05/04/2016

Barragens de rejeitos colossais elevam risco de acidentes como o de Mariana

A meia hora de carro da cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais, as árvores subitamente dão lugar ao que parece uma planície de sal deserta. É um vale de mais de três quilômetros de largura, cheio de detritos de mineração.
Em 5 de novembro de 2015, uma barragem que segurava esse mar de lama desmoronou, provocando uma enxurrada que matou 19 pessoas, destruiu vilarejos e percorreu quase 650 quilômetros até o Oceano Atlântico, onde deixou uma mancha marrom avermelhada que podia ser vista do espaço. Da altura de um edifício de 30 andares e contendo um volume suficiente para encher 47 Maracanãs, a barragem foi a maior estrutura do tipo que já se rompeu até hoje.

Não vai ser a última. Do Chile a Austrália, a busca por economias de escala vem levando as mineradoras a cavar minas cada vez maiores, criando volumes recordes de resíduos. Para armazenar todo esse detrito, essas empresas construíram algumas das estruturas mais colossais que o homem já ergueu. Conhecidas como barragens de contenção de rejeitos, elas retêm vastos reservatórios de lama, pequenas partículas de rocha, e água – ou seja, o que sobra depois que os metais são separados do minério.

Na teoria, essas barragens deveriam durar para sempre. Na prática, elas falham com tanta frequência que os engenheiros do próprio setor estão soando o alarme. Um ano e três meses antes do acidente de Mariana, uma barragem de rejeitos no Canadá, que estava em conformidade com a regulação local, desabou e causou o maior acidente do tipo na história do país. Especialistas estimam que entre um e quatro rompimentos ocorram todo ano em barragens de rejeitos no mundo, uma frequência quase dez vezes maior que em barragens de água.

“Nossas barragens e depósitos estão entre as estruturas de maior risco da Terra”, diz Andrew Robertson, um consultor de Vancouver que já projetou barragens enormes para mineradoras. Ele observa que a produção de rejeitos das maiores minas se multiplica por dez a cada trinta e poucos anos.
Muitos acidentes em países com regimes autocráticos não são divulgados. A regulação e fiscalização variam conforme a jurisdição e muitas vezes as mineradoras têm que fiscalizar a si mesmas.
“Ao redor do mundo, é uma miscelânea”, diz Harvey McLeod, engenheiro canadense que preside o comitê de barragens de rejeitos da Comissão Internacional de Grandes Barragens, ou Icold, na sigla em inglês. Para ele, as estruturas são tão complexas que é quase impossível escrever uma regulação pré-formulada.

A barragem do Fundão, em Minas, pertencia à Samarco Mineração SA, uma joint venture entre as duas maiores mineradoras do mundo: a anglo-australiana BHP Billiton Ltd. e a Vale SA.
A Samarco, que está sob investigação criminal por causa do desastre, diz que a barragem cumpria todas as exigências legais e regulatórias e sua estrutura não mostrava sinais de problemas antes, uma versão da qual consultores da empresa discordaram. A Vale e a BHP Billiton afirmaram que a barragem era responsabilidade da Samarco, não delas. As três companhias vêm colaborando com as iniciativas de socorro às vítimas e prometeram reconstruir as casas destruídas.

No início de março, as empresas envolvidas concordaram em gastar um mínimo de R$ 9,46 bilhões na limpeza da área.
O desastre da Samarco reverberou na indústria. Na assembleia anual dos acionistas da BHP Billiton, em novembro, o diretor-presidente da empresa, Andrew Mackenzie, pareceu conter as lágrimas ao descrever a cena “desoladora” que ele havia testemunhado no Brasil.
O Conselho Internacional de Mineração e Metais – ou ICMM, na sigla em inglês -, que inclui a maioria das grandes mineradoras globais, afirmou em dezembro que “convocaria uma revisão global dos padrões de barragens de rejeitos e controles críticos.”

Ao contrário das represas de hidrelétricas, que armazenam água para gerar energia, as barragens de rejeitos não são projetadas e construídas de uma vez. Elas são erguidas gradualmente, à medida que os depósitos minerais vão sendo explorados. Enquanto muitas represas podem ser drenadas e removidas ao fim de sua vida útil, as mineradoras projetam suas barragens com outra meta: deixá-las para trás quando o minério acabar.

O projeto mais comum das barragens de rejeito, conhecido como método de montante (“upstream”, em inglês), consiste em deixar os rejeitos mais próximos à barragem secar. Esses rejeitos secos são, então, usados como fundação para novos níveis, ou alteamentos, erguidos por meio da acumulação de terra ou rejeitos em diques sucessivos. Como exige a menor utilização possível de escavadeiras, o método de montante, que foi o empregado pela Samarco, é o mais barato.

Muitos engenheiros dizem que as barragens construídas pelo método de montante são as mais propensas a falhar. O Chile, onde terremotos são comuns, proibiu esse tipo de projeto.
Um estudo realizado em 2009 por engenheiros experientes que analisaram dados de acidentes num período de 42 anos concluiu que a frequência com que os rejeitos vazam aumenta quando os preços das commodities caem. Isso poderia ser um reflexo das pressões para cortar custos, diz o estudo.

Em 1985, um vazamento de apenas 200 mil metros cúbicos arrasou um vilarejo nos Alpes italianos e matou 268 pessoas. Em comparação, a barragem da Samarco tinha 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos.
Ninguém sabe ao certo quantas barragens de rejeitos há no mundo hoje. Em 2002, um estudo estimou que eram 3.500.

O The Wall Street Journal perguntou às cinco maiores mineradoras de capital aberto do mundo quantas barragens de rejeitos elas operavam, qual a mais alta e qual armazena o maior volume. Somente a Anglo American respondeu a todas as perguntas. Afirmou ter 109 estruturas de armazenamento no mundo todo, das quais 38 estão inativas. A mais alta é a Perez Caldera No. 2, com 110 metros, e a de maior capacidade é a Las Tortolas, com 448 milhões de toneladas, ambas no Chile.

A Vale respondeu apenas à primeira questão, dizendo que tem 13 barragens de rejeitos em suas minas de minério de ferro no Brasil. A Rio Tinto PLC deu uma resposta parcial à primeira pergunta, afirmando que tem 35 barragens em operação “e muitas outras fechadas” ou desativadas. A BHP Billiton identificou sua maior e mais volumosa barragem, a Escondida, no Chile, mas não informou quantas barragens tem. A Glenclore PLC não quis responder a nenhuma pergunta.

A falta de dados levou David Chambers, um geofísico do Centro para a Ciência na Participação Pública, uma organização sem fins lucrativos de Montana, cujo foco é a mineração, e Lindsay Newland Bowker, gestora de riscos ambientais no Maine, a compilar um banco de dados de todos os acidentes em barragens de rejeitos que puderam identificar entre 1915 e 2010. O total: 226.

Com base em suas descobertas, eles projetaram que 11 falhas “muito sérias” em barragens – definidas como as que liberam pelo menos 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos, alcançam mais de 20 quilômetros ou causam múltiplas mortes – vão ocorrer entre 2011 e 2020. Até agora, já aconteceram cinco.

Barragens de rejeitos perigosas não são um problema só do mundo em desenvolvimento. O Canadá, que tem um dos setores de mineração mais avançados do mundo, sofreu o maior acidente com rejeitos de sua história em 2014, quando a barragem Mount Polley, da Imperial Metals Corp., desmoronou. Cerca de 8 milhões de metros cúbicos de resíduos de ouro e cobre foram despejados em dois lagos glaciais da província de British Columbia, cortando temporariamente o abastecimento de água potável.

Um riacho onde salmões depositavam seus ovos está sendo usado hoje para drenar a água da mina enquanto a Imperial Metals reconstrói sua barragem, diz Richard Holmes, um biólogo que mora nas proximidades. Ele diz que a maior parte do rejeito ainda está no fundo dos lagos. A mineradora não quis comentar.
Segundo cientistas, a causa mais comum dos acidentes é o excesso de água, que liquefaz a terra que segura as barragens. Um painel que analisou o acidente de Mount Polley recomendou a remoção da água antes da armazenagem dos rejeitos.

Outra maneira de tornar as barragens de rejeitos mais seguras é expandir o reservatório também lateralmente, em vez de usar o método de montante que só eleva sua altura a partir de rejeitos secos. Chamado de método de jusante, esse tipo de projeto resulta numa estrutura mais forte e mais semelhante a uma barragem de água. Mas ambas as técnicas são mais caras.