20/09/2016

Distribuição terá de se reinventar com adoção de novas tecnologias

Fonte: Valor Econômico

Com a expectativa da grande expansão do segmento de geração distribuída e da gradual liberação do mercado livre de energia, as distribuidoras de energia precisarão reinventar seu modelo de negócio, avalia Alex Lago, líder global da divisão de serviços de smart grid da Accenture Consulting.

Hoje, essas empresas obtêm a maior parte das suas receitas com a venda de energia, mas a tendência é de queda contínua na demanda em suas áreas de concessão, segundo Lago.

No futuro, à exemplo do que já acontece em outros países, o negócio vai ser voltado para a gestão das redes de distribuição e prestação de outros serviços, como de eficiência energética.

Segundo Roberto Falco, gerente sênior da Accenture, ainda é necessário pensar também um novo modelo de remuneração para as distribuidoras, levando em conta esse novo papel.

O cenário não é exclusividade do setor elétrico brasileiro. Segundo a Accenture, o crescimento da eficiência energética e da tecnologia de geração distribuída vai restringir o crescimento da demanda no médio prazo para muitas empresas. Nos Estados Unidos, a consultoria calcula que há US$ 48 bilhões de receita em risco, com base na redução do consumo projetada para 2025. Na Europa, são até € 61 bilhões de receita em risco, também com base nessas projeções.

No Brasil, as conexões de geração distribuída ainda somam um número muito pequeno, mas o crescimento tem sido acelerado. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), eram 4.517 conexões ao fim de julho, ante 1.788 conexões ao fim de 2015. “Nossa expectativa é de ver o Brasil parecido com outros mercados”, diz Falco, lembrando que, na Alemanha, a geração distribuída atingiu 20% da carga em pouco tempo.

Ao mesmo tempo em que a geração distribuída cresce, as distribuidoras de energia precisarão ter capacidade de suprir os consumidores em horários de pico ou em dias sem sol, já que a grande maioria da geração é de energia solar fotovoltaica.

Segundo Lago, a implementação de redes inteligentes e automatizadas (chamada tecnologia de “smart grid”) não é necessariamente obrigatória para a instalação de geração distribuída, mas as distribuidoras precisarão investir mais nisso para conseguir efetuar uma gestão mais adequada da sua área de concessão.

Sem os medidores inteligentes, as distribuidoras terão problemas de gestão, com a possibilidade, por exemplo, de queda da rede por excesso de energia gerada em dias de muito sol.

É necessário estabelecer uma nova forma de remuneração das distribuidoras pela prestação desse tipo de serviço, que deve substituir a queda da receita com a venda de energia. Segundo Lago, atualmente a Califórnia e o Estado de Nova York estão discutindo essa questão nos Estados Unidos, onde o uso desse tipo de geração de energia já está mais avançado.

“Será uma modernização forçada no setor, que é muito conservador”, disse Falco. Segundo ele, isso vai acontecer porque a expansão da geração distribuída não está sob o controle das distribuidoras.

De acordo com Falco, “todos os investimentos em automação da rede precisarão ser feitos, pois a operação ficará mais complexa para ser gerenciada.” O papel das distribuidoras vai se aproximar mais do das transmissoras de energia, no sentido de gestão da rede, explicou.