17/05/2016

Elétricas sofrem com queda no consumo e nos preços

As chuvas dos últimos meses encheram os reservatórios das usinas e resolveram a crise hídrica, mas não foram suficientes para irrigar os cofres das empresas do setor elétrico.

No primeiro trimestre, as distribuidoras de energia amargaram resultados ruins devido à forte queda do consumo e ao problema da sobrecontratação, que tende a piorar se não houver uma solução por parte do governo. Em geração, o risco hidrológico foi mitigado, mas o menor despacho termelétrico e a redução do preço de energia no mercado à vista pressionaram os resultados das já combalidas empresas.

Levantamento feito pelo Valor com os balanços das principais companhias do setor apontou queda de mais de 50% no lucro no período. Considerando os resultados apurados pelas empresas Copel, Tractebel, Light, CPFL, Eletropaulo, AES Tietê, Cemig, Equatorial, EDP Energias do Brasil e Celesc, houve queda de 53% no lucro apurado no primeiro trimestre na comparação anual, para R$ 1,44 bilhão. Os resultados da Eletrobras foram excluídos dessa amostra devido ao fato da estatal ter registrado, sozinha, um prejuízo líquido de R$ 3,9 bilhões entre janeiro e março.

Ao mesmo tempo, as distribuidoras aumentaram as provisões para créditos de liquidação duvidosa, para lidar com o crescimento da inadimplência.
As distribuidoras de energia Copel, Light, CPFL, Eletropaulo, Cemig, Equatorial, EDP, Celesc e Eletrobras provisionaram, juntas, R$ 492 milhões no primeiro trimestre, alta de 48,8% na comparação anual, refletindo o aumento da inadimplência, depois dos reajustes tarifários de mais de 50% aplicados ano passado.

A única distribuidora dessa amostra a registrar queda nas provisões para crédito de liquidação duvidosa foi a Copel. Isso aconteceu, porém, porque a estatal paranaense provisionou R$ 73 milhões nos primeiros três meses de 2015 devido às diferenças entre os preços de energia negociada nos contratos do mercado regulado da hidrelétrica Colíder e o preço de energia no mercado à vista (PLD).
Se antes os principais problemas do setor elétrico eram relacionados à falta de chuvas, com possibilidade de racionamento e preços de energia nas alturas, o cenário hoje é o inverso, com preços baixos e os problemas macroeconômicos resultando na redução brusca do consumo.

No segmento de distribuição, as empresas aumentaram as ações de combate à inadimplência e às perdas comerciais, mas esses fatores e a redução da demanda por energia foram os principais responsáveis pelos resultados fracos. Segundo os dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a carga de energia no sistema (soma de consumo e perdas) tinha apresentado queda de 1,5% nos doze meses encerrados no fim de abril.

Algumas distribuidoras foram mais afetadas que outras pelo cenário, como a Eletropaulo, que teve queda de 5,5% no consumo de seus clientes no mercado cativo, e as distribuidoras da CPFL Energia, que apuraram queda de 5,2% na mesma base de comparação.

A Light, que enfrenta problemas financeiros e precisou renegociar recentemente as cláusulas restritivas de contratos de dívida (covenants), viu uma queda de 7,3% no consumo de energia no primeiro trimestre, o que ajudou na queda de 99% do seu lucro líquido no período, para R$ 1,4 milhão.

A queda no consumo de energia afetou as distribuidoras também na forma da sobrecontratação, que está em cerca de 113% no país, segundo dados da da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
No caso da Eletropaulo, se não houver uma solução no sentido de flexibilizar contratos, a sobrecontratação pode chegar a 116% no ano, com um efeito de até R$ 370 milhões sobre o seu Ebitda, disse a companhia.

As geradoras também enfrentaram desafios no trimestre. Refletindo os preços mais baixos de energia no mercado de curto prazo, a Cemig viu queda de quase 40% no seu Ebitda de geração, para R$ 465 milhões. A situação afetou até mesmo a Tractebel, conhecida por gerenciar seus contratos para mitigar esses riscos. O lucro da companhia ficou praticamente estável em R$ 347 milhões, mas veio aquém do esperado pelo mercado.