24/08/2016

Energia a partir da cana ganha força com antecipação da safra

Fonte: Valor Econômico

O clima seco e favorável para o processamento de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil neste ano e a entrada em atividade de novos investimentos em cogeração de energia elétrica a partir do bagaço de cana permitiram um aumento da geração de energia nas usinas sucroalcooleiras no primeiro semestre de 2016.

Entre janeiro e junho, as usinas entregaram ao sistema interligado nacional 7,5 mil gigawatt-hora (GWh) produzidos a partir da biomassa, tanto no ambiente regulado como no mercado spot, superando em 10% a energia entregue ao mercado no mesmo período do ano passado (6,7 mil GWh), segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

“A [energia a partir da] biomassa de cana começa a ter produção em abril, indo até novembro, no máximo. Mas este ano houve antecipação por causa da questão climática”, afirma Rui Altieri, presidente do conselho de administração da CCEE, ao Valor. Diante do tempo firme no começo do ano, muitas usinas anteciparam o início da colheita da safra 2016/17 para março, o que provocou uma entrada de biomassa no mercado antes da época em que costuma entrar.

Essa antecipação se reflete no desempenho da cogeração em março, quando as usinas exportaram 639 GWh, 89% a mais do que no mesmo mês do ano passado. A cogeração da cana em março já se distanciou de forma considerável dos níveis da entressafra, quando boa parte das usinas estava parada para manutenção. Para se ter ideia da diferença, em janeiro as usinas entregaram 220 GWh e, em fevereiro, cogeraram 192 GWh.

A cogeração foi crescendo no semestre e atingiu seu pico em maio, quando alcançou 2,3 mil GWh. No segundo trimestre, as caldeiras já estavam a pleno vapor. Maior produtora de energia a partir de bagaço da cana no país, com 13 unidades de cogeração, a Raízen Energia entregou ao sistema 817 mil MWh no período (equivalente ao primeiro trimestre da safra 2016/17), 15,9% mais do que no mesmo trimestre da safra anterior.

A oferta maior de cana também tem elevado a disponibilidade de bagaço. Desde o início oficial da safra, em abril, até o fim de julho, as usinas do Centro-Sul processaram um volume de cana 13% maior do que no mesmo período da safra passada, totalizando 310,5 milhões de toneladas.

Além do melhor desempenho na parte agrícola, também houve um aumento da capacidade industrial. Segundo Altieri, o parque gerador cresceu 7,4% sobre o primeiro semestre de 2015, em função tanto de investimentos feitos em anos anteriores na ampliação da capacidade das unidades já existentes como na instalação de novas plantas de cogeração. A expectativa é que essa capacidade continue aumentando, uma vez que seis usinas ganharam leilões nos últimos anos e se comprometeram a gerar um total de 136 MW médios entre 2018 e 2021.

Luiz Cláudio Barreira, analista de bioeletricidade da consultoria FG/A, recorda ainda que houve a recuperação de um linhão da CPFL entre Franca e Pioneiros que estava limitando a capacidade de entrega de energia por parte das usinas até junho. Ele estima que a restrição estava impedindo a entrega de 50 MWh ao sistema. “Ainda não regularizou de vez, mas já melhorou muito”, diz.

Embora a antecipação do início da safra também possa implicar um fim antecipado, Barreira observa que há um excedente da oferta de bagaço de cana que pode prolongar a cogeração para além da janela de moagem. “O preço do bagaço está mais baixo do que em anos anteriores, isso significa que está sobrando combustível para usinas. Pode ser que isso viabilize a produção [de energia] depois que a usina encerrar safra, seja com matéria-prima própria ou comprando de terceiros”, ressalta.

O bagaço da cana continua como a principal matéria-prima de geração de energia elétrica dentre as opções de biomassa existentes e chegou a ter uma participação maior no primeiro semestre, respondendo por 88,4% da energia gerada a partir de biomassas no período. No primeiro semestre do ano passado, a biomassa da cana representou 85,2% de toda a energia gerada a partir das diversas biomassas existentes.