04/07/2016

Investimentos em eólica somam US$ 28 bi em dez anos

Em pouco mais de dez anos, o Brasil se tornou um dos maiores mercados de energia eólica no mundo. Entre 2006 e 2015, o setor recebeu US$ 28 bilhões em investimentos, sendo que ano passado foram US$ 5 bilhões, o que fez o país se tornar um dos quatro maiores investidores do planeta nessa fonte, cenário que pode se manter ao longo dos próximos anos, diante da dificuldade de licenciamento de grandes hidrelétricas e baixa disponibilidade de gás.

Com 349 usinas no total, o ano passado terminou com 8,7 mil MW de potência eólica instalada, um crescimento de 46% de potência em relação a dezembro de 2014 e que fez o país figurar entre os dez maiores geradores da fonte no mundo. Neste ano, a capacidade deve pular para 11,6 GW em dezembro e chegar a 18,8 GW em 2019. Em 2024, a energia hidroelétrica responderá por 58%, as eólicas, 11%, a solar, 3%, e as térmicas, 14%, segundo perspectiva preliminar do Plano Decenal 2024, elaborado pela Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE).

Com 2 GW de projetos em portfólio, a maioria deles no Nordeste, a CPFL Renováveis enxerga um cenário promissor para a fonte diante de um consumo per capita ainda baixo. Hoje, o consumo per capita brasileiro está em cerca de 2,5 mil kWh por habitante, abaixo do registrado na Argentina e Chile (3.300 kWh), e muito inferior ao apurado nos Estados Unidos, acima dos 12 mil kWh por habitante.

“O Brasil ainda aproveita menos de 10% do potencial eólico e as usinas operam com fator de competitividade de 50% a 60%, bem acima da média mundial, com impactos ambientais mais baixos que as hidrelétricas. É preciso que a conjuntura afete sempre pouco o planejamento de longo prazo, já que demoram-se anos para erguer um projeto, seja eólico ou hidrelétrico”, afirma o diretor de novos negócios, Alessandro Gregori Filho.

O avanço dos ventos na matriz tem atraído a atenção de investidores tradicionais e novos players. A Votorantim Energia foi um dos recentes ingressantes do mercado. A empresa, que estudou o mercado por três anos, decidiu investir R$ 1 bilhão na construção de sete parques eólicos no interior do Piauí, com capacidade instalada total de 206 MW e entrada em operação em 2018. Assim, a empresa diversifica seu parque gerador, com capacidade instalada em operação de 2,6 GW, distribuídos em 32 usinas hidrelétricas, além de cinco usinas de cogeração.

O projeto eólico Ventos do Piauí teve 90% de sua energia direcionada para o mercado regulado por meio da venda no leilão A-3 de agosto de 2015. “Os 10% remanescentes serão comercializados no mercado livre, ou pelo modelo de autoprodução, para empresas que têm interesse em ganhar competitividade com esse insumo estratégico, bem como se proteger da variação do preço da energia e dos encargos setoriais, que têm subido razoavelmente nos últimos anos”, afirma Fabio Zanfelice, presidente da Votorantim Energia.

Ele ressalta que o foco no momento é a construção dos parques no Piauí, mas a empresa avalia outras possibilidades futuras nessa estratégia de negócios, por exemplo, a expansão da geração eólica no Nordeste para até 600 MW de capacidade instalada.

Para Gregori Filho, a movimentação no mercado deve ser mais intensa nos próximos meses. “O principal risco é a falta de liquidez, que pode reduzir o dinheiro para o financiamento de longo prazo para empresas sem estruturação ou que ainda não estão com projetos em operação, o que deve estimular o mercado de fusões e aquisições.”

Outro fator que incentiva essa troca de cadeiras é a Operação Lava-Jato, que poderá fazer com que empresas se desfaçam dos seus ativos na área para aumentar sua liquidez. A alta do dólar e a nova política de financiamento do BNDES, que deve reduzir sua participação nos projetos de energia eólica, poderão ter impacto sobre a cotação da fonte. “Quando o custo de capital aumenta, a tendência é de que os preços sejam afetados, mas a tecnologia também avança, então o câmbio e o financiamento não deverão ser integralmente repassados aos preços”, aponta.