18/11/2016

A evolução dos riscos de escassez de energia no Brasil

Fonte: Valor Econômico

No início de 2015, o Brasil vivia um momento delicado no setor elétrico. Assim como em 2001, uma forte estiagem diminuíra substancialmente o nível dos reservatórios das hidrelétricas e colocara em risco a oferta de eletricidade. A situação era tão crítica que diversos analistas viam como iminente a necessidade de adoção de alguma restrição ao consumo, o temido racionamento de energia.

Desde então, este risco não se concretizou e, gradativamente, os agentes parecem haver se “esquecido” do tema. O que aconteceu? Estaria o mercado excessivamente pessimista naquela época? Ou o cenário realizado foi muito diferente do projetado?

Entre as duas opções, ficamos com a segunda. De fato, ao modelarmos a necessidade de adoção de um racionamento como a probabilidade de que o nível médio dos reservatórios do Sistema Integrado Nacional (SIN) se situasse alguma vez abaixo de 15% nos 24 meses seguintes, nosso modelo proprietário indicava em março de 2015 uma chance de 70% de que tal situação se concretizasse. Entretanto, uma conjunção de fatores reverteu essas expectativas. Pelo lado da demanda, a forte alta das tarifas de energia em 2015 e a recessão muito mais pronunciada que a inicialmente projetada limitaram o consumo de eletricidade relativamente ao esperado. Da mesma forma, o regime hídrico foi melhor que a média de longo prazo desde então, o que melhorou a afluência nos reservatórios e aumentou a oferta de energia hidrelétrica.

E daqui para frente, podemos voltar a enfrentar riscos de um racionamento de energia? Esta pergunta é pertinente, pois o sistema elétrico ainda é majoritariamente hidrelétrico e, logo, suscetível às variações do regime de chuvas. Adicionalmente, espera-se que a economia se recupere gradualmente, fato que certamente influenciaria positivamente a demanda.

Para responder à pergunta, atualizamos as premissas do modelo, supondo a manutenção do atual regime tarifário (bandeira verde). Mesmo mantida a maior produção das hidrelétricas, o resultado é animador: indica uma probabilidade de colapso próxima de zero até o fim de 2017. Adicionalmente, no caso de forte estiagem, ainda seria possível rever a bandeira tarifária, religando térmicas e diminuindo o consumo dos reservatórios.

Recorremos ainda a uma análise adicional para avaliar o risco de colapso: calcular qual seria a estiagem necessária para levar o nível médio dos reservatórios do SIN a 15% até o fim de 2017, mesmo com a adoção imediata da bandeira vermelha no regime tarifário. O resultado é bom outra vez: apenas uma afluência de 69% da média de longo termo (MLT) nos levaria a tal situação. Se ocorresse, essa seria uma seca ainda mais drástica que as três piores ocorridas desde 1931.

Além dos motivos já discutidos, outra razão para a melhora nas projeções está na ampliação da potência instalada do SIN. Em 2015 e no primeiro semestre de 2016, foram adicionadas diversas plantas de energia eólica no Nordeste e, mais recentemente, começaram a entrar em operação novas hidrelétricas na região Norte. Essa maior capacidade, aliada às características da sazonalidade da chuva no norte e do vento no Nordeste, diminuem a vulnerabilidade do SIN às chuvas nas bacias dos sistemas Sudeste e Centro-Oeste.

Por último, uma análise dos dados da agência reguladora do setor (Aneel) acerca da entrada em operação de novos empreendimentos nos próximos anos, mostra que existem boas expectativas de expansão da capacidade instalada. No cenário mais conservador, que considera apenas empreendimentos onde não há quaisquer restrições ou atrasos graves, o crescimento de potência no sistema seria de aproximadamente 16 GWh até o fim de 2018. Isso representa acréscimo em torno de 4,4% ao ano. Essa taxa cresceria para algo como 7,7% ao ano se considerássemos também os empreendimentos em que há alguma restrição ou atraso.

Considerando que o crescimento médio da carga (demanda) nos últimos 10 anos foi de 2,8% ao ano, mesmo o cenário mais conservador deve ser mais que suficiente para garantir a segurança do sistema ao longo dos próximos anos. Dessa forma, podemos concluir que, mantida a estabilidade no ambiente regulatório e a recente melhora na governança das empresas do setor, há grandes chances de não voltarmos a enfrentar problemas de desabastecimento de energia no Brasil nos próximos anos.