29/12/2016

Minério de ferro é destaque em ano de alta generalizada

Fonte: Valor

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Em um ano de altas generalizadas para as commodities industriais, o comportamento que mais surpreendeu foi do minério de ferro. O insumo passou por grande instabilidade durante 2016, tocando mínimas em mais de seis anos, abaixo dos US$ 40, mas se recuperou com estímulos do governo chinês e disciplina de oferta das grandes produtoras. Ontem, o insumo fechou em US$ 79,80 por tonelada em Tianjin, segundo a “The Steel Index”, e se encaminha para a mais relevante valorização anual desde o superciclo das commodities.

Em dezembro até ontem, a matéria-prima acumula alta de 10,5%. Durante 2016, o avanço é de 86%. A última vez em que o desempenho do minério foi semelhante ocorreu em 2010, ainda assim abaixo de 80%. Logo depois, o produto com teor de 62% tocou os US$ 200 – recorde histórico. O patamar atual reaproxima o minério de valores vistos antes em outubro de 2014. A máxima deste ano, contudo, foi de US$ 82,80, este mês.

Mas os analistas já deram um alerta para 2017: o excesso de oferta no mercado transocêanico ainda é regra e deve derrubar os preços ao longo do ano. Um dos principais motivos é o S11D, enorme projeto da Vale, que começa sua operação comercial no próximo trimestre. O Valor consultou oito instituições e a média de projeções para o ano que vem é de US$ 54.

“Em nossa avaliação, esse preço atual está inflado muito por conta de movimentos especulativos”, afirma Felipe Beraldi, analista da Tendências Consultoria Integrada. Ele lembra que o mercado futuro vem aumentando sua importância na formação de preço da commodity recentemente e uma parcela da disparada de 47% só no segundo semestre teve a ver com os investidores, e não só o mercado físico. Os cálculos de Beraldi apontam para o minério entre US$ 55 e US$ 58 durante o ano que vem.

Se a perspectiva é de queda daqui para frente, ao menos nos primeiros meses de 2017 há possibilidade de resistência para a cotação. Carsten Menke, do Julius Baer, ressalta que a temporada chuvosa no Brasil e na Austrália, os maiores fornecedores da matéria-prima no mundo, tradicionalmente impõe restrições ao fornecimento.

O próprio mercado futuro, que atuou como combustível nessa disparada dos preços, espera recuo daqui para frente. Os contratos mais negociados na Bolsa de Commodities de Dalian, para entrega em maio, terminaram ontem a 564,50 yuans por tonelada (US$ 81), mas até dezembro, é esperada queda para 506 yuans.

Nos últimos meses, Vale, Rio Tinto e BHP Billiton indicaram que iriam favorecer criação de valor e não só aumento de volumes, com expansões de capacidade. “O discurso mudou ante 2015, quando a maioria das declarações era sobre continuar elevando a oferta”, diz Beraldi. “A princípio elas devem manter a estratégia e ajudar a aliviar um pouco o mercado.”

Os acionistas aprovaram o novo discurso e a valorização das commodities que se seguiu. Na Nyse, por exemplo, a Vale acumula ganhos superiores a 140%; a Rio Tinto, de 33%; e a BHP, de 40%.

Valorização de 80% da matéria-prima foi vista pela última vez em 2010, na máxima do superciclo das commodities

Outro fator que influenciou a alta de 2016 e pode não se manter no ano que vem foi a disparada dos preços do carvão metalúrgico. A alta ultrapassou os 250% por conta de restrições trabalhistas e fechamentos de minas na China, por exemplo, e o insumo, que também serve para a fabricação do aço, chegou a valer US$ 320. Ontem, o carvão fechou em US$ 235,90.

Esse movimento de ambos os ingredientes do aço fez com que laminados planos e longos subissem, impulsionados também pela maior produção siderúrgica chinesa – alta de 1,1% no ano até novembro, para 738,9 milhões de toneladas.

Para o Brasil, o efeito da alta do minério foi direto à balança comercial. O valor acumulado das exportações no segundo semestre até a terceira semana de dezembro foi de US$ 6,92 bilhões, acima dos US$ 5,5 bilhões observados na primeira metade do ano e dos US$ 6,91 bilhões no segundo semestre cheio de 2015. Esse foi o montante mais elevado do comércio exterior brasileiro no período.

As mineradoras foram ajudadas no ano também pelos metais não ferrosos. Na Bolsa de Metais de Londres (LME, na sigla em inglês), os contratos futuros de três meses do níquel caíram 10% em dezembro até ontem, para US$ 10.105 a tonelada, mas acumulam ganho de 16% no ano. Para o Commerzbank, a continuidade – ou não – da auditoria ambiental feita pelas Filipinas, país que mais produz a commodity no mundo, determinará o rumo dos preços.

O cobre, por sua vez, cai 4,8% no mês e tem valorização de 18% em 2016, para US$ 5.545. O mercado internacional segue em déficit, mas que vem diminuindo mês a mês. Grande parte da alta é atribuída à expectativa de maior investimento em construção nos Estados Unidos com Donald Trump. O alumínio recua 2% em dezembro e sobe 12% no ano, para US$ 1.704.