13/12/2016

Paralisia econômica ameaça a cadeia produtiva eólica

Fonte: Valor Econômico

Vedete do setor elétrico, tendo mais do que quadruplicado sua capacidade de geração nos últimos quatro anos, a indústria eólica vive uma encruzilhada: precisa contratar pelo menos 2 mil megawatts (MW) nos leilões de 2017 para não iniciar um processo de desmonte da cadeia produtiva instalada em torno da energia dos ventos. Em um ambiente de letargia econômica, a meta é desafiadora: o volume contratado anualmente ficou próximo de metade disso em 2015 e em 2016.

Os fabricantes de equipamentos atraídos ao Brasil pela bem sucedida política de incentivos à nacionalização de conteúdo no segmento ainda não sucumbiram por causa do acúmulo de encomendas anteriores ao último biênio, mas essa “gordura” está prestes a acabar, conforme adverte Elbia Gannoum, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).

“Somos um exemplo de política industrial que deu certo, mas hoje tem fábrica sem nenhum pedido para 2017. É preocupante porque essa cadeia é jovem, os investimentos foram feitos recentemente e isso gera desânimo. Se as empresas forem embora, elas não voltam mais”, afirma Elbia.

De 2009 para cá, os leilões organizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vinham contratando mais de 2 mil MW de fonte eólica, mas o ritmo caiu devido à recessão e à baixa demanda de distribuidoras, que estão até com sobra de energia.

Neste ano, a expectativa da Abeeólica é alcançar em torno de 1 mil MW de contratação, já incluindo os resultados do leilão de energia de reserva (LER), agendado para a próxima segunda-feira.

O recado de Elbia é claro: sem aumentar o volume de encomendas, as fábricas que vieram para o Brasil dificilmente vão ficar e novos projetos não conseguirão o cumprir o índice mínimo de nacionalização exigido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para liberar crédito de longo prazo, que é de 80% dos equipamentos usados nos parques.

“Tem que ter contratação, e não pode ser medíocre”, diz Elbia. “Precisamos de pelo menos dois leilões em 2017”, acrescenta a executiva. De acordo com ela, em função da energia que será descontratada pelas distribuidoras, deve haver demanda suficiente para a realização de um leilão A-5 (com início de suprimento após cinco anos). Também defende a realização de um leilão A-3 ou um leilão de reserva no ano que vem para dar sustentação à indústria.

A alternativa de escoar a produção para mercados vizinhos onde tem havido um “boom” de eólicas, como Argentina e Uruguai, é tida como inviável por causa dos elevados custos no Brasil. Por isso, a associação faz um estudo que apontará sugestões de medidas tributárias para serem levadas ao governo. “Do contrário, as máquinas vão continuar saindo da Europa ou dos Estados Unidos para atender a América do Sul”, comenta Elbia.

Esse conjunto de incertezas já se reflete no humor dos analistas internacionais. Um estudo da consultoria EY indica que o Brasil perdeu duas posições no ranking de atratividade para investimentos em energias renováveis. No terceiro trimestre, o país caiu de 6º para 8º lugar, tendo sido ultrapassado por México e França, segundo divulgou a consultoria em outubro.

Elbia sugere ainda uma espécie de regra de transição para a nova política de financiamento do BNDES. O banco estatal quer ter instituições financeiras comerciais como parceiras nos empréstimos destinados a novos parques eólicos. Isso é positivo, avalia a executiva, mas convém não sobrecarregar muitos bancos que hoje estão transferindo recursos de empréstimos-ponte e podem não ter caixa suficiente para estruturar operações de longo prazo.