23/05/2016

Sem experiência, novo ministro de Minas e Energia se cerca de ‘medalhões’

No dia 3 de setembro de 2014, o deputado Fernando Coelho Filho (PSB-PE) apresentou um requerimento à presidente Dilma Rousseff para que fosse alterado o nome da Refinaria Abreu e Lima, em construção em Pernambuco. Na sugestão enviada a Dilma, Coelho Filho sugeria que a refinaria da Petrobrás, que àquela época já protagonizava os escândalos de corrupção na estatal, passasse a se chamar Refinaria Governador Eduardo Campos. Seria uma homenagem ao presidente nacional do PSB, morto em um acidente de avião, um mês antes. O nome não mudou.

Fora essa sugestão, não há registros que apontem intimidade entre o setor de minas e energia e o deputado que, aos 32 anos, foi alçado pelo presidente em exercício, Michel Temer, para assumir o comando de uma das áreas mais complexas do País. Não por acaso, sua nomeação surpreendeu grande parte dos agentes do setor.

Filho do senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), que foi ministro da Integração Nacional e comandou as obras da transposição do São Francisco entre 2011 e 2013, Coelho Filho tem muito mais proximidade com os projetos de saneamento e irrigação de seu berço eleitoral, Petrolina. A aliados, disse que preferia ir para a Integração, por acreditar que teria maior visibilidade política.

A nomeação de Coelho Filho para o Ministério de Minas e Energia (MME) enfrentou, inclusive, forte resistência de uma ala de seu partido. Os três governadores do PSB – Ricardo Coutinho (PB), Rodrigo Rollenberg (DF) e Paulo Câmara (PE) – eram contra a participação da sigla no governo Temer, por receio de que a administração do peemedebista não dê certo, diante da crise econômica e da falta de apoio popular.

No caso de Paulo Câmara e de um grupo de Recife, a resistência era ao próprio nome de Coelho Filho, por questões de disputa local. Ligados ao grupo de Eduardo Campos, os gestores têm receio de que a aproximação dos Bezerras com Temer ajude o grupo do ministro a se cacifar para disputar o governo de Pernambuco.

Nas eleições de 2014, o pai do ministro foi preterido por Eduardo Campos, que, na época, estava encerrando o mandato de governador do Estado. Para sua sucessão, Campos acabou escolhendo Paulo Câmara, que foi eleito. Sobrou para Bezerra a vaga de senador na chapa.

Congresso. Se por um lado o currículo de Fernando Coelho Filho não traz experiência com o setor elétrico, por outro carrega dez anos de atuação no Congresso. Filiado ao PSB desde 2005, foi eleito deputado federal nas eleições de 2006, quando tinha 22 anos. Foi o parlamentar mais jovem eleito naquele ano. Antes de chegar ao MME, atuou como líder do PSB na Câmara desde o ano passado.

Formado em administração de empresas pela Faap, em São Paulo, Coelho Filho, assim que foi nomeado, pediu aos técnicos do MME que lhe enviassem um resumo sobre os principais temas do ministério, para que ele os estudasse no fim de semana.

Para não correr riscos, o ministro tem procurado se cercar de “medalhões” do setor elétrico para compor seu time no ministério. Foi o que fez, por exemplo, ao nomear como seu secretário executivo o então presidente executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), Paulo Pedrosa.

Ex-diretor da Aneel, Pedrosa já trabalhou na Eletronorte e na Chesf. Foi conselheiro do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), passou por empresas privadas do setor e, nos últimos dois anos, tem se dedicado a combater o tarifaço na conta de luz.

“O que a gente enxerga é que ele vai montar uma equipe capacitada, mas com o perfil que esteja disposto ao diálogo e que tenha experiência múltipla, no ambiente estatal e no setor privado”, disse o deputado Fábio Garcia (PSB-MT), amigo de Coelho Filho, com forte atuação no setor elétrico e próximo de Paulo Pedrosa. “A chegada de Fernando ao ministério vem da sua liderança do PSB na Câmara. O partido contava com a indicação do governo para ocupar um ministério”, comentou.

Nova postura. Um dia antes de anunciar que seria secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa disse ao Estado acreditar em uma “mudança de postura” no ministério. “O setor vive um conjunto de problemas que resulta de uma agenda intervencionista”, afirmou. “Agora, com esgotamento de recursos via Tesouro Nacional ou via contribuinte, não poderemos ter soluções do passado. O ministro parece ter ciência disso e vai buscar solução de confiança.”

Segundo ele, o governo e o setor elétrico ganharam um período de “boa vontade”. “Nós todos, nos últimos anos, aprendemos a dançar conforme a música. Agora, temos de olhar para a frente com uma lente positiva.”