16/05/2017

Accenture aponta riscos para o setor elétrico com avanço da geração distribuída

Fonte: PetroNotícias

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A geração de energia distribuída, principalmente por meio de painéis solares instalados em telhados de casas, edifícios e shoppings, tem sido vista como um grande avanço para o setor elétrico e para um mundo mais sustentável, mas nem todos saem ganhando com esse processo. Para as distribuidoras, o que se dá é o contrário na verdade, com o aumento dos riscos e a redução das receitas, como indica um estudo feito pela Accenture, que traçou um panorama dos principais problemas que essas empresas devem enfrentar e desenhou algumas possibilidades de mudanças em seus modelos de negócios para se adaptarem ao futuro inexorável. Para o gerente sênior da Accenture, Roberto Falco, esse movimento já começou e não depende dos agentes do setor, mas sim dos clientes, que estão buscando cada vez mais este tipo de alternativa, nem sempre com foco apenas na questão financeira, o que aumenta a pressão para as distribuidoras se prepararem para esse novo cenário. “É uma revolução similar ao que aconteceu na área de telecomunicações com a passagem do telefone fixo para o celular”, afirma Falco, ressaltando que o uso de smart grid (redes inteligentes) será fundamental para essa adequação.

Quais são os principais destaques da pesquisa?

É uma pesquisa que fazemos anualmente e em 2017, com foco no efeito da introdução massiva de geração distribuída de pequena escala no negocio de distribuição, sob três pontos de vista principais: técnico, comercial e de modelo de negócios. Entendemos que vai haver um impacto nessas três categorias.

De que maneira?

Em relação ao aspecto técnico, vemos a necessidade de implementação de projetos, processos, operação e manutenção da rede para suportar uma característica de distribuição que não existia.

Quanto ao comercial, com o aumento do volume de geração distribuída, a receita das distribuidoras diminui, porque elas passam a vender menos energia. Ou seja, elas terão um custo maior e uma receita menor.

E no modelo de negócios, começamos a ver players não tradicionais entrando no mercado, como comercialização peer-to-peer no varejo, entre clientes residenciais, em cima de plataformas criadas para isso, o que põe em cheque a maneira tradicional do negócio de distribuição.

Quais são os maiores custos gerados para as distribuidoras com o avanço da geração distribuída?

A grande questão de custo é a necessidade de reforçar a rede de distribuição e incrementar recursos de controle, principalmente na baixa tensão, em função de haver potência sendo injetada nessas redes de forma diferente do que era o normal. No exterior, temos a visão de que mais de 50% das distribuidoras avaliam que terão as capacidades exauridas em 10 anos. Para uma área que deprecia ativo em 40 anos, isso é um tempo curto, e as empresas teriam que fazer investimentos para receberem essa nova carga de geração elétrica, ao mesmo tempo em que perdem parte da receita.

Quais os maiores riscos para a rede e como enfrentá-los?

Os riscos são justamente os fatores que geram necessidade de investimento. A introdução de painéis solares gera a necessidade de adaptação. Pode haver momentos em que o total gerado pelos painéis é maior do que a potência do transformador, ou a potência é maior do que a capacidade dos cabos por onde essa energia vai circular, por exemplo.

A rede hoje, quando é desligada para fazer manutenção, está desenergizada e a distribuidora tem segurança disso para colocar trabalhadores em ação ali. Com a geração distribuída, isso não é mais garantido. Precisaria de mais investimento em controle e automação, o que aumenta o custo das empresas.

Quais são os caminhos apontados para equacionar a viabilidade econômica dessas empresas e o desejo das pessoas em gerar sua própria energia?

Tem vários aspectos sendo tratados. A gente coloca ações no estudo em quatro frentes. Uma delas associada à gestão de clientes. Porque não ser parceiro deles, comprometendo-se com contratos em sinais econômicos corretos, que permitam o controle da geração distribuída do cliente, que deem o direito de interromper a geração dele em casos em que haja sobrecarga da rede, ou para modularizar o volume gerado? Hoje há inversores inteligentes que têm capacidade para isso. Mas isso teria que ser baseado em modelos de negócio que compensassem o cliente por isso.

Há também questões de mudança de processo e inserção de novas tecnologias na construção de redes, por meio das redes inteligentes. É fundamental que o regulador, que tem um papel muito importante, esteja atento e que todos os agentes tenham a oportunidade de contribuir na política regulatória para esse novo mundo. É uma revolução similar ao que aconteceu na área de telecomunicações com a passagem do telefone fixo para o celular.

E para onde está indo esse processo?

Temos ouvido falar em revisão do modelo estrutural do setor elétrico e as distribuidoras precisam ficar muito atentas à evolução dessa modelagem regulatória para tentarem participar. E precisam se preparar para atuar de maneira efetiva nesse novo ambiente, com esses novos modelos de negócio.

Como outros países têm trabalhado para fazer essa integração da geração distribuída sem impactar negativamente a rede e as distribuidoras?

Em todo o mundo, os agentes do setor passaram da fase de identificação do problema e estão na fase de diagnóstico, mas o problema está muito longe de ser resolvido no mundo inteiro. É uma questão muito premente e não há lições aprendidas consolidadas ainda.

Há um trabalho do regulador do estado de Nova York – lá a regulações são estaduais em distribuição –, iniciado com um ciclo de debates há alguns anos, no que chamam de reforma da visão da energia. Nesse processo, de muitas audiências públicas e troca documental, chegou-se, no final do não passado, a um ponto de recomendações de novos modelos de negócios. E as distribuidoras que atuam lá estão trabalhando em fase de testes de pilotos desses novos modelos de negócio.

Como são esses modelos?

São vários, mas basicamente estão associados a novos modelos tarifários, que permitem sinais de preço mais adequados para o cliente poder tomar decisões de uso e geração de energia; casos de coparticipação da distribuidora e do cliente na propriedade da instalação de geração. Ela pode financiar o cliente, por exemplo. Neste caso, ele é dono, mas os benefícios são compartilhados. Há casos em que não se pode instalar em pontos sobrecarregados da rede, mas o cliente pode instalar em outro ponto no nome dele, mesmo que não seja uma casa ou terreno dele. A distribuidora dá uma alternativa para o cliente.

Um destaque da pesquisa é o uso de redes inteligentes (smart grid) como uma das soluções. Qual seria a melhor forma de investir neste tipo de sistema para a integração da geração distribuída?

Para que possamos fazer tudo isso, aumentar a inteligência das redes seria quase pré-condição. Os problemas não serão resolvidos sem isso. A maneira de resolver ainda é uma pergunta a ser respondida por esse conjunto de discussões de modelos de negócios. O problema da evolução das redes inteligentes no Brasil é muito relativo às participações de cada agente do mercado. A geração distribuída vai colocar um pouco mais de estresse e urgência nesse processo decisório. Costumo dizer que é a primeira vez que a distribuidora e os agentes não são os únicos no processo de transformação. Agora, o poder está na mão do cliente, que tem vários valores de decisão, nem sempre monetários, como uma postura mais sustentável, por exemplo. E eles vão instalar os painéis por conta própria, o que, com o avanço e o tempo, vai ser um problema para as distribuidoras.

Até hoje, no País, como não se conseguiu achar a equação econômica para as redes inteligentes, isso simplesmente foi sendo adiado. No caso da geração distribuída, as empresas não poderão adiar, porque os consumidores já estão fazendo essa mudança, que impacta as distribuidoras. Então os agentes precisam olhar para isso e se moverem mais rápido.

A Accenture afirma ter desenvolvido uma modelagem para avaliar os custos de integração de geração distribuída na rede. Pode detalhar esses números?

Baseado nas projeções de penetração de geração distribuída, de pequena escala, desenvolvemos modelos de quais seriam os custos necessários para reforço da rede. Só para exemplificar, no caso dos Estados Unidos, até 2030, seriam custos da ordem de US$ 20 bilhões. Na Europa, da ordem de € 58 bilhões. Para o Brasil, ainda não fechamos essa conta. As projeções são um pouco incertas por enquanto.

Analisamos algumas ações que podem ajudar a racionalizar esse investimento. Talvez reduzindo em até 30%, com três categorias de ações:

– Incentivos de posicionamento da instalação, como exemplo o caso da distribuidora dar a opção ao cliente em instalar em outro local;

– Contratos que permitiriam a gestão dessa geração pela distribuidora, para a limitação do volume gerado em momentos de sobrecarga; e

– A geração distribuída de gestão pelo lado da demanda ou introdução de armazenamento em baterias.

São ações que permitem controlar a potência gerada e o local da geração, para minimizar o impacto gerado na rede de distribuição, sem que haja uma limitação forçada da geração distribuída. Mas o foco tem que ser em gerenciar bem e não em limitar a possibilidade de ação dos clientes.