18/05/2016

Distribuidoras de gás preveem investimento 11% maior em 2016

Mesmo com receitas impactadas por cenário de recessão econômica, as distribuidoras de gás canalizado pretendem intensificar os investimentos na expansão da rede ao longo de 2016. Levantamento feito pelo Valor mostra que, em busca de novos clientes para compensar a queda das vendas, as companhias do setor esperam aumentar em 11% os aportes na construção de gasodutos pelo país afora este ano, em comparação com ano passado.

Isso sem abrir mão do retorno aos acionistas, que deve crescer, em média, 26% referente ao exercício 2015, na comparação com o pagamento efetuado com base no balaço de 2014.

No caso dos aportes programados pelo setor, as concessionárias de gás preveem investir, ao todo, R$ 1,4 bilhão no Brasil em 2016, contra o montante de R$ 1,26 bilhão registrado no ano passado. A conta inclui 15 distribuidoras, que concentram, juntas, 90% das vendas para o mercado não termelétrico (indústrias, postos de GNV, residências e comércio, por exemplo).

Dentre as empresas consultadas, a maioria (cerca de dois terços do total) anunciou a intenção de aumentar o ritmo de investimentos, com destaque para a CEG e CEG Rio, controladas pela espanhola Gas Natural Fenosa no Rio de Janeiro; e as estatais Bahiagás (BA) e Gasmig (MG), cujos controles acionários estão nas mãos de governos estaduais.

Diretor-técnico da consultoria Gas Energy, Ricardo Pinto, explica que, mesmo diante de um cenário de recessão, a continuidade dos investimentos é importante para as distribuidoras, que assumem compromissos com os órgãos reguladores e têm suas tarifas definidas com base na execução dos planos de negócios. A CEG, por exemplo, teve suas margens reduzidas na última revisão tarifária, em 2013, por não ter cumprido o plano de negócios apresentado.

“Num modelo regulatório onde as concessionárias são remuneradas pelo investimento que fazem, as distribuidoras precisam permanentemente investir. O investimento faz parte da formação das tarifas”, disse o consultor. “Mas na prática, em Estados onde não há uma maturidade regulatória, os investimentos são discricionários”, ressalvou.

Além de atender aos compromissos regulatórios, as distribuidoras têm aumentado os aportes também como uma forma de buscar novos mercados, diante da redução do consumo entre os clientes atuais.

“Hoje as distribuidoras estão sobrecontratadas. A única maneira de escoar esse gás é ampliando infraestrutura para captar novos clientes. Isso vai ter que acontecer de qualquer jeito”, conta Augusto Salomon, presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), que estima em R$ 6 bilhões os aportes previstos no setor nos próximos cinco anos.

O levantamento do Valor mostra, ainda, que o mercado de gás natural deve ser rentável para os acionistas este ano, mesmo diante do ciclo expansivo dos investimentos. O setor concentra desde companhias com controle privado e capital aberto, como CEG (controlada pela Gas Natural Fenosa) e Comgás (da Cosan), a empresas de economia mista – em sua maioria controladas por governos estaduais, em sociedade com a Petrobras e a Mitsui.

Mesmo com o aumento nos investimentos, as companhias também elevaram o pagamento de dividendos este ano

Ao todo, os resultados financeiros de 12 distribuidoras consultadas – incluindo oito das dez maiores companhias do setor – renderam o pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio (JSCP) de R$ 949 milhões, 26% a mais que os R$ 753 milhões distribuídos com base no balanço de 2014.

Esse crescimento foi puxado para cima pela Comgás, cujos resultados de 2015 renderam R$ 529 milhões aos acionistas, mais que o triplo do que rendeu o balanço de 2014. Outras cinco companhias também prometeram remunerar mais os acionistas.

Para Ricardo Pinto, da Gas Energy, o fato de o setor estar aumentando o pagamento de dividendos e JSCP em meio a um cenário de queda no volume de vendas, sugere que algumas concessionárias estão operando com margens favoráveis, se beneficiando da queda dos custos de aquisição do gás.

Esse foi o caso da Comgás. Como o reajuste tarifário da companhia é anual, a empresa absorveu a queda do custo de aquisição do gás, em meio à queda dos preços do barril do petróleo ao longo do ano passado, e viu seu lucro líquido subir 14%, para R$ 698 milhões, mesmo diante da queda nas vendas.

Uma outra fonte consultada pelo Valor sugere que, em alguns casos isolados, os governos estaduais estão “forçando a barra” na distribuição de dividendos, para compensar a queda de suas receitas.

O aumento na distribuição de proventos, contudo, não foi uma realidade para todas as empresas. Metade das companhias consultadas manifestou a intenção de enxugar a distribuição de proventos.

A Gas Natural Fenosa, que controla a CEG, CEG Rio e Gas Natural São Paulo Sul, por exemplo, decidiu por uma distribuição de R$ 123,2 milhões, com base no balanço do ano passado. Esse montante é 58% menor que o valor referente aos resultados de 2014.