07/04/2016

Cegas de tanta luz

Americana SunEdison enfrenta risco de falência

Em alguns aspectos, o momento atual é espetacular para a energia solar. No ano passado, o investimento mundial em células fotovoltaicas superou pela primeira vez o total investido em usinas termoelétricas a carvão ou gás. Neste ano, o número de novas instalações solares deve mais que dobrar nos EUA. A China pretende triplicar até o fim da década sua capacidade instalada de geração de energia solar, que já é maior do mundo.

Apesar disso, duas das mais destacadas geradoras de energia solar do mundo estão com um pé no abismo. Estimuladas por credores e investidores sedentos de rentabilidade, elas cresceram rápido demais, recorrendo a altas doses de endividamento e engenharia financeira. Não é a primeira vez que empresas de energia se deixam levar pela crença de que, com algumas novidades tecnológicas e azeitados esquemas de financiamento, serão capazes de desafiar as leis da gravidade financeira.

Em março, uma das unidades da americana SunEdison, que diz ser a maior companhia de energia renovável do mundo, divulgou uma nota ao mercado, dizendo que o grupo enfrenta “considerável risco” de falência. O Wall Street Journal já havia noticiado que os balanços financeiros da SunEdison estavam sendo investigados pela SEC, órgão que regula o mercado de capitais nos EUA. Seus mais de US$ 11 bilhões em dívidas foram acumulados em alguns poucos anos de excesso de confiança.

Do outro lado do Atlântico, a espanhola Abengoa, empresa de engenharia e energia renovável cujo endividamento chega a US$ 10,6 bilhões, escapou por um triz da falência no fim do mês passado, quando três quartos de seus credores concordaram em conceder um prazo de sete meses para que a companhia aprove um plano de reestruturação de sua dívida. Depois de quatro meses de procedimentos pré falimentares, foi um alívio conseguir essa trégua.

Ambas as empresas sintetizam a empolgação febril que tomou conta do segmento de energia limpa. As duas se afundaram em dívidas com o intuito de investir em projetos grandiosos, destinados a gerar energia para as distribuidoras a preços que pareciam cada vez mais atraentes. Então venderam os ativos para algumas subsidiárias de capital aberto, conhecidas pelo epíteto de “yieldcos” (companhias formadas em torno de ativos operacionais com fluxo de caixa previsível, graças a contratos de longo prazo), que fazem uso de instrumentos de planejamento tributário e se financiam com a emissão de ações. De 2014 para cá, as maiores ofertas públicas de ações desse tipo nos EUA foram realizadas pelas yieldcos TerraForm e TerraForm Global, da SunEdison, e pela Abengoa Yield, do conglomerado epônimo. Cada uma delas captou mais de US$ 500 milhões.

O problema, diz Greg Jones, da empresa de análises financeiras CreditSights, é que o sucesso cegou essas yieldcos. Com a queda acentuada nos preços do petróleo e a elevação nos prêmios de risco das empresas de energia, elas começaram a ter dificuldades para levantar recursos, o que as impediu de aumentar os lucros e efetuar pagamentos constantes de dividendos, como haviam prometido aos acionistas. Segundo o analista, “imaginavam que os mercados de capital estariam sempre de portas abertas para elas”.

A SunEdison teve uma trajetória particularmente errática. Em meados do ano passado, seus executivos diziam que as ações da companhia, então negociadas a US$ 32, achavam-se muito subvalorizadas. Agora o papel vale menos de US$ 1. Os analistas dizem que, com sua combinação de soberba aquisitiva, problemas operacionais, finanças duvidosas e governança corporativa negligente, a empresa suscita dúvidas sobre a saúde do setor de energia renovável, embora diversas empresas do segmento sejam comandadas com muito mais prudência.

Os problemas da SunEdison começaram em julho do ano passado, quando a companhia fechou um acordo de fusão, no valor de US$ 2,2 bilhões, com a Vivint Solar, que desenvolve painéis fotovoltaicos para telhados de edifícios comerciais e residenciais e é controlada pelo grupo de private equity Blackstone. A ideia era usar a TerraForm Power para comprar os ativos da Vivint, mas outros investidores da yieldco se opuseram, alegando que ela estava se tornando um quarto de despejos para as dispendiosas aquisições da SunEdison. No dia 8 de março, a Vivint cancelou a fusão.

Sem confiança. No fim de 2015, analistas da CreditSights acusaram a SunEdison de divulgar informações incorretas sobre suas dívidas, minando ainda mais a confiança dos investidores. De lá para cá, a companhia adiou por duas vezes a publicação de seu balanço financeiro anual e admitiu “falhas importantes dos controles internos durante a elaboração de nossos relatórios financeiros”. Isso talvez explique o interesse da SEC – o que só faz aumentar a preocupação dos credores. “A SunEdison é uma pilha de dívidas”, diz Jones.

A empresa também provocou o descontentamento dos acionistas da TerraForm ao anunciar que o diretor financeiro Brian Wuebbels passaria a ser o responsável pelo comando executivo das duas yieldcos do grupo, subordinando ainda mais sua administração aos interesses da holding. Em 30 de março, as yieldcos anunciaram a renúncia de Wuebbels.

A incerteza prejudica os negócios da companhia. A distribuidora Hawaiian Electric, que firmou um acordo para a aquisição de energia gerada pela SunEdison, tenta cancelar o contrato, alegando que as dificuldades da empresa para cumprir prazos financeiros podem fazer com que seus projetos de geração sejam afetados por um processo de falência.

Tal como a SunEdison, a Abengoa só pode culpar a si mesma pelos problemas que enfrenta. A expansão movida a endividamento aconteceu sob os auspícios de seus fundadores, integrantes da família Benjumea, conhecida por sua proximidade com a elite política espanhola. Entre 2009 e 2015, a Abengoa fez investimentos no valor de € 28 bilhões, que incluíram a construção de grandes plantas de dessalinização. Em 2011, sua relação dívida/receita explodiu.

Muitos acreditavam que a empresa era grande demais para quebrar. Em meados do ano passado, porém, a Abengoa começou a enfrentar sérias dificuldades no Brasil, onde, entre outros projetos, vinha construindo uma das linhas de transmissão da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em julho, a Abengoa admitiu que seus projetos brasileiros consumiriam mais investimentos do que o planejado. Depois de negar que teria de captar mais recursos, a empresa anunciou um aumento de capital de € 650 milhões. Isso abalou a confiança dos investidores: as ações da empresa despencaram e os bancos cortaram as linhas de crédito. Em novembro, a companhia pediu proteção preliminar contra as dívidas. A maioria de suas grandes obras foi paralisada.

A Abengoa tem esperanças de se reinventar. Seu plano de reestruturação propõe que os credores troquem 70% da dívida por ações. A fatia dos atuais acionistas ficaria reduzida a 5%. É um prejuízo e tanto, mas é melhor do que a liquidação pura e simples. A nova Abengoa poderia voltar a se financiar no mercado e passaria a atuar sobretudo como empreiteira. Continuaria penando sob o peso de € 4,9 bilhões em dívidas, mas pelo menos poderia se concentrar nos projetos de engenharia que são sua especialidade. Talvez nem a esse luxo a SunEdison possa se dar.

2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM