25/04/2016

Venda de gás cai, e distribuidoras buscam renegociação com a Petrobras

As vendas de gás natural despencaram no país neste início de ano, gerando um excedente calculado pelo mercado em cerca de 9 milhões de metros cúbicos por dia, o equivalente a 10% da capacidade de produção nacional.

O cenário levou as distribuidoras de gás canalizado a buscar renegociação de contratos com a Petrobras para reduzir os volumes negociados e evitar o pagamento de multas.

A expectativa do setor é que o consumo permaneça em queda, diante das perspectivas de nova retração da economia em 2016 -analistas consultados pelo Banco Central estimam queda do PIB de 3,8% neste ano, resultado igual ao do ano passado.

Principal mercado das distribuidoras de gás canalizado, a indústria consumiu, em fevereiro, 40,29 milhões de metros cúbicos de gás natural, 10,5% a menos do que no mesmo mês de 2015. A produção da indústria recuou em ritmo similar segundo o IBGE: queda de 9,8% em fevereiro.

Houve aumento em outros segmentos, como residencial e comercial, mas ambos têm volumes pequenos, abaixo de 1 milhão de metros cúbicos por dia.

“Alegando que houve desaquecimento importante e que estamos diante de um quadro de restrição de consumo, estamos pedido à Petrobras para rever os termos do contrato”, afirmou Décio Padilha, presidente da distribuidora pernambucana Copergás.

Ele esteve na sede da estatal no início deste mês para discutir o tema e aguarda uma contraproposta.

A Copergás quer reverter cláusula contratual que amplia o volume contratado neste ano, de 1,4 milhão para 1,5 milhão de metros cúbicos por dia.

A Folha apurou que outras distribuidoras, como a mineira Gasmig, já procuraram a Petrobras para renegociar contratos.

Os contratos de fornecimento de gás têm cláusulas chamada “take or pay” (pegue ou pague) e “ship or pay” (transporte ou pague), que obriga as distribuidoras a pagarem um valor mínimo mesmo que não vendam todo o combustível contratado.

“Estamos acompanhando uma tentativa das distribuidoras de diminuir o risco de serem penalizadas por essas cláusulas, em decorrência da queda dos volumes”, afirma o presidente da Associação Brasileira as Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Augusto Salomon.

Risco

Segundo ele, há também uma preocupação com o risco gerado pela venda de ativos da Petrobras, que se concentra na área de gás, e deve deixar as empresas expostas após o fim dos contratos atuais, em 2019.

“Essa exposição passa a ser a principal agenda do setor. Devemos buscar o suprimento fora da Petrobras para ter condições de fornecer com segurança aos nossos clientes”, completa Salomon.

Questão do preço

Os grandes consumidores reclamam que os preços do gás natural contribuem para a queda no consumo, ao reduzir a competitividade de setores que poderiam buscar clientes no mercado internacional.

“Temos um mercado em recessão, com excesso de oferta de gás, e o preço continua subindo”, critica o presidente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro, Lucien Belmonte.

Ele se refere ao fim dos descontos que vinham sendo promovidos pela Petrobras desde o início da década. Com a crise financeira, a estatal passou a reajustar os preços em 2015, mesmo com a queda das cotações no exterior.

De acordo com dados do governo, entre janeiro e dezembro de 2015 o preço do gás para grandes indústrias subiu 13,13% no país. No fim do ano, o preço do metro cúbico chegou, em média, a R$ 1,55. Em fevereiro, recuou para R$ 1,53.

Por meio de nota, a Petrobras disse que “atende a demanda de gás natural do mercado, sempre considerando e respeitando as condições contratadas e as melhores oportunidades de cada momento”.