29/04/2016

Energia renovável requer aportes de US$ 1,3 trilhão

Para atingir a redução da temperatura global e de gases de efeito-estufa, o caminho mais fácil seria ampliar os investimentos em energias renováveis, para que essas fontes dobrassem sua atual participação no consumo final energético do planeta alcançando 36% em 2030. Isso exigiria que os investimentos anuais em geração de energia, aquecimento e biocombustíveis deveriam pular de US$ 360 bilhões em 2015 para US$ 1,3 trilhão em 2030, segundo o estudo “Roteiro para a Energia do Futuro Renovável”, publicado recentemente pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, sigla em inglês). De acordo com o relatório, os gastos ambientais evitados são entre quatro a 15 vezes superiores à ampliação dos investimentos em fontes renováveis de energia, com destaque para usinas eólicas e solares, cujos custos estão em queda. Para que isso ocorra, será preciso que os países coordenem seus marcos regulatórios e estimulem o ingresso dessas fontes na matriz. Um exemplo dos desafios pode ser visto no Brasil.

No Brasil, a matriz elétrica contrasta com o mundo: aqui as energias renováveis correspondem a 42,5% da matriz energética brasileira, com destaque para as usinas hidrelétricas e o etanol que abastece a frota de veículos a passeio e caminhões; já quando se considera apenas a geração de energia elétrica, a participação das energias renováveis é ainda maior: quase 85% da energia elétrica gerada no país é de fontes renováveis. No mundo desenvolvido, menos de 20% da matriz energética é oriunda de fontes limpas.

Um destaque recente no Brasil tem sido crescimento da participação das energias renováveis alternativas à geração hidrelétrica, como a eólica, a solar e a biomassa. Em dez anos, esse tipo de energia renovável cresceu 30%, passando de 2,8% de toda a oferta de energia interna em 2004 para 4,1% em 2014, segundo os dados mais recentes. E essa participação poderá ser crescente: em 2024, a energia hidroelétrica poderá responder por 58%, as eólicas, 11%, a solar, 3% (hoje as usinas solares respondem por menos de 0,1%).

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê que até 2024 cerca de 1,2 milhão de unidades consumidoras passem a produzir sua própria energia, totalizando 4,5 gigawatts (GW) de potência instalada. Na Alemanha, esse tipo de geração responde por 17,5 gigawatts de capacidade. Mas para que as previsões se convertam em realidade há diversos obstáculos a serem superados.

Hoje, por exemplo, o setor elétrico convive com um problema: sobrecontratação de energia. As chuvas razoáveis desse ano e a recessão econômica estão deixando as distribuidoras com mais energia do que a demanda. Nas estimativas de Luiz Barroso, sócio da PSR, as distribuidoras hoje estão com cerca de 10% de sobrecontratação. Em março de 2011, quando elas contrataram energia nos leilões A-5 (energia a ser entregue neste ano), as estimativas dos analistas era de que o Brasil crescesse 4,5% em 2016, enquanto hoje as previsões são de queda de 3,8% do PIB. A queda da economia se junta à entrada em operação de novas usinas, como Belo Monte e térmicas, o que pode levar a uma sobreoferta de 12 GW médios em 2017 e 2018, nas estimativas da PSR.

Nos últimos anos, o setor tem contratado cerca de dois mil megawatts de capacidade de usinas eólicas, mas a sobrecontratação pode reduzir esse ímpeto. “As eólicas continuarão ganhando espaço na matriz, entre 2013 e 2015, 40% da energia comercializada nos leilões foi delas, o desafio é, diante desse cenário de sobrecontratação, manter a contratação de dois mil megawatts por ano, para manter a cadeia produtiva, que se tornou importante na indústria de energia mundial”, afirma Diogo Berger, superintendente de Project finance do Santander. Há outro ponto: a energia solar vem dando seus primeiros passos, mas ainda há desafios. “O desafio da solar é o câmbio, já que boa parte das máquinas é importada, e a montagem da cadeia de fornecedores, é preciso fazer com que isso ande mais rápido”, observa Berger. O início da fonte na matriz deve ser marcado por alguns percalços.

No leilão de contratação das primeiras usinas solares, em novembro de 2014, foram contratados pouco mais de mil megawatts desses empreendimentos, com preço médio de R$ 215, a um câmbio de R$ 2,6.

A validade dos créditos para compensação junto à distribuidora também sofreu alterações, estendida de 36 para 60 meses. Supermercados, shoppings, postos de gasolina, operadoras de telecomunicações são algumas das empresas que poderão avaliar investimentos na área. “A geração distribuída, as renováveis, a eficiência energética vão ganhar espaço, assim como o mercado livre pode crescer, é preciso que a regulação acompanhe as mudanças e que elas preservem o setor”, observa Karin Luchesi, vice-presidente de Operações de Mercado da CPFL Energia.