02/01/2017

Setor eólico não se sustenta sem novos leilões, defende GE

Fonte: Valor Econômico

A imagem e a credibilidade do Brasil foram prejudicadas pelo cancelamento do leilão de energia de reserva (LER) que aconteceria no dia 19 de dezembro, segundo Jean-Claude Robert, líder da GE Wind para a América Latina. “Sem novas contratações, o setor não se sustenta”, disse Robert, em entrevista exclusiva ao Valor.

A GE Wind apostava no sucesso do leilão, que surpreendeu o setor ao ser cancelado com poucos dias de antecedência devido à expectativa de um consumo menor de energia nos próximos anos.

Segundo Robert, o cancelamento às vésperas prejudicou a imagem do país “em um dos únicos setores que ainda gerava crença e interesse, justamente em um momento no qual o Brasil precisa de novos investimentos”.

Além disso, o cancelamento pode comprometer a atratividade de novos leilões de energia eólica, segundo o executivo. “Por todas estas razões, acreditamos que um novo leilão é fundamental. Na nossa visão, deve acontecer no primeiro semestre de 2017”, afirmou Robert.

A companhia considerava essencial que o governo tivesse contratado um volume de energia eólica no leilão, sinalizando apoio à indústria eólica local.

“Temos sempre uma visão de longo prazo, mas o resultado do leilão seria importante para nós e para toda a indústria”, disse Robert. Segundo o executivo, os leilões são uma parte integrante da política industrial para a sustentabilidade do setor elétrico, “pois política industrial se faz com volume e financiamento”. A disputa, que foi cancelada, era vista como uma grande sustentação para essa cadeia.

O ideal, segundo Robert, era a contratação de 2,5 gigawatts (GW) a 3 GW de energia eólica por ano no Brasil, para garantir que a indústria de fornecimento siga sustentável e fazendo investimentos.

“O mais importante é o Brasil voltar a crescer. Se a economia voltar, mesmo com percentuais menores, veremos a necessidade de energia nova e competitiva”, disse, completando estar confiante de que a indústria eólica brasileira vai voltar aos patamares de atratividade que tinha alguns anos atrás.

A característica do setor eólico no país, complementar à geração hidrelétrica, é outro argumento que justificaria a realização do leilão mesmo com queda na demanda. Segundo Robert, a tarifa paga pelo consumidor tende a ser menor com o menor despacho das termelétricas, que custam mais caro que as eólicas.

Esse foi o primeiro ano em que nenhum projeto de fonte eólica foi contratado desde 2009, quando o setor estreou no país.

Desde então, a GE Wind já entregou 2.189 turbinas eólicas no país, com 4,2 GW de potência. A expectativa é superar 3 mil equipamentos instalados em 2018. A empresa não divulga qual o volume de energia e nem até quando está contratada no Brasil.

Além da presença no país, a GE Wind tem forte interesse em crescer na América Latina. “Estamos muito interessados em crescer na região. Vemos com carinho Argentina, Chile e Peru. Nossa estratégia é começar a capturar negócios nesses mercados também”, afirmou o executivo.

Há, porém, o obstáculo da competitividade. “Se avaliarmos que uma máquina brasileira é a melhor solução para um projeto na Argentina, vamos usar. Se for mais competitivo usar uma máquina vinda da Alemanha, dos Estados Unidos ou da China, vamos avaliar”, afirmou.

“A exportação pode ser uma alternativa, mas temos que ter competitividade. Quando saímos do Brasil, competimos com chineses, por exemplo”, afirmou.

No Brasil, há exigências de conteúdo local atreladas ao financiamento que aumentam a competitividade das máquinas produzidas no país. O mesmo não acontece em outros países, como a Argentina. “Essa dinamica não existe fora do Brasil, então é um jogo. Lá fora, há contratos em dólar, não há exigências de conteúdo local. Os investidores procuram a solução mais competitiva”, explicou Robert.