15/03/2017

Distribuidoras são pressionadas pelo mercado livre

Fonte: Valor Econômico

A retração na demanda por energia no mercado cativo, em parte por causa da migração de consumidores para o ambiente de contratação livre, pressionou os resultados das distribuidoras em 2016 e deve continuar sendo fonte de preocupação neste ano.

Um levantamento feito pelo Valor com os dados operacionais de sete grandes concessionárias de distribuição de energia – Light, Copel, Neoenergia, Energisa, Eletropaulo, EDP Energias do Brasil e Equatorial – mostra que o consumo de energia no mercado cativo caiu, em média, 3,6% no ano passado.

No mercado faturado total das distribuidoras, que considera também a receita de distribuição (chamada “receita fio”) e os clientes livres, a queda no consumo foi menos acentuada, de 2%.

Segundo o professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, o crescimento do consumo no mercado livre reflete a migração de consumidores do mercado cativo para o livre, em função dos preços mais atrativos.

“As distribuidoras vêm sofrendo o efeito da retração do mercado devido à crise econômica e também pela migração de consumidores para o mercado livre. Os dois fatores levam a uma sobrecontratação de energia que pode afetar substancialmente o resultado de algumas distribuidoras”, afirmou o professor.

Ainda falta a divulgação de dados operacionais de grandes distribuidoras, como CPFL, Cemig e Eletrobras, mas os números que saíram até agora confirmam a tendência apontada pelos dados da EPE do ano passado. Em 2016, o consumo total de energia caiu 0,9% na comparação com 2015. Considerando apenas o mercado cativo, a queda foi de 3,5%, ao mesmo tempo em que o mercado livre teve expansão de 6,8%.

Os resultados preliminares da Energisa de janeiro deste ano também indicam esse cenário. As vendas de energia da companhia no mercado cativo tiveram baixa de 0,7% no mês. Considerando o mercado total faturado, incluindo os consumidores livres, porém, houve alta de 4,1% na demanda no primeiro mês do ano.

O problema da retração contínua da demanda perdeu urgência para as distribuidoras devido ao aumento do preço de energia no mercado à vista, mas a questão chama a atenção para a necessidade de uma mudança no modelo dessas companhias.

“A situação [das distribuidoras] não é muito confiável financeiramente. Isso denota algo que anda errado em um modelo que sempre colocou as distribuidoras como o “filé mignon” dos negócios do setor elétrico”, disse Renato Queiroz, pesquisador do Grupo de Economia de Energia (GEE) da UFRJ.

Quando as distribuidoras ficam sobrecontratadas, podem vender a energia no mercado livre pelo preço à vista. A Lei 13.360/2016 (de conversão da MP 735) determinou que as sobras poderão ser vendidas em contratos no mercado livre, mas a mudança ainda precisa ser regulamentada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A descontratação resultante da migração de consumidores cativos para o mercado livre vai criar “um grande problema para as distribuidoras”, segundo Roberto D’Araujo, consultor da ONG Ilumina, formada por técnicos do setor elétrico. “Some-se a isso a entrada de geração distribuída e teremos um aumento de risco grande para as distribuidoras”, completou ele.