18/03/2016

Ônibus a gás, o substituto não poluente do diesel no Brasil

O gás natural fóssil é alternativa sustentável e ambiental ao diesel veicular fóssil no transporte público? Parece contraditório, mas não é.

No transporte público e de cargas, o gás natural tem impacto ambiental local reduzido, ruído interno e externo baixos, ampla disponibilidade e custo competitivo com a tecnologia diesel; em que pesem as emissões de CO2 (dióxido de carbono) de origem fóssil quando do uso do gás natural nos motores a combustão.

Esse último detalhe – emissão de CO2 – não se aplica entretanto ao biogás, o metano oriundo de biomassa (biometano); os motores que queimam gás natural veicular (GNV) fóssil podem queimar indiferentemente o biometano purificado de qualidade certificada, 100% renovável, produzido a partir de dejetos e resíduos orgânicos domésticos, industriais e agropecuários. Quer dizer, o biometano produzido do biogás renovável tem como propriedade zerar as emissões de gases do efeito estufa (CO2 fóssil) do GNV.

O GNV é visto na ciência climática como uma alternativa veicular parcialmente sustentável, de transição, por reduzir em apenas alguns pontos percentuais as emissões de CO2 fóssil, comparado ao concorrente diesel. Mas, do ponto de vista do controle da poluição tóxica local, por material particulado fino cancerígeno (MP2,5), e pelos óxidos de nitrogênio (NOx) precursores do ozônio – abundantes nas emissões do diesel – o GNV é considerado pela ciência ambiental como uma alternativa bem menos desfavorável à qualidade do ar e à saúde pública.

Nunca é demais lembrar, que, de acordo com os estudos recentes publicados pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade,  só na Região Metropolitana de São Paulo, são cerca de oito mil mortes prematuras anuais devido às altas concentrações deste poluente. No estado de São Paulo, cerca de vinte mil.

Vale ter em mente que os biocombustíveis líquidos, como o biodiesel, por exemplo, e até o etanol de origem vegetal, também apresentam emissões fósseis em quantidades variáveis, se for considerado seu ciclo de vida. E nem por isso são descartados na estratégia global de controle ambiental. Muito pelo contrário: desde que tenham sua qualidade e especificações físico-químicas certificadas e, garantidamente, não prejudiquem os motores dos veículos, os biocombustíveis líquidos, assim como o biometano, tem um papel fundamental na redução dos impactos do setor de transportes, diminuindo as emissões tóxicas e climáticas em percentuais relevantes.

Gás x diesel

A proporção de redução da emissão de MP2,5 dos ônibus a gás é de 50% a menos em relação a um veículo equivalente de última geração a diesel Euro 5; e de 93% a menos, comparado a um ônibus a diesel Euro3. Além disso, os motores do ciclo Otto (ignição por centelha) dedicados ao gás são – sensivelmente – mais silenciosos do que seus concorrentes convencionais a diesel – um conforto extra para passageiros e menos impacto de ruído e incômodos para quem circula nas ruas e calçadas; a poluição sonora está entre as maiores queixas da população urbana.

De fato, o gás natural vem se destacando como uma alternativa mais limpa e competitiva para o transporte público e de cargas em diversas cidades do mundo. No Brasil, são enormes as reservas disponíveis. A pré-existência de uma rede para suprimento doméstico do gás natural ajuda a viabilizar o uso do GNV como alternativa financeiramente competitiva.

Essa infraestrutura pode ser usada para distribuição do biometano oriundo do biogás, em plena expansão no mundo; e no Brasil, devido à nova política de gestão de resíduos sólidos, que entre outras medidas trata do aproveitamento do biogás de aterros sanitários. Caso o país decida por desenvolver uma política energética consequente de longo prazo nessa área, insumos não faltarão.

Biogás renovável = zero CO2

Como dito, a operação de ônibus dedicados a queimar gás pode tornar-se 100% sustentável, caso essa seja feita direta ou indiretamente com biometano produzido do biogás renovável, zerando as emissões de gases do efeito estufa (CO2 fóssil) do gás natural veicular (GNV). A operação indireta é aquela onde o biometano purificado é injetado na rede local de distribuição de gás natural, gerando os créditos de “operação renovável” correspondentes para os operadores do transporte. Eis a saída estratégica para a tecnologia de motores a gás na era da mitigação das emissões fósseis, que causam as mudanças climáticas.

O uso do biogás oriundo de resíduos para geração distribuída de energia elétrica ou força motriz nos transportes é duplamente sustentável. Isso porque, além de substituir o diesel fóssil, evita o lançamento direto do biometano na atmosfera – que tem potencial de aquecimento global 25 vezes maior que o CO2 – e evita sua queima em flares (queima tradicional em queimadores), que produzem emissões de CO2 tão indesejáveis quanto as de origem fóssil.

Transporte sustentável

O gás natural fóssil, em seu papel de “alternativa energética de transição”, e pelo seu baixo preço, tende aparentemente a ganhar maiores participações na matriz mundial –  ao menos no médio prazo, caso não haja por parte de governos locais, após a Conferência do Clima de Paris (COP-21), uma radicalização das políticas públicas anti-emissões de gases do efeito estufa (GEE), que incluam a área dos transportes. Estima-se, por isso, que grande parte das reservas de combustíveis fósseis permanecerão intactas debaixo da terra, em face da ameaça do aquecimento do planeta.

Ressalte-se, finalmente, que a exploração específica do gás de xisto – por causa do agressivo processo de extração chamado “cracking” – representa risco de danos de grande relevância ao meio ambiente e deve ser bem avaliada, previamente à proposição de políticas públicas que envolvam o uso do gás natural fóssil.

Assim, um conjunto de alternativas energéticas adaptado a cada conjuntura local, com um teor gradual sempre decrescente do componente fóssil, deverá forjar a realidade do “transporte sustentável” motorizado, em processo de evolução nas próximas décadas. Afinal, não se muda a realidade estrutural instalada num piscar de olhos.

*Olimpio Alvares, colaborador do Mobilize, é diretor da L’Avis Eco-Service, especialista em transporte sustentável, inspeção técnica e emissões veiculares; é membro fundador da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP, diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades – Sobratt e ex-gerente da área de controle de emissões de veículos em uso da Cetesb.