06/06/2016

Cana-de-açúcar: Globo Rural faz balanço da crise do setor

A atividade canavieira é um setor da agricultura que está em crise há, pelo menos, oito anos. Depois da grande euforia que tomou conta do setor, muita gente ainda não se recuperou do tombo que veio logo em seguida. As dívidas são de grandes proporções, o mercado bastante instável e o produtor fica no meio de tudo isso.

Depois de viver um dos melhores momentos da sua história, o setor da cana-de-açúcar entrou em uma crise profunda e não se recuperou até agora. Ninguém sabe ao certo de quanto foi o rombo sofrido pelo setor no Brasil. Dívidas no campo e na indústria, milhares de empregos perdidos e, pelo menos, 60 usinas fechadas. A quebradeira foi tão grande que seus efeitos extrapolaram os valores financeiros e abalaram o que de mais precioso se tem na roça: a confiança do agricultor com a sua própria atividade.

O boom da expansão do setor canavieiro ocorreu de 2002 a 2007, quando pelo menos 120 novas usinas foram instaladas nos estados do centro-sul do Brasil. Foram vários os fatores que contribuíram para esse avanço: o surgimento do carro flex, a projeção do etanol para o mundo, com o apelo de ser um combustível menos poluidor que a gasolina, e a fartura de recursos do BNDES para as usinas ampliarem seus parques industriais. Em cerca de cinco anos o país dobrou a produção de cana-de-açúcar, rompendo a marca dos 600 milhões de toneladas.

Maurício Pinatti foi um dos agricultores que aumentaram o plantio no município de Monte Aprazível, em São Paulo, estimulado por esse cenário promissor. Passou de 600 para 2,3 mil hectares e a aposta que seria um porto seguro virou incerteza: “Hoje o produtor de cana-de-açúcar tem medo de entregar sua produção e ele não sabe quando vai receber. Muitas vezes, ele vende a produção, mas não tem a garantia da data de pagamento. Temos para receber da safra de 2015 aproximadamente R$ 1 milhão, na qual vamos receber parcelado. Não tem outro jeito”.

Essa frustração de Maurício está relacionada ao fechamento de uma usina que fica do lado de sua lavoura. “Essa unidade moeu de 1979 até 2012 e por ser uma unidade pequena, as usinas que tinham na região absorveram essa matéria-prima, de forma que não ficou cana no campo”, conta o agricultor.

Em outras regiões, muita cana estragou no campo e vários agricultores ficaram no prejuízo. Em Monte Aprazível teve gente que perdeu tudo que tinha. Em 2005, o ex-agricultor Marcelo Gouveia, que hoje trabalha como gerente de recursos humanos, deixou de produzir leite para investir na cana-de-açúcar. Chegou a ter 480 hectares da lavoura, com uma produção de 15 mil toneladas por ano.

“A gente teve que vender uma propriedade da família para pagar dívida de banco, que não conseguiu renovar mais custeio. Acerto com funcionário, na época a gente chegou a ter 250 funcionários. Ainda não paguei todo mundo, ainda tem dívida. Achei que seria fácil. Eu acreditei e eu tentava trazer minha família a acreditar nisso. A cana um ano ela dá, outro ano ela tira. Um ano ela tem preço, no outro ano ela não tem preço”, lamenta Marcelo.

A derrocada do setor começou em 2008, puxada pela forte recessão na economia dos Estados Unidos, que afetou o mundo todo. Na mesma época, houve excesso de açúcar no mercado internacional e o congelamento no preço do etanol, por causa do controle que o governo exerceu sobre o valor da gasolina. Houve, ainda, as expectativas com o petróleo do pré-sal e, por fim, a escassez do crédito bancário.

“Esse período de crise representou para os empresários do setor a perda de patrimônio pessoal, de patrimônio das famílias. O que houve foi uma euforia exagerada. O pessoal acreditou em muito do que estava sendo falado, correu para investir e isso gerou um problema porque nós colhemos um monte de ineficiências por conta desse excesso de investimentos que aconteceram num curto espaço de tempo”, explica Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto.

A crise ainda não terminou. Há quem diga que 2016 pode ser um ano de retomada, mas o abandono que se vê em muitas usinas é o retrato de que o desafio tem proporções gigantescas. “Hoje o endividamento do setor para sobreviver supera, no mínimo, 1,2 vezes o seu faturamento. O setor fatura R$ 90 bilhões e deve R$ 130 bilhões. Existe a culpa da falta de uma política pública, existe a culpa daqueles empresários que não tiveram uma boa gestão. A crise afetou toda uma cadeia, o fornecedor, as usinas, os trabalhadores, afetou a indústria de bens de capital e afetou todos os municípios que são dependentes da cana-de-açúcar”, diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), entidade que agrega as usinas do centro-sul do Brasil.

Para cada usina fechada, estima-se que, pelo menos, 500 famílias sejam atingidas diretamente. Essa relação pode ser ainda maior, se considerada a cadeia como um todo. O município de Sertãozinho, em São Paulo, por exemplo, é conhecido por ter muitas empresas prestadoras de serviços para a atividade canavieira e, também, por ser um reduto de indústrias voltadas para atender o setor.

O abalo foi enorme na cidade. “Foi um baque muito forte. Nós tivemos uma queda da atividade industrial aqui em Sertãozinho da ordem de 80%”, afirma Paulo Gallo, presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceisi).

De acordo com o Ceisi, a instituição que representa os fabricantes de equipamentos para a área sucroenergética, Sertãozinho tem, pelo menos, 500 indústrias dependentes da cana-de-açúcar. “Mais de 90% desses estabelecimentos foram afetados pesadamente pela crise. Nós tivemos o fechamento de 15 empresas de grande porte, dez mil empregos perdidos nos últimos cinco anos, isso em uma cidade de 105 mil habitantes. Cada emprego afeta três, quatro pessoas, afetam as famílias. Então nós temos quase metade da cidade afetada pelo desemprego. Dessas empresas que não fecharam, você tem hoje em Sertãozinho umas 30 ou 40 empresas que estão desempregando sistematicamente”, diz Paulo.

Readaptação
Até 2010, quase 100% dos contratos da fábrica de caldeiras Caldema dependiam exclusivamente das usinas de açúcar e álcool. De lá para cá, para se manter viva no mercado, a empresa teve que adaptar suas estruturas e ir atrás de novas oportunidades de negócio. “O que nós fizemos foi migrar a nossa capacidade disponível para outros segmentos, como óleo e gás, papel e celulose, siderurgia, que demandam recursos diferentes daqueles que demandado pelo sucroenergético. Tecnologias diferenciadas, recursos humanos mais atualizados, com maior conhecimento. E isso não se faz do dia para a noite”, relata Mauricio Moiséis, diretor de negócios da Caldema.

Essa readaptação demorou três anos e durante esse período cerca de cem pessoas foram demitidas até que a empresa voltasse a contratar para atender seus novos clientes. Isso porque sem dinheiro, as usinas estancaram as compras de novos equipamentos e optaram por prolongar a vida útil do maquinário.

“A gente investia de 5% a 10% do nosso faturamento no melhoramento genético, novas variedades. Isso foi deixado de lado, onde a gente teve que usar os nossos recursos de investimentos para honrar os nossos compromissos. E mesmo assim não deu. Nos últimos três anos, a gente dobrou nosso passivo financeiro. Nós estamos com medo de investir, mesmo depois que voltar a ter condições de investir”, afirma Antônio Eduardo Tonielo Filho, diretor industrial da Usina Santa Inês.

Na lavoura, a falta de dinheiro represou a renovação do canavial e limitou os tratos culturais. Como resultado, a produtividade despencou. Foi o que aconteceu nas terras dos agricultores da Associação dos Plantadores de Cana de Monte Aprazível (Aplacana). “Infelizmente, não conseguimos tratar dos canaviais como deveria ter sido e automaticamente a tonelada por hectare cai. Chegamos na média de 101 toneladas por hectare e caímos para 70 toneladas por hectare. Para recuperar uma produtividade dessa vai no mínimo de cinco a dez anos”, estima Márcio Miguel, presidente da Aplacana.

O corte manual da cana-de-açúcar é um dos trabalhos mais polêmicos da agricultura, seja pela queima do dia anterior, que prejudica o meio ambiente, seja pelas condições extremas impostas ao cortador. A crise bagunçou o calendário de quem queria já ter eliminado essa cena da sua lavoura. “Eu ganho por mês em torno de R$ 2 mi, depende da produtividade. Quanto mais trabalha, mais ganha”, conta Romário do Vale, cortador de cana.

Os dias contados do corte manual da cana no estado de São Paulo tem a ver um protocolo agroambiental, assinado em 2007. Pelo acordo, esse tipo de trabalho deve deixar de existir no próximo ano. Não fosse a crise, o agricultor Maurício Pinatti, já teria comprado duas colheitadeiras para fazer o serviço na sua área: “O aspecto financeiro fez com que nós retardássemos esse processo de transição, de manual para mecanizada”.

Em meio a tanta dificuldade, algumas usinas estão passando pela crise com menos turbulência, seja porque contam com acionistas estrangeiros, seja porque conseguiram fortes investidores internos. Algumas delas ganharam fôlego até para ajudar o produtor quando faltou dinheiro para financiar as lavouras.

No município de Olímpia, a Usina Guarani entrou como fiadora de vários agricultores. “Ela foi a garantidora desses recursos para que ele sobrevivesse na atividade. É um risco, mas vale a pena”, garante Jaime Stupiello, diretor agrícola da usina.

Mesmo na crise, a empresa firmou uma parceria com um instituto do sul da África e começou a testar novas variedades de cana. Dos 60 materiais importados, pelo menos, seis apresentaram bons resultados nos testes que foram feitos até agora. “Aqui já apresentaram 20% a mais de açúcar com relação as variedades tradicionais. Já é um veículo para uma próxima crise, que espero que demore bastante, elas estejam sendo um amortecedor dessa crise. A gente não controla mercado, nem o clima, mas se a gente tiver trabalhando para sempre estar inserindo novas tecnologias, sem dúvida, é o veículo para você passar pelas crises”, diz Jaime.

Na safra que está sendo colhida, o preço da cana até melhorou um pouco em relação a anos anteriores, mas não há nada até agora para servir de comemoração.