04/07/2016

Álcool de segunda geração ainda precisa conseguir escala industrial

A transição da fase experimental para a produção em escala industrial da tecnologia do etanol de segunda geração (E2G) ainda não se completou. O E2G é produzido a partir de biomassas. No Brasil são utilizadas novas variedades de cana, com maior conteúdo energético, e também o bagaço e a palha da cana. O potencial dessa fonte de energia é significativo. Relatório do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aponta o E2G como capaz de eliminar a dependência brasileira por combustíveis importados, gerar um novo ciclo de investimentos em química renovável e estabelecer o Brasil como referência mundial em biorrefinarias. Mas nenhuma das usinas que utiliza a tecnologia trabalha a plena carga.

A pioneira foi a usina Bioflex 1, que entrou em operação em setembro de 2014 em São Miguel dos Campos, Alagoas. A unidade, pertencente à GranBio, recebeu investimentos de R$ 350 milhões e tem uma capacidade projetada para 82 milhões de litros anuais. Em 2015, a usina produziu quatro milhões de litros de etanol. Em abril deste ano, a empresa paralisou temporariamente sua fábrica para fazer ajustes na unidade de pré-tratamento da biomassa – uma das principais etapas da produção do E2G.

Alan Hiltner, vice-presidente de negócios da GranBio, diz que a previsão é que a usina volte a operar em breve e aumente gradativamente a produção até chegar aos 100% de capacidade. “Alguns desafios precisam ser superados para o desenvolvimento da indústria do E2G. São prerrogativas do pioneirismo”, diz.

A GranBio, em 2014, chegou a anunciar planos para produzir, por meio de parcerias, um bilhão de litros de E2G por ano até 2020. Agora está mais cautelosa. “Os próximos investimentos em unidades industriais serão anunciados após a resolução das questões tecnológicas relacionadas à Bioflex 1”, diz.

Outro propósito da GranBio é o desenvolvimento de novas variedades de cana com mais conteúdo energético, a chamada cana-energia. Em março, a companhia lançou as primeiras variedades comerciais da cana vertix, que apresenta uma produtividade de 180 toneladas por hectare, praticamente o dobro da cana tradicional. “É uma matéria-prima mais barata e produtiva para etanol de primeira e segunda geração.”

A Raízen inaugurou sua primeira usina de E2G em novembro de 2014, após investimentos de R$ 230 milhões. A unidade em Piracicaba (SP) foi erguida ao lado da usina de etanol convencional Costa Pinto, que pertence ao grupo, com capacidade para produzir 40 milhões de litros por ano. João Alberto Abreu, vice-presidente da Raízen, informa que em 2015 a unidade produziu um milhão de litros e, nos cinco primeiros meses de 2016, a produção atingiu 1,3 milhão de litros.

O problema constatado é que a biomassa chega à produção com muita impureza mineral, terra principalmente, gerando desgaste nos equipamentos mecânicos. “Estamos desenvolvendo processos para reduzir essas impurezas”, diz. Segundo Abreu, não há previsão para a resolução dos problemas.

A Raízen, informa o executivo, mantém seus planos iniciais de erguer novas usinas E2G ao lado de suas unidades convencionais para facilitar a logística da palha e do bagaço, mas o sinal verde para novas instalações depende da evolução do processo. “Os investimentos só serão retomados quando a produção do E2G se demonstre estável e plena”, diz.

A terceira linha de produção de E2G no Brasil foi instalada na Usina São Manoel, no interior paulista, ligada ao sistema Copersucar. Trata-se de uma unidade de demonstração desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), com capacidade para três milhões de litros por safra. Por ora, opera em regime não continuo.

Viler Janeiro, diretor de assuntos corporativos do CTC, diz que a unidade em São Manuel enfrenta as mesmas dificuldades observadas nas outras usinas de E2G e que a instituição trabalha na busca de soluções técnica e economicamente viáveis. “A viabilidade econômica está a caminho”, diz.

Janeiro avalia que em cinco anos a tecnologia de E2G deve estar competitiva. “À medida que os desafios sejam superados, a difusão da tecnologia deve ser bastante rápida”, afirma. “O Brasil tem potencial enorme para produção de E2G, principalmente em função da disponibilidade de biomassa da cana”. A CTC, informa, está em contato com vários potenciais interessados na tecnologia.