25/07/2016

CPFL vê momento para aquisições no setor elétrico

A CPFL Energia, maior empresa privada integrada do setor elétrico, passa por um importante momento de transição, que tem o potencial de ampliar ainda mais o escopo de suas operações.

Depois de 18 anos, a companhia tem um novo presidente desde o início de julho. André Dorf, que veio da CPFL Renováveis, avalia que a transição tem sido suave e sem “rupturas”. O foco da companhia, disse, em entrevista ao Valor, segue na consolidação do setor elétrico brasileiro, com prioridade para oportunidades em distribuição e geração de energia – mas sem se limitar a esses segmentos.
No mesmo dia em que Dorf assumiu o comando da empresa, depois de uma transição de quase três meses em que trabalhou ao lado do seu antecessor, Wilson Ferreira Junior, a Camargo Corrêa anunciou a venda de sua participação de 23,6% na companhia para a gigante chinesa State Grid.

A transação está sendo bem vista dentro da CPFL, que pode ganhar um sócio robusto, o que dará ainda mais força na sua estratégia de consolidação. “Para nós esse é um novo ciclo”, disse Dorf na entrevista, que aconteceu na manhã de sexta-feira na sede da companhia, em Campinas. Ele lembrou que ainda não há nada definido.

Por enquanto, a State Grid ainda está realizando uma diligência na companhia, para só depois acertar a operação com a Camargo Corrêa. Será depois da obtenção da aprovação pelos órgãos regulatórios que a chinesa vai fazer propostas idênticas de aquisição da participação aos demais membros do bloco de controle da CPFL: Previ e Bonaire. Se receberem o sinal verde, poderão realizar uma oferta pública de aquisição de ações (OPA), o que pode terminar na compra de 100% da companhia.

“É uma transação que está sendo tocada de forma muito serena no que compete aos acionistas”, disse Dorf. Segundo ele, “independentemente da conclusão da transação com a CPFL, a State Grid é uma companhia que tem um tamanho e uma forma de conduzir os negócios que é muito respeitável.” Ele lembra ainda que a State Grid “tem apetite para crescer”, assim como a própria CPFL.
“Qualquer que seja o cenário da transação, a CPFL vai estar muto bem. Seja com os atuais acionistas, com a State Grid com uma posição com os demais controladores, seja ela controlando isoladamente. Qualquer rota é muito interessante”, disse o executivo.

Os grandes temas do mercado hoje são consolidação e privatização. “São grandes avenidas”, disse Dorf. Os temas surgiram no radar depois dos desafios enfrentados no setor elétrico nos últimos anos, que dificultavam essas operações. Recentemente, porém, a dinâmica do governo em relação ao setor mudou, abrindo oportunidades.

“Vamos ser participantes em todas as oportunidades, com menor ou maior interesse. Temos como prática avaliar todas as oportunidades”, disse Dorf. O executivo, porém, não detalhou operações com as quais a empresa possa estar envolvida. “Não temos nenhuma operação iminente”, disse.
Para a companhia avaliar uma possível fusão ou aquisição, deve medir a relação entre o risco e o retorno. A disciplina fiscal, disse, continua sendo muito importante para a CPFL. “Temos o bolso finito, então precisamos elencar as prioridades”, explicou.

A CPFL Energia deve ter um papel importante no segmento de distribuição de energia, mas não deve parar por aí. Se antes a empresa já era vista como veículo preferido do mercado para aquisições no setor, com a State Grid por trás isso pode ser mais acentuado, aventurando a companhia até mesmo por segmentos em que tradicionalmente não tem atuação relevante, como transmissão de energia – uma ‘expertise’ dos chineses.

“A transmissão no Brasil passou por um momento muito difícil”, disse Dorf, completando que, porém, isso mudou. A CPFL, tradicionalmente, não tem se concentrado nesse segmento. “Mas se o patamar de atratividade se confirmar, podemos vir a olhar”, disse ele.
Em relação à geração de energia, a companhia avalia as oportunidades à venda no mercado.

A empresa também tem um olhar especial para projetos de energia renovável. Dorf ficou à frente da CPFL Renováveis por cerca de três anos antes de assumir o comando da holding do grupo. “Temos olhado, sabemos que tem muita coisa em renováveis potencialmente à venda”, disse, sem entrar em detalhes. A diferença é que hoje a empresa olha não só projetos em operação, mas também aqueles que estejam em construção ou em andamento.
Sobre um potencial interesse na Renova Energia, Dorf descartou. “Não temos nenhuma negociação em andamento com a Renova”. Ele também disse não olhar participações minoritárias em grandes projetos de energia hidrelétrica. “[A aquisição] precisa fazer uma lógica de portfólio”, explicou.