11/11/2016

Custo alto do investimento inibe projetos de smart grid

Fonte: Valor Econômico

As redes inteligentes de energia elétrica, também chamadas de smart grid, prometem ser o primeiro passo para uma revolução no modo como a energia é distribuída e consumida. Não se trata apenas da substituição de medidores analógicos por eletrônicos: a tecnologia traz vantagens como a redução de falhas e desperdício, torna mais ágil a manutenção da rede e deve permitir, num futuro próximo, a oferta de novos serviços como a conexão de carros elétricos à rede, a produção de energia nas residências e a possibilidade do consumidor controlar seu consumo a partir de seu celular.

Apesar das amplas possibilidades, as redes inteligentes ainda estão em um estágio preliminar no Brasil. As concessionárias de energia têm feito projetos experimentais envolvendo essas tecnologias, mas sua disseminação ainda passa por desafios como a ampliação dos investimentos e desenvolvimento tecnológico local.

Uma das iniciativas em curso é o Redes Inteligentes Brasil, projeto de P&D que faz parte do Programa Brasileiro de Redes Inteligentes, criado a partir da chamada 011/2010 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O programa visa definir e padronizar tecnologias e metodologias a serem adotadas na migração das redes analógicas para as redes inteligentes de energia, além de definir políticas públicas para incentivar o desenvolvimento de uma cadeia de equipamentos e serviços.

A partir da chamada, foram escolhidos nove projetos piloto instalados em oito Estados. A AES Eletropaulo, uma das concessionárias engajadas na iniciativa, tem realizado projetos de P&D em smart grid há sete anos. A empresa investiu R$ 75 milhões em seu projeto SmartGrid, em curso desde 2013 em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, e prevê a instalação de 62 medidores inteligentes no município, envolvendo uma população de 240 mil pessoas.

Outras ações são a aplicação de automação avançada, instalação de detectores de falta de energia e de equipamentos para possibilitar a reconfiguração automática da rede; implantação de estrutura de telecomunicação com equipamentos instalados na rede; desenvolvimento de tecnologias para identificar falta de energia e de um medidor com tecnologia nacional, já homologado pelo Inmetro.

Além do projeto em Barueri, a empresa investiu mais R$ 170 milhões em automação, com a instalação de 3.000 dispositivos de religação automáticos, identificadores de falta de energia e a digitalização de subestações em toda a área de concessão da companhia. De acordo com Maria Tereza Vellano, diretora de planejamento, engenharia e obras da distribuição da AES Eletropaulo, a aplicação dessas tecnologias traz vantagens para a empresa e consumidores.

“A melhoria na qualidade do fornecimento de energia por meio do monitoramento remoto das redes reduzirá a necessidade de equipes em campo e permitirá maior agilidade na localização de falhas. O cliente poderá fazer a autogestão do consumo”, diz ela.

A Cemig, de Minas Gerais, desenvolve desde 2010 o projeto Cidades do Futuro, em Sete Lagoas, a 72 km de Belo Horizonte, com o objetivo de validar produtos, serviços e soluções inovadoras de arquitetura das redes inteligentes de energia e aprofundar projetos de P&D de caráter disruptivo – caso do conceito das redes sinérgicas, alvo de pesquisa há dez anos junto com a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Trata-se de uma tecnologia de transmissão, pelo mesmo cabo de fibra ótica, de energia elétrica e do sinal de internet de banda larga.

“A rede sinérgica será uma revolução na forma como energia e dados são transmitidos no Brasil. Vai trazer impactos significativos no avanço do smart grid, que não ficará dependente da transmissão de dados por redes sem fio”, diz Carlos Alexandre Nascimento, engenheiro de tecnologia e normalização da Cemig. A empresa está testando uma linha de transmissão com o conceito em Sete Lagoas e, no ano que vem, deve fazer os primeiros testes em uma rede de rua.

O investimento em inovação e em desenvolvimento tecnológico local é fundamental para que as redes inteligentes ganhem mais rapidez e abrangência no Brasil, além de questões regulatórias e políticas públicas que viabilizem a nacionalização dos sistemas e fontes de financiamento específicas para a área. “Várias empresas do setor têm iniciativas relacionadas a smart grid, mas falta a segurança para investimento em alta escala”, diz Maria Tereza Vellano.

Para a Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE), outro fator que poderia trazer avanço seria direcionar para as redes inteligentes parte dos recursos que as concessionárias devem aplicar em P&D. Pela Lei 9.991/2000, as empresas devem destinar 1% de sua receita líquida a pesquisa tecnológica e eficiência energética. “As redes inteligentes são o primeiro passo de uma grande transformação tecnológica, mas o setor elétrico brasileiro ainda está no período jurássico em relação a outros segmentos”, diz Alexei Vivan, presidente da ABCE.