04/07/2016

Indústrias investem para ter autossuficiência com projetos eólicos

Há quase dois anos a Honda produz a energia necessária para abastecer sua fábrica de automóveis no município paulista de Sumaré. A fabricante de bebidas Brasil Kirin prevê fazer o mesmo a partir deste semestre para alimentar suas 13 plantas industriais em várias localidades do Brasil. São os dois únicos exemplos conhecidos no Brasil de empresas que decidiram apostar na autossuficiência energética graças ao investimento na construção de parque eólicos próprios.

Com a autoprodução, as duas empresas querem garantir a estabilidade no fornecimento de energia elétrica no longo prazo, evitando a exposição a riscos como os decorrentes da crise hídrica de 2014 e 2015, que encareceu o preço da energia.

A opção por esse modelo proporciona outros dois benefícios: a redução dos custos operacionais e da emissão de poluentes, já que a energia limpa gerada pelos ventos é mais barata que outras fontes renováveis.

Localizado na cidade de Xangri-Lá, distante cerca 140 km de Porto Alegre (RS), o complexo eólico que abastece a montadora japonesa proporcionou uma economia entre 20% e 25% desde o início de sua operação, em novembro de 2014. Os índices correspondem ao que se deixou de desembolsar para comprar energia elétrica no mercado, explica Carlos Eigi, presidente da Honda Energy, subsidiária da Honda Automóveis do Brasil, responsável pelo empreendimento.

A Honda Energy tem um contrato de fornecimento com a Honda Automóveis. A energia gerada no parque eólico é “jogada” no Sistema Interligado Nacional (SIN) através da subestação Atlântida II e de uma linha de transmissão da Eletrosul. Segundo Eigi, a empresa tem um contrato com a CPFL , distribuidora de energia que atende a cidade de Sumaré, para a liquidação de energia excedente no mercado de curto prazo.  

Apesar do impacto econômico, foi a sustentabilidade ambiental o principal apelo para o desenvolvimento do projeto. “A proteção do meio ambiente sempre foi a política da empresa. A energia eólica é a que menos impacta em termos de emissão de CO2, por isso decidimos construir o parque”, ressalta Eigi. Abastecida inteiramente pelo complexo eólico instalado na cidade do litoral norte gaúcho, a fábrica de Sumaré reduziu em torno de 11 mil toneladas a emissão de CO2 de janeiro do ano passado a maio deste ano.

No quesito sustentabilidade ambiental, a energia eólica leva vantagem em relação a outras fontes renováveis. Para efeito de comparação, o executivo da Honda Energy diz que para cada 1 MW gerado pela sopro dos ventos são emitidos 7 kg de CO2, enquanto nas hidrelétricas e nas termelétricas a mesma quantidade de energia gerada corresponde a uma emissão de 25 kg e 180 kg de CO2, respectivamente.

A Honda investiu R$ 100 milhões na construção de seu parque eólico, que possui nove aerogeradores de 3 MWh cada, o que resulta em uma capacidade instalada de 27 MWh. Por enquanto, o complexo atende apenas a unidade de Sumaré, que no ano passado operou no regime de hora-extra e produziu 147 mil veículos. Com a crise econômica, porém, a fábrica voltou ao ritmo normal de produção (120 mil carros por ano).

O plano da Honda Energy é fornecer energia eólica para as outras unidades fabris, como a de Manaus, que está operando com cerca da metade da capacidade de produção de 1,6 milhão de motocicletas por ano e a de Itirapina (SP), que ainda não foi inaugurada e irá absorver parte da produção de veículos da unidade de Sumaré. Para tanto, será necessário ampliar as instalações do complexo eólico. De acordo com Eigi, há estudos em andamento, mas ainda não há definição sobre quando o projeto de expansão sairá do papel.

A Brasil Kirin preferiu erguer o seu parque eólico na cidade de Acaraú (CE). Resultado de um investimento de R$ 150 milhões, ocupa uma área de 206 hectares e entrará em operação no segundo semestre, com sete torres de aerogeradores. No início do próximo ano, serão instaladas outras sete turbinas para atingir a capacidade total de 29 MW, suficiente para suprir mais de 35% da demanda de 13 plantas industriais em 11 Estados.

O projeto foi iniciado em 2012 como parte de uma estratégia que visa garantir a continuidade do negócio de forma sustentável e a geração de valor compartilhado, explica Rogério Grecco, diretor de engenharia da Brasil Kirin. “Essa é uma iniciativa que refletirá também nos custos das operações. A economia será de aproximadamente 40% do que hoje empresa consome”, projeta.

De acordo com Grecco, além do complexo eólico instalado na região Nordeste, a Brasil Kirin conta com outras fontes de energia renovável para abastecer a sua operação, como o biogás gerado nas estações de tratamento de efluentes industrial para geração de vapor.