04/07/2016

Avanço na geração por biomassa de cana é limitado

Desde o ano passado as usinas de açúcar e etanol voltaram a respirar – houve reajuste dos combustíveis e escassez de açúcar no mercado internacional, com reflexo nas cotações. O realismo tarifário e o contexto mais favorável aos produtores têm servido para reestruturar dívidas e reduzir o peso do endividamento nos balanços das usinas, após a série de anos desfavoráveis. Até aqui, contudo, nada de novos investimentos à vista, a não ser pequenos projetos pontuais de expansão.

A ampliação da geração de energia a partir da biomassa da cana, opção defendida pela Organização das Nações Unidas e ONGs ambientalistas, avança lentamente, dizem os profissionais do setor. Compromissos internacionais à parte, o sentimento geral é que o país não tem sabido aproveitar devidamente esse potencial. “Hoje temos capacidade de produzir energia, a partir da queima do bagaço, equivalente a 27% de toda a energia produzida no país”, diz Rui Chammas, diretor-presidente da Biosev. “Até o ano passado a participação da biomassa na matriz energética brasileira era de 6,9%”, afirma o executivo.

A lista de entraves passa pelos investimentos necessários para aumentar a capacidade de geração, considerados altos especialmente no caso das caldeiras de alta pressão e nas linhas de transmissão necessárias para ligar a unidade produtora ao sistema elétrico nacional. “Quanto menor a disponibilidade de redes de transmissão e distribuição próximas, maiores são os investimentos necessários para exportar energia adicional de biomassa”, avalia Chammas. Ao contrário dos grandes projetos hidrelétricos, em que são feitas licitações à parte para transmitir a energia gerada. “Além do custo de investimento, a disponibilidade de crédito, a disponibilidade de capital das próprias empresas e as taxas de juros também têm impacto na expansão da oferta”, diz.

Zilmar de Souza, gerente de bioeletricidade da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), considera que os 20 megawatts/hora gerados no ano passado, o maior volume já produzido pelo país, pode ser considerado “bastante satisfatório”. Segundo ele, ainda que em ritmo aquém do que o desejado, esse crescimento tem se mantido nos últimos anos. “Em 2007 e 2008, quando tivemos aquele bom momento do etanol, houve uma expansão muito forte da capacidade, que às vezes demora alguns anos para entrar em geração, e em seguida veio a crise.”

Em 2010, recorda o executivo da Unica, a capacidade instalada no país para gerar energia a partir da biomassa cresceu 1.750 megawatts/hora, o equivalente a 12% do que pode gerar Itaipu. Em 2016, segundo estimativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a previsão é instalar 746 megawatts/hora. E, em 2020, mais uma vez segundo a Aneel, será um incremento ainda menor, algo como 149 megawatts/hora. “A biomassa chegou a representar, em 2009 e 2010, cerca de 30% da expansão do setor elétrico, mas neste ano, só cerca de 7%. Se nada for feito, em 2020 esse índice cairá para aproximadamente 3%”, diz Souza.

Fornecedora de tecnologia para as usinas geradoras, a americana General Eletric (GE) aposta que nos próximos anos o país mudará de patamar na geração de energia a partir da biomassa, segundo Rickard Schäfer, líder de vendas da divisão distributed power da GE Power para o Brasil. “O mercado de bioenergia ainda está em desenvolvimento no Brasil, no caso da biomassa da cana, mas principalmente no uso de esgoto e de resíduos sólidos para a produção de energia. Temos várias parcerias com empresas de coleta de lixo para gerar biogás”, diz Schäfer. “Também temos tecnologia para gerar energia a partir dos resíduos de empresas de agronegócio, como de açúcar e etanol, mas também de setores industriais, como o de bebidas. Vamos viver um boom nessa área nos próximos anos.”

Segundo estimativa da GE, o país possui um potencial de gerar “5 gigawatts de energia” a partir apenas dos resíduos de cana-de-açúcar. “Existem várias fontes com excelente potencial de geração de energia e que ainda não estão sendo usados”, diz o executivo da GE. Schäfer chama atenção para um aspecto da crise vivida pelo setor sucroalcooleiro nos últimos anos: “Nos anos difíceis, só sobreviveram as usinas que puderam gerar energia a partir de biomassa”, avalia Schäfer.

Em parceria com a Sanepar, a empresa paranaense de saneamento básico, e a Cattalini Bioenergia, como sócia na joint-venture criada para tocar o empreendimento, a GE investe para gerar energia a partir de resíduos colocados em biodigestores, inclusive do esgoto. A GE entrou com os motores para a geração de energia térmica e elétrica. “Esse é o primeiro projeto dessa natureza na América Latina. Vemos aí também um potencial muito grande de expansão”, diz Schäfer.

Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o físico e ex-ministro do meio ambiente José Goldemberg defende que o país lance um programa amplo nessa área. “Segundo estudos, com 5 milhões de hectares de novas florestas, o que não é tanto assim, o Brasil poderia, queimando biomassa, produzir uma parcela significativa da sua necessidade de eletricidade. “