18/02/2016

Maré favorável para usinas de cana

Após alguns anos de “vacas magras”, as companhias de cana-de-açúcar do país parecem ter virado a página com a forte recuperação dos preços do açúcar e do etanol, a partir de setembro passado. No último trimestre do ano, equivalente ao 3º da safra 2015/16 no Centro-Sul, todas as quatro empresas que divulgaram balanços referentes ao período apresentaram lucro.

Foi um período em que Raízen Energia, Biosev, São Martinho e Tereos Internacional se beneficiaram de cotações de açúcar e etanol nunca antes vistas para esse período no Brasil. Entre 1º de setembro e 31 de dezembro, o preço médio do hidratado, usado diretamente no tanque dos veículos, subiu 60% na usina em São Paulo, enquanto o do açúcar, 73%, conforme o indicador Cepea/Esalq dos respectivos produtos.

Três dessas companhias têm ações negociadas na BM&FBovespa e seus papéis se valorizaram desde setembro – Biosev (2,5%), São Martinho (52%) e Tereos (345%), segundo o Valor Data. Só a Raízen não tem capital aberto, mas influenciou a alta de 37% das ações de sua controladora, a Cosan.

O “céu de brigadeiro” desse mercado significou para a Biosev, a segunda maior empresa do setor, colocar um fim a um jejum de dois anos e três meses de perdas. No último trimestre do ano passado, a companhia, controlada pela francesa Louis Dreyfus Commodities, teve um lucro líquido de R$ 163 milhões, ante a perda líquida de R$ 86 milhões de um ano antes.

A Biosev, que traz no seu DNA a expertise de comercialização da controladora, foi, entre as quatro empresas, a que melhor conseguiu captar no trimestre a valorização das cotações do açúcar. No período de três meses findos em 31 de dezembro, vendeu cada tonelada ao preço médio de R$ 1.316, 33,5% acima do registrado em mesmo intervalo de 2014/15. O quadro foi potencializado pelos ganhos com etanol. Houve um volume vendido 55% maior e um preço médio 19,5% superior no período.

No balanço apresentado na última semana, a Biosev indicou que o bom retorno com o açúcar não deve parar por aí. Até o fim do ano passado, havia vendido a maior parte da commodity que será exportada na próxima safra, a 2016/17, a preços médios 20% mais altos.

Os resultados também geraram impactos benéficos para o endividamento, apesar de este ainda ser um ponto delicado para a companhia. Ao fim de dezembro de 2015, a dívida líquida (ajustada aos estoques de alta liquidez) recuou 3,1%, para R$ 5,5 bilhões, efeito da geração operacional de caixa no período e também do menor volume de recursos aplicados em capital de giro. No entanto, a relação entre a dívida líquida ajustada e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado ficou em 3,7 vezes, acima do teto dos ‘covenants’ [compromisso estabelecidos em contratos de financiamento] da empresa, de 3,5 vezes.

Sob essa maré sucroalcooleira favorável, a maior empresa do setor, a Raízen Energia, teve no intervalo um lucro de R$ 576 milhões, ante um prejuízo de R$ 87,5 milhões de igual trimestre da safra anterior, a 2014/15. No trimestre, a empresa, também controlada pela petroleira anglo-holandesa Shell, vendeu açúcar a preços 39% mais elevados que em igual intervalo de 2015/16 e o etanol, com alta de 21,2%. A maior parte do açúcar que será exportado em 2016/17 já está também vendida a preços 25% mais elevados que os da safra atual.

Para as que já registravam ganhos, a alta do açúcar e do etanol só veio para melhorar. Foi o caso da São Martinho que no 3º trimestre de 2015/16 elevou seu lucro em 42%, para R$ 76 milhões. O açúcar foi vendido a preços médios 19% maiores e o etanol, com alta de 30,1%. Para 2016/17, o ambiente tende a ser positivo. Até 31 de dezembro, a São Martinho havia vendido antecipadamente a maior parte do açúcar que será exportado a preços médios de 57,37 centavos de real por libra-peso – maior valor médio entre essas quatro companhias e 6,3% acima do seu preço médio de 2015/16.

As cotações elevadas do açúcar – impulsionadas pela perspectiva de um déficit mundial da commodity em 2015/16 – e do etanol, puxadas por uma demanda recorde pelo biocombustível no Brasil, também potencializaram os ganhos da Tereos Internacional. O negócio de cana no Brasil representou no 3º trimestre 59% dos R$ 492 milhões de Ebitda da companhia, que também tem negócios de amidos no país e no exterior. Em igual intervalo do ano passado, essa fatia foi de 53%. A empresa teve um lucro líquido de R$ 112 milhões, revertendo a perda de R$ 10 milhões em igual comparação. Para 2016/17, a Tereos vendeu parte de seu açúcar a preços médios 14% superiores à média de 2015/16.

Apesar de o etanol não possibilitar essa garantia de remuneração futura do açúcar – as empresas vendem a commodity em contratos na bolsa de Nova York -, as perspectivas de curto e médio prazos para o mercado do biocombustível são positivas, segundo especialistas.

Os resultados do quarto trimestre da safra 2015/16 – de janeiro a março – tendem a ser beneficiados também pelas cotações mais altas do etanol. Entre o início de janeiro até agora, os preços médios do hidratado já estão 19% mais elevados que a média do trimestre anterior (setembro-dezembro), conforme o indicador Cepea/Esalq.

Os estoques mais apertados do produto e a demanda elevada devem sustentar os preços na próxima safra, que começa em abril. Em relatório publicado nesta semana, o BTG Pactual avaliou que os preços do etanol ainda ficarão em níveis “muito rentáveis”.