21/11/2016

Dar preço ao carbono será inevitável, diz economista

Fonte: Valor Econômico

A conferência do clima das Nações Unidas terminou sábado em Marrakesh abrindo o trabalho de implementação do Acordo de Paris, como estava no roteiro da CoP-22, marcada pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Abandonar o uso de combustíveis fósseis o quanto antes é a premissa para o Acordo de Paris não fracassar. O debate de dar preço ao carbono ganhou força em eventos paralelos em Bab Ighli, local da CoP.

Ottmar Edenhofer, economista e vice-diretor do Potsdam Institute for Climate Change (PIK, importante instituto de pesquisa sobre mudança do clima na Alemanha), acredita que dar preço ao carbono é “inevitável e questão de tempo”.

Ter um preço de carbono estava no plano alemão de reduzir emissões no longo prazo, divulgado em Marrakesh. Mas a ideia foi excluída da versão definitiva. Na Alemanha a questão divide a indústria. “Quem produz com alta intensidade energética é contra, assim como sindicatos que temem o abandono do uso do carvão”, diz.

Mas a indústria, observa, não é um bloco monolítico. “Dar preço ao carbono mostra se queremos mudar o antigo paradigma do século passado para o do século 21, e incentivar estruturas com tecnologia livre de carbono”, explica. “Além de penalizar o uso de combustíveis fósseis.”

A reforma do mercado de crédito de carbono europeu é o próximo passo, adianta Edenhofer.

Ele aposta num ciclo de investimentos em infraestrutura nos próximos anos. “A África pode virar a nova China, tem grandes reservas de carvão. Dependerá de escolhas sobre transporte, iluminação e a reformulação das cidades de modo a reduzir as emissões”, diz Edenhofer ao Valor. “Por isso ter um preço de carbono é importante.”

O preço da tonelada de CO2 é muito baixo hoje. “Mas se chegar a € 13 ou € 14 por tonelada de CO2, a infraestrutura atual será depreciada. E precisaremos de uma nova, que produza menos emissões”, diz Edenhofer, que dirige o Mercator Research Institute on Global Commons and Climate Change.

“Uma usina de carvão hoje, com preço de carbono zero, é algo maravilhoso. Mas se eu colocar um preço nas emissões, de € 13 euros por tonelada de CO2, a usina não é mais viável”, continua.

Depois do Acordo de Paris, o debate sobre dar preço ao carbono ganhou evidência entre os países do G20, as economias mais ricas do mundo. “A agenda do G20 é o crescimento econômico. O ponto é de onde virá esse dinheiro e qual tipo de infraestrutura precisamos.”

Sobre uma saída dos EUA do Acordo de Paris, Edenhofer prevê um impacto, mas pondera: “Outros vão continuar, principalmente a China, que tem interesse em se transformar em uma potência ‘soft’ e busca reconhecimento internacional, e não apenas ter economia forte e poder militar.”

Edenhofer, que coordenou o último relatório sobre mitigação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), não espera aumento de emissões dos EUA com Trump. “Os EUA viveram a revolução do fracking e do gás. As emissões caíram”, diz. “Tenho dúvidas se abrirão usinas a carvão pois economicamente não é viável”. O risco climático seria, então, os EUA exportarem mais carvão.