04/01/2017

Sem investimento, refino arrisca depender muito de importações

Fonte: Valor Econômico

Sem perspectivas de investimento da indústria de refino e com as projeções de aumento no consumo de derivados do petróleo durante a próxima década, o Brasil corre o risco de uma dependência muito grande de importações, opinam especialistas. A Petrobras, virtual monopolista na área, não possui mais fôlego financeiro para expandir a capacidade e, com o programa de venda de ativos e a nova política de preços dos combustíveis, tenta atrair sócios para o setor.

Nos cálculos do Bradesco, as refinarias têm poder de atender à demanda nos próximos três anos, levando em conta a atual ociosidade próxima a 300 mil barris ao dia de processamento. O teto de produção de derivados seria de 2,4 milhões de barris, mas nas contas da Empresa de Planejamento Energético (EPE), o consumo doméstico vai superar esse nível em 2020. Em 2025, estimativas da EPE e do Bradesco apontam para 2,84 milhões de barris.

Se esse cenário que se desenha for confirmado, o banco aposta que a dependência brasileira de importações dará um salto considerável. Em um período de dez anos, até 2025, o déficit da balança comercial de derivados iria de 220 mil barris para 590 mil barris diários, projeta a instituição. Ou seja, produtos do exterior atenderiam por quase 26% da procura, algo que não foi observado nos últimos 45 anos.

“As preocupações com a maior dependência de derivados importados estão atreladas à relevância do setor para sustentar o crescimento da economia brasileira no longo prazo”, escreveu a economista Priscila Trigo, do Bradesco, em relatório publicado no fim de 2016.

Segundo projeções da BR Distribuidora, controlada da Petrobras, o mercado de combustíveis deverá crescer 1,3% ao ano entre 2016 e 2021, totalizando 133,4 milhões de litros. Nesse mesmo período, o mercado de óleo diesel deverá crescer 2,3% ao ano, totalizando 61,4 milhões de litros, e o de gasolina C, vendida nos postos, recuará 2,1% ao ano, somando 37,6 milhões de litros. A queda prevista para o mercado de gasolina C se deve ao aumento moderado para a frota de veículos leves e ao aumento do mercado de etanol.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima que importações brasileiras de combustíveis deverão atingir de 1,14 milhão a 1,2 milhão de barris diários até 2030, a depender da conclusão, ou não, da refinaria do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Desse total, a necessidade de importação de gasolina no fim da próxima década será de 408 mil barris diários. No caso do diesel, as importações no mesmo horizonte alcançarão de 424 mil barris diários a 483 mil barris diários, dependendo do Comperj.

Pelos cenários traçados pela agência do setor, seria necessária a construção de duas novas refinarias, além das conclusões da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, e do Comperj, para que o país atingisse a autossuficiência no suprimento de derivados em 2030. A Petrobras, todavia, retirou do horizonte do Plano de Negócios e Gestão 2017-2021 a conclusão do segundo trem (linha de produção) da Rnest e da refinaria do Comperj. Os empreendimentos só sairão do papel nos próximos quatro anos se a estatal encontrar um sócio para desenvolver e aportar recursos nos projetos.

“Hoje, a Petrobras não tem capacidade financeira de realizar esses investimentos [em expansão do parque de refino]”, crava Luciano Losekann, professor associado de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) especialista em energia. “Mesmo se a opção for capitalizar a empresa, há outras prioridades para alocar capital, no pré-sal, por exemplo. Assim, o modelo possível é atrair atores privados.”

Na opinião de Marco Saravalle, da XP Investimentos, a estatal tem em suas mãos a chance de transformar o mercado de derivados. Ele crê em ganhos de eficiência em toda a cadeia caso companhias que são especialistas na área, de fato, se interessem pelo refino. “O grande recado do Pedro Parente [presidente da Petrobras] é focar naquilo que a empresa é boa, tecnologia e engenharia para exploração e produção”, afirma o analista.

Um problema do parque de refino atual seria a baixa eficiência. José de Sá, especialista em petróleo da consultoria Bain & Company, diz que apesar de a América Latina ser uma região refinadora e exportadora líquida de petróleo, não tem feito jus a essa condição natural. “As refinarias na região têm sido mais caras e demorado mais do que o previsto para serem implantadas, o que perpetua esse ‘gap’ de importação na região como um todo”, comenta.

Questionado sobre a possibilidade de novos investidores entrarem no mercado de refino brasileiro, ele explicou que um obstáculo no momento é a grande necessidade de recursos, em um momento em que o segmento de “downstream” (refino e abastecimento) está com rentabilidade em queda. Mas, salientou, ativos podem ser interessantes para determinadas companhias assegurarem mercado. “Se a capacidade vier associada à rede de distribuição no Brasil, seria quase um mercado cativo para um player internacional colocar o seu petróleo”, acrescenta.

Na visão do professor Losekann, o histórico recente de controle de preços dos combustíveis também dificulta atração de interessados. Mas, para ele, o assunto tem de ser tratado como questão de segurança energética. “[Se não houver investimentos] o Brasil vai exportar petróleo para importar derivados.”