manutenção do ritmo
“A possibilidade de gerar sua própria energia está chamando a atenção das pessoas, o mercado está crescendo mais rápido”, disse Adilson Liebsch, presidente da Empresa Brasileira de Energia Solar (EBES), que atua no desenvolvimento, instalação e manutenção de projetos de energia solar.
A geração distribuída permite que o consumidor troque energia com a concessionária de distribuição. O excedente da energia gerada é injetado no sistema em troca de uma remuneração. O Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída de Energia Elétrica, lançado em dezembro pelo Ministério de Minas e Energia, atualizou os valores da remuneração para R$ 454 por megawatt-hora (MWh) para fonte solar e R$ 329 por MWh para cogeração a gás.

Enxergando as mudança no mercado e o potencial da geração distribuída, algumas grandes empresas do setor elétrico já começaram a investir na tecnologia e também em eficiência energética.
É o caso da CPFL, que criou a CPFL Eficiência há um ano, com o objetivo para desenvolver soluções para a conservação da energia. De acordo com Luciano Goulart, diretor da empresa, o foco é identificar potenciais soluções para equipamentos e conservação de energia. Os esforços vão desde a troca das lâmpadas convencionais pelas de LED até a instalação de geradores a diesel ou gás.

Para Gourlart, a regulamentação aprovada pela Aneel no fim do ano passado deve estimular os investimentos na geração distribuída de energia solar, outro serviço oferecido pela companhia, que tem o foco em clientes industriais, shoppings e universidades, entre outros. Como o momento econômico aumenta as restrições de caixa dos potenciais clientes, a CPFL Eficiência oferece modalidades de contratos que permitem investimentos com capital próprio da empresa e remuneração através dos ganhos financeiros obtidos com a economia de energia.

Os projetos de energia solar fotovoltaica representam cerca de 80% dos 16,5 MW de potência instalada em geração distribuída até o fim do ano passado. A fonte biomassa representa 6% e o uso de gás responde por 5,7% do total.
Além da energia solar, a microgeração a gás foi incluída nas recentes alterações, uma novidade importante, segundo José Eustáquio da Silva, sócio diretor da Union Rhac, empresa especializada na elaboração de projetos para sistemas de climatização e geração de energia elétrica a gás e biogás.

Os aprimoramentos na regulamentação aprovados pela Aneel em novembro “vão ajudar a expandir muito a tecnologia”, disse Eustáquio. Um dos pontos visto por ele com bons olhos é a possibilidade de você gerar energia em um lugar e compensar na conta em outro endereço, desde que fiquem dentro da mesma área de concessão.
“Na regulamentação anterior, havia um grupo de clientes sem acesso a geração distribuída, o grupo dos ‘sem telhado’. Com a possibilidade de geração remota, eles podem criar estruturas que tenham um centro de geração que permita gerar excedentes de energia que compensem as despesas no outro endereço”, disse Liebsch.

A mudança no valor de referência (VR) da remuneração pelos projetos de geração distribuída foi considerada um avanço para Mikio Kawai, sócio-diretor da Safira Energia. “A fotovoltaica ficou muito mais atrativa. Isso ajuda, mas não é o avanço que a gente necessita”, afirmou, defendendo uma mudança nas regras para que o consumidor possa vender a energia gerada em sua casa para a distribuidora.

Apesar dos custos altos da instalação das novas tecnologias, as empresas voltadas para o setor prometem facilitações. A EBES, por exemplo, também aluga os equipamentos. No caso da compra, Liebsch diz que “em quatro ou cinco anos já há o retorno do investimento com a economia obtida”.
O câmbio é outro obstáculo. No caso da Union Rhac, a moeda americana influencia também no preço do gás importado. Para Eustáquio, porém, a queda do preço do petróleo deve ajudar na composição do custo do gás.
Os aprimoramentos da geração distribuída andam ainda junto da expansão das redes inteligentes (“smart grids”). Segundo a CPFL, para que a geração distribuída seja viável, necessita da tecnologia.

“Quando o cliente quer instalar uma placa solar na sua casa, comércio ou indústria, ele precisa solicitar um parecer de acesso à distribuidora. A distribuidora analisa o pedido e, quando aprovado o parecer, vai à casa do cliente e instala o medidor bidirecional. Com isso, o cliente consegue efetuar a compensação entre o que ele compra de energia da distribuidora e o que ele gera e devolve pra rede”, informou a CPFL.