28/03/2017

Aquecimento global muda a circulação de correntes atmosféricas

Fonte: O Globo

Alteração nos jatos de ar elevam risco de catástrofes climáticas

As mudanças climáticas estão reduzindo as correntes de jato que vão do Ártico para os trópicos, responsáveis por determinar as condições meteorológicas do planeta. O enfraquecimento do fluxo de vento aumenta a incidência de eventos extremos, como secas e inundações. Esta dinâmica é descrita em um estudo publicado esta semana na revista “Scientific Reports”.

As correntes de jato dependem do contraste entre a temperatura do Ártico e dos trópicos. Este fluxo é fundamental para a movimentação da umidade e das massas de ar quente e frio pelo planeta — capaz, por exemplo, de dissipar a formação de furacões e tempestades.

O Ártico, no entanto, está cada vez mais quente. Em algumas regiões, sua temperatura está 6,5 graus Celsius acima da média registrada no século passado. Além disso, a superfície terrestre está se aquecendo mais rapidamente do que os oceanos, especialmente no verão.

— A seca sem precedentes de 2016 na Califórnia, a onda de calor de 2011 nos Estados Unidos e a inundação de 2010 no Paquistão estão entre os eventos extremos preocupantes — comenta o autor principal do estudo, Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia. — O aumento da incidência desses fenômenos excede o que classificávamos como os efeitos diretos do aquecimento global. Antes suspeitávamos que a ação humana contribuía para estas alterações. Agora, encontramos nossas impressões digitais.

Analisando séries históricas de temperatura e observações de satélite, a equipe de Mann descobriu fenômenos que mostram mudanças extremas e persistentes no fluxo de jatos aéreos. Estas alterações poderiam desencadear catástrofes naturais.

Pesquisador do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático (PIK), da Alemanha, e coautor do estudo, Stefan Rahmstorf destaca que, a partir de determinada temperatura, o padrão de ventos pode conter seu fluxo e deixar regiões inteiras sob as mesmas condições meteorológicas por um longo período. Assim, eventos climáticos que eram sazonais passam a ser mais frequentes.

— Se o mesmo clima persistir por semanas em uma região, então os dias ensolarados podem se transformar em uma onda de calor grave e seca, ou chuvas duradouras podem levar a inundações — explica. — Não é apenas um problema de conservação da natureza ou de ursos polares. São mudanças rápidas que ameaçam a Humanidade, porque estes eventos climáticos extremos ocorrerão principalmente em regiões densamente povoadas.

Mann e Rahmstorf examinaram dezenas de modelos climáticos. Em quase 70% dos casos, constataram mudanças de temperatura nos momentos em que houve alteração na velocidade e intensidade das correntes atmosféricas. MAIS AMEAÇAS NO FUTURO Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur ressalta que a pesquisa mostra como as mudanças no Ártico causarão consequências em todas as regiões do planeta.

— As correntes de jato têm uma importância muito grande na dinâmica climática do mundo, mas, para isso, é fundamental que haja uma diferença na temperatura dos hemisférios. As localidades quentes devem separadas das frias — pondera. — Desta forma, a corrente atmosférica tem poder para evitar eventos extremos. Mas, se continuarmos com esta tendência de aquecimento, é possível até que estes fluxos de vento sejam interrompidos frequentemente no futuro.