21/07/2016

ONS sinaliza consumo de energia mais otimista

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) deve adotar um tom mais otimista na próxima revisão da estimativa de consumo de energia para este ano, prevista para setembro. Segundo o diretor-geral do órgão, Luiz Eduardo Barata, ainda é cedo para apontar crescimento do consumo em relação a 2015, mas é esperada uma reversão da trajetória da curva de expectativa. Na prática, é possível que a previsão de queda de consumo, de 2,4%, ante 2015, seja menor.

“A gente vinha com a impressão de que a carga estava caindo. Em setembro deverá haver uma reversão”, afirmou Barata, em sua primeira entrevista exclusiva, após assumir o cargo, há pouco mais de dois meses. Segundo ele, a reversão se deve a sinais positivos da economia, com uma indicação de retomada no segundo semestre. “As notícias mais recentes [da economia] começam a ser mais alvissareiras”, disse.

Na versão atual do Plano de Operação Energética (PEN), 2016-2020, o operador prevê carga – consumo de energia mais perdas – no sistema em 2016 de 64.573 megawatts (MW) médios, com queda de 2,4% em relação a 2015 (66.154 MW médios). A estimativa tem como base queda de 3% no PIB deste ano.

Para 2017, no entanto, o executivo já trabalha com variação positiva do consumo em relação a este ano. “A confiança na economia tem sido revertida. Isso faz com que nós acreditemos que, para o ano que vem, o quadro deve se alterar”, explicou.

Barata destacou ainda que já há sinais de crescimento de consumo nos dois últimos boletins mensais. Em maio, o consumo de energia foi 0,9% superior que em igual período de 2015. Em junho a alta foi de 1,8%.

“Ainda não estamos seguros de que vamos voltar a ter a demanda crescente. Esse sinal ainda é muito incipiente”, explicou Barata. Ele confirmou expectativas do governo e de especialistas do setor de que não há risco de desabastecimento até 2021. Há sobra de energia no sistema.

Em curto prazo, a expectativa é que os reservatórios das hidrelétricas do subsistema Sudeste/Centro-Oeste (que concentram cerca de 70% da capacidade de armazenamento de água para geração de energia) terminem o período seco, em novembro, com estoque de 22% a 30% (o nível hoje está em 53,4%). “Isso nos daria condição de maximizar os reservatórios no período úmido e chegar em boas condições em abril para enfrentar um novo período seco. As expectativas são boas”, disse o diretor.

Segundo ele, a segurança com relação ao abastecimento nos próximos anos permite ao governo implementar ajustes no modelo regulatório do setor elétrico. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) lançou chamada pública de projetos para um programa de pesquisa e desenvolvimento estratégico para aprimoramentos no modelo.

Questionado sobre o atraso das obras de transmissão da espanhola Abengoa, interrompidas em novembro de 2015, e o risco para o atendimento ao sistema, Barata explicou que já foram encontradas soluções pontuais para os projetos mais preocupantes, como um dos linhões da hidrelétrica de Belo Monte e um conjunto de linhas para escoar energia eólica no Nordeste.

Barata, que está em sua terceira passagem pelo ONS (de 1998 a 2001 como assistente de diretoria; em 2004-2010, foi diretor de Operação), pretende adotar um “tripé” para sua gestão baseado em inovação, integração e transparência.

A inovação, segundo ele, é necessária para que o ONS se adapte à nova tendência do setor, que será caracterizada por participação cada vez maior de fontes energéticas intermitentes (principalmente eólicas e usinas solares) e por crescente influência do consumidor na rede, por meio da geração distribuída.

Sobre a integração, defende uma interlocução maior entre o planejamento do sistema e a operação. “Quanto mais próximos e alinhados estiverem planejamento e operação, menor será o custo de operação do sistema. Temos investido muito na relação com a EPE [Empresa de Pesquisa Energética] e com o Ministério de Minas e Energia”, afirmou. A favor de Barata conta a favor o fato de ter ocupado nos últimos anos a presidência do conselho de administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a secretaria-executiva do ministério.

Na terceira perna, a transparência, é importante, segundo Barata, que o ONS preste contas de todas as atividades e mantenha contato constante com a sociedade, para que o operador não venha a público apenas nos momentos críticos.

Ainda na linha da transparência, Barata também se mostrou favorável a que a coordenação do setor elétrico permita a sinalização de preços mais adequada para o mercado. Nesse sentido, uma das primeiras medidas adotadas por ele, com a aprovação pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), foi a retomada do mecanismo de despacho de termelétricas por ordem de mérito de custo para o Sudeste/Centro-Oeste e Sul. Com isso, na prática, as térmicas são acionadas apenas quando o preço da energia indica essa necessidade.

Com relação à Olimpíada, o diretor-geral do ONS disse que o atendimento para o país está garantido durante os jogos. “Estamos absolutamente seguros e tranquilos com relação à Olimpíada, seja no Rio, seja nas cidades-sede do futebol”, concluiu.