14/04/2016

Receita das usinas com cogeração de eletricidade deverá cair este ano

Com a energia elétrica cotada atualmente no mercado livre por um valor equivalente a menos de 10% do recorde de R$ 822 o megawatt-hora (MWh) alcançado em 2014, as usinas sucroalcooleiras que produzem o insumo a partir do bagaço e da palha da cana tendem a colocar o pé no freio em 2016. Com isso, as perspectivas são de que a receita das empresas do segmento com a venda de eletricidade caia.

O ano deverá ser marcado pelo cumprimento de contratos já firmados, de forma que a produção tende a ser igual a de 2015 ou até levemente menor. “A corrida por aquisição de biomassa adicional com o objetivo de produzir mais e vender a preços altos, vista nos últimos anos, já não vale mais a pena”, afirma Zilmar de Souza, consultor de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Ele lembra que em março de 2014, o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que serve de referência para o mercado spot de energia, estava em R$ 822 o MWh. Em março do ano passado, o valor caiu para R$ 388 o MWh. “Em março deste ano, foi a R$ 46”. Com isso, diz Souza, a geração adicional de energia a partir da biomassa acabou desestimulada.

Em 2015, a produção de eletricidade a partir de biomassa atingiu 20,2 mil gigawatts-hora (GWh) no país, 4,1% mais que em 2014. “Em 2016, essa produção deverá ficar de estável ou recuar”, reforça Souza.
Há casos pontuais de grupos que estão até negociando “comprar” energia para cumprir contratos já firmados no passado. Nesse caso, em vez de queimar o bagaço a empresa pode comercializá-lo para obter uma receita adicional, realça Luiz Cláudio Barreira, analista de bioeletricidade da consultoria FG Agro. A estratégia vem sendo adotada apenas por usinas que já venderam a energia no mercado regulado a preços mais elevados. “Um grupo que tenha vendido o MWh a R$ 200, por exemplo, em vez de produzir compra a energia aos preços atuais [em torno de R$ 50] e ainda tem um ganho líquido de R$ 150 por MWh. Para ampliar sua receita, vende o bagaço não utilizado no mercado”.

Barreira explica, ainda, que a maior parte das usinas sucroalcooleiras que vão entregar energia no mercado livre em 2016 já estabeleceu os preços de venda em contratos firmados no ano passado. O consultor estima que esses valores tenham variado entre R$ 180 e R$ 250 o MWh – bem acima dos patamares atuais praticados no mercado spot, de R$ 50 o MWh.

Para 2017, a sinalização, até o momento, é de valores mais atrativos dos que os atuais – devido a incertezas políticas e climáticas -, mas, mesmo assim, mais baixos que os praticados em 2015. A indicação, segundo Barreira, é de preços ao redor de R$ 110 o MWh, conforme referência da plataforma de comercialização de energia elétrica Brazilian Intercontinental Exchange (BRIX).

Barreira explica que o mercado livre é o destino de cerca de 30% da energia total vendida pelas usinas. O restante é vendido no mercado regulado (de longo prazo), com preços negociados nos leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O valor desses contratos, corrigidos pela inflação, não muda ao sabor das oscilações do mercado. Barreira estima que as usinas que vão entregar energia em 2016 oriunda desses contratos de longo prazo vão receber entre R$ 140 e R$ 240 o MWh, a depender do ano em que o compromisso de venda foi firmado.