24/11/2016

Térmicas movidas a combustível fóssil prejudicam abastecimento de água

Fonte: Valor Econômico

Além de mais poluentes e emissoras de gases-estufa, as termelétricas movidas a combustíveis fósseis, responsáveis por 23% da geração da energia elétrica no Brasil em 2015, causam grande impacto no abastecimento de água na região onde estão instaladas.

Termelétricas que usam água em seu processo de resfriamento exigem, em alguns casos, volumes que correspondem ao abastecimento de municípios. Pecém 1, no Ceará, por exemplo, consome o equivalente a uma cidade de 200 mil habitantes, o que abasteceria o município de Rio Claro, no interior de São Paulo, ou Itaquera, bairro da zona leste da capital paulista.

A localização dessas usinas costuma ser próxima a cidades e regiões industriais, por isso pode haver concorrência pela água para a geração de energia com o abastecimento da população ou irrigação.

Esses são resultados de dois estudos lançados pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), baseado em São Paulo. A ONG lançou uma plataforma on-line (usinas.energiaeambiente.org.br), que reúne informações das 88 térmicas movidas a fósseis, sendo 70 em operação e as demais em obras ou registradas na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Os estudos analisaram usinas acima de 100 MW de capacidade instalada, o que representa quase 80% da matriz de energia elétrica fóssil brasileira. Cruzaram dados da Agência Nacional de Águas (ANA), do Ibama e do setor elétrico, entre outras fontes.

O Iema foi fundado em 2006 para analisar a mobilidade urbana e a qualidade do ar. A ONG também analisa as emissões de gases-estufa do setor elétrico e contribui na formulação de políticas públicas.

Os estudos do Iema indicaram que o cenário é mais preocupante no Nordeste – 90% das usinas estão localizadas em regiões críticas em recursos hídricos. As térmicas que utilizam motor a combustão não precisam ser resfriadas com água, mas esse não é o caso que prevalece no Nordeste.

“As térmicas fósseis são a principal fonte de emissão de gases-estufa no setor elétrico brasileiro”, diz o pesquisador Gabriel de Freitas Viscondi. “Não faz sentido a expansão das térmicas a carvão no Brasil”, diz Kamyla Borges, coordenadora da área de energia do Iema.

“Algumas térmicas estão instaladas em regiões que não têm comitê de bacia. É preciso ter um sistema de governança mais forte para dar conta de administrar conflitos”, diz a pesquisadora Aline Fernandes da Silva.

Os pesquisadores do Iema compararam também os critérios ambientais, com foco em combustíveis fósseis, para financiamento de termelétricas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Mundial e Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (Berd).

O Banco Mundial e o Berd têm uma estratégia institucionalizada para o setor de energia e voltada para a expansão das energias renováveis. O BNDES segue o planejamento elétrico do governo, diz Kamyla. “Apesar de, em comparação, a política do BNDES ser menos robusta que as outras duas instituições, é mais avançada que a legislação brasileira em vários casos”, afirma ela.

O BNDES anunciou que não financiará mais usinas a carvão e óleo combustível e aumentou a participação para usinas de energia solar. “Foi uma sinalização clara para o investidor. O banco mostrou avanço”, diz Aline.