22/03/2016

Bagaço e palha da cana podem ganhar o mundo e abrir novo mercado para as usinas

Esforços globais para conter o uso de usinas de energia movidas a carvão podem fornecer uma tábua de salvação para a indústria de cana-de-açúcar do Brasil. Essa é a aposta de empresas como a Cosan S.A., coproprietária da maior processadora de cana-de-açúcar do mundo, que confirmou uma joint venture de US$ 130 milhões para fazer pellets de biomassa com cana-de-açúcar, os quais podem ser queimados para produzir eletricidade.

No mundo, geradores de energia em centrais térmicas já estão expandindo seu uso de pellets de biomassa feitos de madeira para substituir o carvão. Assim, a Cosan espera que a demanda global por pellets aumente em 60% nos próximos cinco anos, criando um enorme mercado para o produto brasileiro feitos a partir do bagaço de cana-de-açúcar, o subproduto fibroso que geralmente é tratado como resíduo.

Os pellets de bagaço de cana ganharam atenção pelo mundo depois da Joint Venture entre Cosan e Sumitomo.

“Há uma tendência constante de substituir o carvão e outras fontes poluidoras por fontes renováveis para geração de energia”, afirma o presidente da Cosan Biomassa, Mark Lyra. Esse é o nome da joint venture formada pela Cosan e pela japonesa Sumitomo Corp. “Não há como voltar atrás porque as políticas para combater as mudanças climáticas estão sendo reforçada ao redor do globo. Ao usar resíduo da cana-de-açúcar, o Brasil está se posicionando para se tornar a Arábia Saudita da energia renovável”, declara.

Produção e demanda por pellets

Atualmente, pellets de biomassa de madeira dominam a indústria e quase todos eles são provenientes de florestas na Europa, dos Estados Unidos e do Canadá. A Cosan e a Sumitomo esperam que o mercado global salte para 40 milhões de toneladas em cinco anos, considerando que, no momento, ele está em 25 milhões de toneladas.

O Brasil, maior produtor de cana do mundo, pode ser capaz de produzir até 80 milhões de toneladas por ano a partir do bagaço, o suficiente para abastecer toda a indústria, de acordo com a Cosan. “A biomassa da cana pelletizada é uma nova commodity que está sendo criada para servir a economia de baixo carbono”, disse Lyra.

O mercado global deve saltar de 25 para 40 milhões de toneladas em cinco anos. De acordo com a Cosan, o Brasil pode produzir até 80 milhões de toneladas por ano a partir do bagaço.

A crescente demanda por pellets de biomassa vem de nações buscam reduzir sua dependência do carvão, que produz cerca de um terço da eletricidade do mundo, de acordo com o World Resources Institute, em Washington (EUA). Um exemplo são as importações japonesas de pellets de madeira mais do que duplicaram no ano passado, alcançando um recorde de 232,4 mil toneladas, de acordo com o Ministério de Finanças do país.

No Japão, o Ministério do Comércio aprovou mais de 2 GW de novos projetos de biomassa de madeira desde a introdução, em julho de 2012, de incentivos conhecidos como tarifas feed-in, o que exigiria cerca de 40 milhões de metros cúbicos de material por ano. Esse número representa quase o dobro da produção anual doméstica de madeira do Japão, de acordo com estimativas da Biomass Industrial Society Network.

A Sumitomo, por sua vez, espera que o consumo de pellets do Japão alcance cerca de 10 milhões de toneladas por ano até 2030, de acordo com o gerente geral da empresa para a biomassa, Yoshinobu Kusano. Isso vai ajudar o Japão a cumprir seu objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 26% até 2030, parte de seus compromissos no âmbito do acordo climático global firmado em Paris em dezembro.

No Brasil, a usina de pellets da Cosan, localizada no estado de São Paulo, iniciou recentemente a produção, que deve chegar a cerca de 175 mil toneladas anuais. Esse número pode chegar a 2 milhões de toneladas por ano em 2025 e os primeiros alvos da joint venture incluem Japão, Coreia do Sul e Europa.

Alterações climáticas influenciam mercados

A unidade energética da Sumitomo também está construindo a maior usina de biomassa do Japão. A planta, localizada em Handa, terá 75 megawatts de capacidade e está prevista para entrar em operação no próximo ano.

“À medida em que a mudança climática se tornar uma preocupação global, a demanda por combustíveis de biomassa deve aumentar drasticamente”, disse Kusano. A Sumitomo vai continuar a usar pallets a base de madeira, mas deve aumentar a participação daqueles feitos a partir de cana-de-açúcar. Sobre o Brasil, o gerente continua: “É um dos melhores países para produzir pellets de bagaço”.

A crescente demanda por pellets de biomassa vem de nações buscam reduzir sua dependência do carvão. Se os EUA aumentarem a sua utilização da biomassa como fonte de energia em 5%, isso poderia impulsionar a demanda por pellets em até 28 milhões de toneladas.

E até mesmo os Estados Unidos estão tentando abandonar o carvão, tornando o país um mercado potencial para a Cosan Biomassa. De acordo com a empresa, se os EUA aumentarem a sua utilização da biomassa como fonte de energia em 5%, isso poderia impulsionar a demanda por pellets em até 28 milhões de toneladas.

O mercado europeu também é percebido com atenção. Lá, a demanda por pallets é originária tanto de empresas e iniciativas públicas que estão tentando reduzir as emissões de gases poluidores quanto de consumidores que queimam pellets em caldeiras residenciais para o aquecimento. É o que explica Elchin Mammadov, analista de serviços públicos europeus da Bloomberg Intelligence. “A indústria de biomassa do Brasil tem um grande potencial, que ainda não é bem utilizado”, completa.

Segundo informações da Cosan Biomassa, os pellets de bagaço emitem cerca de 6,25% da quantidade de dióxido de carbono do carvão queimado no Brasil. Como as usinas do Japão são mais eficientes e já emitem menos dióxido de carbono, essa relação fica em 16,67% no país asiático.

Além dos pellets: cana-energia

Outras companhias no Brasil também estão apostando nesse aumento da demanda por biomassa para produção de energia. A Vignis S.A. foi fundada em 2011 e está desenvolvendo uma variedade de cana que produz até seis vezes mais biomassa do que as culturas normalmente utilizadas para produzir açúcar. Empresas como Raízen Energia S.A. e a processadora de soja Caramuru Alimentos S.A. já estão usando a cana-energia.

Nesse contexto, segundo o CEO da Vignis, Luis Claudio Rubio, o bagaço da cana é tido como “extremamente competitivo” e pode, eventualmente, substituir a queima de carvão em indústrias de cimento e de aço do Brasil. Ele espera que as vendas tripliquem para R$ 50 milhões em 2016 e, no ano seguinte, alcancem R$ 150 milhões, quando a empresa expandirá sua área plantada.

Os pellets de bagaço emitem cerca de 6,25% da quantidade de dióxido de carbono do carvão queimado no Brasil.

Já a NexSteppe Inc. está desenvolvendo novos tipos de sorgo que podem ser utilizados para produzir pellets de biomassa de elevada eficiência. A empresa sediada em San Francisco está expandindo suas plantações no Brasil e o vice-presidente para a América Latina, Ricardo Blandy, disse em uma entrevista que seu objetivo “é abrir novos mercados na América Latina”.

Crise e competitividade no setor sucroenergético

A indústria de cana-de-açúcar do Brasil tem encontrado muitos problemas nos últimos anos, quando o preço internacional do açúcar teve sua queda mais longa desde o início dos anos 1960 e os preços do etanol no mercado interno foram prejudicados pela política de combustíveis do governo. Cerca de 50 usinas de etanol e açúcar paralisaram as atividades e mais de 70 entraram em recuperação judicial no Brasil desde 2011, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

As vendas da Cosan totalizaram R$ 43,7 bilhões em 2015 e podem subir para até R$ 48 bilhões este ano, disse a empresa na demonstração de resultados divulgada a um mês. A companhia declarou que o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização foi de R$ 4,23 bilhões em 2015. As ações da companhia subiram mais de 9% nos últimos 12 meses, em comparação com um ganho de 2,7% no indicador de referência do Brasil.

A aposta nos pellets tem seus riscos. Enquanto o preço do carvão está em aproximadamente US$ 51 por tonelada, os pellets de madeira custam cerca de US$ 150 a US$ 210 por tonelada.

Ainda assim, a aposta nos pellets tem seus riscos. Enquanto o preço do carvão em Newcastle, na Austrália (considerado o ponto de referência global), é de aproximadamente US$ 51 por tonelada, os pellets de madeira são muito mais caros, custando cerca de US$ 150 a US$ 210 por tonelada.

Mark Lyra, da Cosan Biomassa, não forneceu um preço para os pellets de cana, embora tenha dito que eles são “competitivos” com os de madeira. “Esses produtos não vão competir em preço. As empresas que estão olhando para as energias renováveis como um substituto têm ativos alimentados por carvão, que tem um prazo para desaparecer”, afirma, e completa: “Nós estamos usando uma matéria-prima que o Brasil tem de sobra. Isto é para dar valor para um material que seria desperdiçado”.

Como o mercado de pellets pode se expandir no Brasil?

Mark Lyra: Nós estamos tratando de fazer uma commodity. A energia presente na biomassa de cana que deixamos de aproveitar todo ano, de cerca de 80 milhões de toneladas de pellets, é equivalente a 30% da produção total da Petrobrás. Existe uma quantidade de energia muito relevante. Para criar um mercado em torno disso, precisamos de um planejamento de longo prazo, com uma garantia de preços para disputar investimentos e infraestrutura para captar essa energia. Nós encontramos uma política desse tipo na Europa, no Japão, mas no Brasil ainda não temos. Aqui, o que vemos como possibilidade são acordos bilaterais, como o da Cosan com indústrias privadas para investimentos em contratos de longo prazo. Pensando 20 anos à frente, com uma estrutura construída, é possível ter um mercado mais forte, que gere uma nova commodity em torno dessa energia renovável.

Já foi fechado algum acordo desse tipo no Brasil?

Lyra: Nós temos conversas bem avançadas com algumas empresas. Algumas indústrias usam, hoje, óleo ou gás natural como combustível e essa é uma conta bastante simples de ser comparada por tonelada. Nós podemos travar o nosso custo de fornecimento a longo prazo ou podemos estudar maneiras de fazer com que esse preço acompanhe o do óleo e do gás.

Há alguma nova tecnologia sendo desenvolvida?

Lyra: É o que mais temos feito. Temos um financiamento da Finep voltado ao desenvolvimento de tecnologia e inovação para viabilizar a criação desse novo mercado e estamos fazendo investimentos em pesquisas de novas culturas energéticas, imaginando um momento em que possa valer à pena cultivar variedades de cana ou outras plantas para gerar biomassa. Também temos feito muita pesquisa e desenvolvimento para processos de recolher a palha de cana no campo. A nossa planta é única no mundo hoje e estamos constantemente aprendendo maneiras de tornar o processo mais eficiente.