25/05/2016

Opep está perdendo a capacidade de estabilizar o mercado de petróleo

A capacidade da Opep de reduzir o impacto de um choque de oferta do petróleo está diminuindo.

Por meio século, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo protegeu o mercado global do combustível, reduzindo a produção para eliminar excedentes e aumentando a exploração para evitar escassez.

Agora, próximo à sua reunião de 2 de junho, em que será discutido um modo de estabilizar o mercado mundial de petróleo, o cartel não tem nem o consenso político para cortar a produção nem a capacidade técnica para elevá-la de forma significativa.

Desde o ano passado, os membros da Opep não conseguiram chegar a um acordo sobre cortes na produção para limitar um excedente que derrubou os preços em mais de 50% desde 2014. Em vez disso, eles continuaram produzindo a todo vapor. Agora que recentes interrupções no fornecimento elevaram as cotações, o cartel mostra pouca flexibilidade para elevar a produção.

Neste ano, a capacidade extra de produção da Opep – o volume que ela pode produzir em 30 dias e manter por pelo menos 90 – vai recuar para seu menor nível desde 2008, segundo estimativa da Agência de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA). O órgão informou que a capacidade extra da Opep irá cair mais de 22% neste trimestre em relação ao anterior.

A Opep ainda não precisou recorrer à sua capacidade extra para fazer frente às interrupções porque um volume recorde de petróleo foi armazenado quando os preços estavam baixos, criando um colchão contra choques de oferta. Com a redução desses estoques e a queda da produção de países de fora da Opep, a organização pode ter dificuldade para atender a demanda.

Segundo a EIA, a capacidade extra da Opep cairá para 1,25 milhão de barris por dia no terceiro trimestre – um nível não visto desde 2008, quando os preços do petróleo atingiram o pico de US$ 147 por barril, em meio a um aperto na oferta e o aumento da demanda chinesa.

A capacidade da Opep para elevar a produção está centrada em seu maior produtor, a Arábia Saudita, que sempre respondeu por praticamente toda a capacidade extra do grupo. Desde que os preços começaram a cair, em 2014, a petrolífera estatal saudita reduziu investimentos em produção nova. A produção de novos campos foi, em grande parte, anulada pelo declínio natural dos mais antigos.

As autoridades sauditas há muito dizem que podem ampliar a produção em cerca de dois milhões de barris por dia acima da produção recorde atual, de 10,2 milhões de barris diários. Mas esses dois milhões de barris podem não ser obtidos no curto prazo, diz uma autoridade.

“Se houvesse uma grande crise amanhã, então o máximo que a Arábia Saudita poderia produzir seria em torno de 500 mil [barris diários], talvez 700 mil, no máximo”, diz a autoridade.

A estatal Saudi Arabian Oil Co., ou Saudi Aramco, e o Ministério do Petróleo saudita não responderam a pedidos de comentário.

Em abril, o diretor-presidente da Aramco, Amin Nasser, disse que a empresa planeja elevar a produção para ainda mais perto da capacidade total durante o tórrido verão do país, para fornecer energia a sistemas de ar condicionado.

A capacidade extra da Opep está minguando num momento em que interrupções na produção de países de fora da Opep, como Canadá e Colômbia, e na Nigéria, um membro do grupo às voltas com a violência, tiraram dos mercados globais de petróleo mais de três milhões de barris por dia só neste mês.

A habilidade da Opep de impulsionar rapidamente a oferta não era um problema para os mercados desde 2008.

Na época, a demanda crescente da China e a oferta mundial limitada elevaram os preços. A Arábia Saudita aumentou a produção, mas o resultado foi contraditório: em vez de caírem, os preços subiram até US$ 147 o barril, o triplo dos níveis de 2007. Analistas e operadores dizem que o salto foi, em parte, causado por preocupações com a queda da capacidade extra da Arábia Saudita, que em 2008 recuou para cerca de 1 milhão de barris por dia.

Os preços caíram com a crise financeira global e o boom de petróleo de xisto nos EUA colocou grandes volumes de produção nova no mercado. A demanda chinesa diminuiu, os estoques subiram e em 2014 os preços começaram seu longo declínio.

Até poucos meses atrás, com os preços abaixo de US$ 30 o barril e os estoques globais em níveis historicamente altos, a possibilidade de que o mundo não teria petróleo suficiente parecia remota.

Mas a convergência de circunstâncias não relacionadas na África, Oriente Médio e América do Norte limitaram a oferta. Na Líbia, uma crise política reduziu os carregamentos. Ladrões de petróleo e sabotadores atacaram oleodutos e campos nigerianos. Trabalhadores entraram em greve no Kuwait e a região de areias betuminosas no Canadá ardeu em chamas.

Agora, o petróleo está próximo de US$ 50 por barril e analistas dizem que as interrupções no suprimento podem continuar. “Porque não se deve a uma simples interrupção, é difícil saber quando isso será resolvido”, diz Richard Mallinson, da consultoria londrina Energy Aspects.

As interrupções causadas pelos incêndios nas florestas próximas aos campos de areia betuminosa no Canadá e os ataques na Nigéria podem reduzir os estoques acumulados na América do Norte nos últimos anos. Em outras regiões, os estoques estão crescendo em seu menor ritmo desde o quarto trimestre de 2014.

“Os estoques podem parecer elevados agora, mas se tivemos uma parada em algum lugar de um milhão de barris por dia por três meses, lá se foram 90 milhões de barris”, diz Yasser Elguindi, analista de petróleo da Medley Global Advisers, uma consultoria americana.

Em todo o mundo, há pouca capacidade extra além da Arábia Saudita. Muitos produtores em todo o mundo estão extraindo tudo o que podem para compensar a queda na receita causada pelos preços baixos do petróleo.

Apenas os EUA – com seus campos de petróleo em terra, que são mais rápidos de perfurar que os marítimos – têm espaço significativo para aumentar a produção. Mas a capacidade que as petrolíferas de xisto dos EUA têm de elevar a produção rapidamente nunca foi testada, e as pequenas empresas que produzem petróleo de xisto podem precisar de um preço mais alto do que as demais para fazer com que novos poços valham a pena.

Isso deixa a Arábia Saudita, com sua produção de baixo custo, como a fonte mais viável de produção nova. Mas alcançar a produção de 12 milhões de barris que as autoridades sauditas dizem que o país pode atingir exigirá a perfuração e o desenvolvimento demorados de novos poços, dizem analistas.