07/04/2016

Brasil torna-se o 2º maior comprador de etanol dos EUA, para surpresa das usinas nos EUA

Nos últimos meses, o Brasil se tornou um dos maiores compradores do etanol norte-americano segundo dados do governo dos Estados Unidos.

O Brasil, à despeito de ser o segundo maior produtor de etanol do mundo, viu seu custo de fabricação subir ao sabor da turbulência econômica e política, o que facilitou para que usinas americanas em dificuldade encontrassem um alívio e um mercado para os excedentes de produção.

Os norte-americanos trabalham com duas possibilidades para os próximos meses nesse que consideram um novo e “surpreendente” mercado. Porém, segundo consultores americanos, a maré boa tem hora para acabar e faltam poucos meses para o fim da alta onda de exportações rumo ao Brasil.

Na fábrica da Plymouth Energy LLC, no coração do cinturão do milho norte-americano – onde o combustível “doméstico” supostamente aliviaria a dependência do combustível estrangeiro – cada gota de etanol já tem destino certo: os motoristas do Brasil.

A maré boa para as usinas dos EUA, porém, tem hora para acabar

Como muitas usinas do Centro-Oeste dos Estados Unidos, a indústria de etanol de Iowa foi construída há uma década, tendo como foco o mercado americano, que até então precisava importar etanol para satisfazer as leis que obrigavam o aumento do uso de combustíveis renováveis.

Desde então, a capacidade excedente e a abundância de gasolina barata deixaram o setor navegando em perdas e à procura de novos mercados. Isso ajudou a estimular as exportações para mercados distantes como a China. Mas, o mais surpreendente comprador nos últimos meses foi o Brasil.

Embora o Brasil seja o maior produtor de etanol a partir da cana-de-açúcar, o país viu o custo de produção subir conforme a turbulência econômica e política levou à aceleração da inflação no país. Como o preço da gasolina foi aumentado e alcançou patamares recordes, os proprietários de carros flex brasileiros migraram para o consumo de etanol e os estoques caíram 75% em relação ao ano anterior.

No último mês, o combustível importado registrou o preço mais barato em relação à oferta local desde 2011 — o que ofereceu um caminho temporário de sobrevida para produtores dos Estados Unidos em dificuldade.

“A exportação é a única esperança que o mercado americano tem para equilibrar a oferta”, disse o diretor de pesquisa de commodities da F.O. Licht, em Ratzeburg, na Alemanha, Christoph Berg. “Sem isso, você pode ter que fechar plantas ou ter que desativá-las, pelo menos temporariamente “.

Embarcando mais

Após importar um recorde de 452 milhões de galões [1,71 bilhões de litros] do Brasil há uma década, os Estados Unidos exportaram 5,7% da sua produção em 2015. Isso representa mais do que o triplo da taxa média nos anos anteriores a 2011, segundo dados do governo norte-americano.

O Brasil se tornou o segundo maior comprador do etanol produzido nos Estados Unidos, depois do Canadá. As Filipinas, China, Coreia do Sul e Índia completam a lista dos principais importadores do biocombustível norte-americano.

As vendas no exterior ajudaram a aliviar o sofrimento de alguns produtores de etanol dos Estados Unidos, incluindo a Plymouth. A companhia possui uma capacidade de produção de 50 milhões de galões/ano [189,27 milhões de litros].

Segundo o seu principal executivo, Eamonn Byrne, as exportações da empresa para o Brasil subiram para 100% da produção, contrastando com as exportações periódicas que começaram em 2012 e incluíam vendas à Europa, à Índia, ao Peru e aos Emirados Árabes Unidos.

“É simples, há muito etanol por aqui”, disse Byrne, acrescentando que ele nunca esperou embarcar combustível para fora dos Estados Unidos. “Esses mercados são muito, muito fortes”.

O total de exportações em janeiro pelos Estados Unidos – os dados mais recentes disponíveis – chegou a 87,2 milhões de galões [330,08 milhões de litros] – a maior alta em 14 meses e segundo maior volume para um mês de janeiro.

Lacuna de preço

A demanda do Brasil pode acelerar em 2016, em razão da lacuna cada vez maior entre o custo de abastecimento interno e das importações, segundo o CEO da Marquis Energy LLC, produtora de etanol de Illinois, Mark Marquis.

A gasolina no varejo de São Paulo, o maior estado [consumidor do Brasil], chegou a um recorde de R$ 3,57 (US$ 1) por litro no mês passado – valor 13% maior do que no ano anterior de acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP). O etanol subiu ainda mais, um aumento de 32% na comparação com o ano anterior, comercializado a R$ 2,74 o litro em 2016.

Mesmo com cerca de 27% de toda a gasolina conter etanol [anidro] no Brasil, os custos mais elevados têm estimulado a demanda por etanol hidratado – o tipo usado em carros flex. No final do mês passado, os estoques internos do combustível caíram para cerca de 300 milhões de litros, em comparação com 1,2 bilhões em 2015, de acordo com a consultoria Datagro.

Pelos preços atuais, o etanol doméstico está 42% mais caro do que o custo de importação de combustível dos Estados Unidos, a partir de portos no Golfo do México. Em 22 de março, a diferença atingiu o maior patamar desde 2011, R$ 0,75.

Colheita aumenta, preço diminui

O cenário pode não durar. O alto custo do combustível é um incentivo para os processadores de cana-de-açúcar brasileiros produzirem mais etanol em vez de açúcar refinado, o que pode recuperar os estoques e reduzir os preços.

Além disso, enquanto os embarques dos Estados Unidos para o Brasil em dezembro e em janeiro foram os maiores desde maio, por outro lado representaram menos do que a metade do que o comercializado um ano antes.

Embora nada tenha sido confirmado, de acordo com uma fonte familiarizada com as discussões, os gestores da Petróleo Brasileiro SA [Petrobras] teriam proposto cortar os preços da gasolina para reverter uma queda na demanda doméstica e reduzir as importações crescentes.

“As tendências são boas para os próximo meses para os exportadores norte-americanos”, enfatiza o analista do Grupo Linn em Chicago, Jerrod Kitt. No entanto, ele argumenta que “cargas de etanol não serão enviadas para o Brasil depois de 1º de junho”.

Na última semana os preços do hidratado já despencaram 11% (indicador Cepea/Esalq), seguindo o início mais forte da safra 2016/17.

Mario Parker, Bloomberg.com – tradução e edição novaCana.com