16/05/2017

É preciso fortalecer a capacitação da mão de obra no setor fotovoltaico

Fonte: Canal Energia

Associação acredita que país ainda pode crescer muito mais nas conexões de geração distribuída

Feliz pelo crescente número de conexões de geração distribuída no Brasil, a Associação Brasileira de Geração Distribuída gostaria de números mais robustos pelo potencial que o país apresenta. Carlos Evangelista, presidente da associação, elege a capacitação da mão de obra com um dos maiores desafios no setor. “Atualmente há uma carência de profissionais no campo fotovoltaico”, conta. Ele quer uma fiscalização mais efetiva da Aneel sobre os prazos para as distribuidoras efetuarem as conexões. A entrada de players tradicionais da distribuição nessa área é bem vista por Evangelista, mas ele alerta que informações privilegiadas que elas têm sobre o mercado podem acabar se transformando em uma espécie de concorrência desleal. “Temos que universalizar a Geração Distribuída e não a transformar em um privilégio para poucos”, avisa.

Esses e outros temas estarão em debate na 14ª edição do Encontro Nacional dos Agentes do Setor Elétrico, que será realizado nos próximos dias 17 e 18 de maio no Centro de Convenções Sul América, no Rio de Janeiro (RJ). O Enase é copromovido pelo Grupo CanalEnergia e 20 associações do setor.

Agência CanalEnergia: Como avalia a curva de crescimento das conexões de Geração Distribuída até o momento?

Carlos Evangelista: Apesar dessa curva refletir um mercado que está crescendo a taxas consideravelmente altas, ainda é pouco se compararmos ao potencial de 70 milhões de consumidores para geração distribuída no Brasil. Por exemplo, considerando que apenas no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, temos mais de 600 mil conexões e na Alemanha, próximo a 1,5 milhão conexões de GD, fica evidente que ainda temos um grande caminho pela frente.

Agência CanalEnergia: A GD ainda se ressente de mais divulgação para os consumidores?

Carlos Evangelista: Qualquer segmento de mercado sempre será catalisado com a divulgação de informações, em especial as que mostram as vantagens e as características positivas para os consumidores e sociedade como um todo. Com certeza, se houvessem mais investimentos em comunicação e marketing o mercado responderia com maior rapidez e haveria um número ainda maior de interessados querendo entrar em GD.

Agência CanalEnergia: O acesso ao financiamento ainda é o maior obstáculo para o desenvolvimento da GD no país?

Carlos Evangelista: Financiamento com fácil acesso e juros em patamares razoáveis – e não um dos mais altos do mundo, como é atualmente no Brasil – beneficiaria toda a economia do país e não apenas o setor de GD. Claro que seria excelente se contássemos com linhas de crédito especiais, com juros acessíveis, operacionalização rápida e pouca burocracia. Já ocorreram algumas iniciativas nesse sentido, no entanto, nenhuma que ainda tenha deslanchado e atingido todos os segmentos de GD. O ideal seria que pudéssemos financiar por pelo menos 10 anos, e que as prestações fossem menores que o valor monetário da energia economizada.

Agência CanalEnergia: O setor está conseguindo absorver a demanda por capacitação no segmento?

Carlos Evangelista: Esse é um dos principais pontos que a ABGD tem trabalhado: colaborar, fomentar e difundir a capacitação e treinamento para todos os profissionais do setor, assim como orientar os novos entrantes a procurarem cursos de formação especializados, e não cursinhos de informação, visando capacitar os profissionais para atenderem a demanda desse setor, com qualidade, segurança e rapidez. Atualmente há uma carência de profissionais no campo fotovoltaico.

Isso nos levou a estabelecer acordos, parcerias e convênios, tanto com universidades e escolas técnicas privadas como também com entidades públicas, como IFE, CONIF, MEC, Senai, Centro Paula Souza, etc, para que criem ou ampliem seus cursos voltados para o profissional Fotovoltaico. Concomitantemente, lançamos o programa QualiFV visando certificar os profissionais do setor.

Agência CanalEnergia: Há algum aspecto da regulação que possa ser aprimorado para melhorar o panorama da GD?

Carlos Evangelista: Atualmente, uma das principais dificuldades nas conexões é a demora e burocracia por vezes exagerada nos procedimentos de conexão. As distribuidoras sempre têm um discurso positivo e colaborativo, mas na prática as solicitações quase sempre atrasam, ficam paradas ou acumulam atrasos totalmente desnecessários e por motivos alheios ao solicitante. Para chegarmos perto dos índices de eficiência e eficácia praticados em países da Europa e EUA teremos que simplificar, padronizar e “informatizar ” bastante esses processos, trabalhando sempre coordenados com projetistas e instaladores certificados.

Hoje, cada distribuidora tem sua própria cadência para efetivar a conexão em GD, de acordo com seus procedimentos internos, e nenhuma delas, salvo alguma rara exceção, já disponibiliza os procedimentos 100% eletrônicos, na internet, conforme manda a REN687/Aneel de 2015 em seu artigo 10º. Ela diz que a distribuidora deve disponibilizar, a partir de 1º/01/2017, sistema eletrônico que permita ao consumidor o envio da solicitação de acesso, de todos os documentos e o acompanhamento de cada etapa do processo. A data limite era primeiro de janeiro deste ano, nenhuma das 63 distribuidoras efetivou isso no prazo. E o que aconteceu com as que não cumpriram o determinado pela Aneel? Absolutamente nada!

Agência CanalEnergia: Como vê a movimentação de grandes players do setor que começam a se voltar para área de serviços em energia, de olho no crescente número de conexões?

Carlos Evangelista: Acho excelente! As grandes empresas, com bom planejamento estratégico e com capacidade de investimento maior que a média do mercado, podem atender com qualidade o setor de GD nos seus mais diversos segmentos. Evidentemente que terão que se preparar! Não adianta apenas querer atuar no mercado no mercado sem conhecer as particularidades e especificidades do setor.

O que nos preocupa são empresas que por sua atividade “core”, tem fácil acesso a informações privilegiadas, como por exemplo, os fluxos de potência na rede, onde há carência de fornecimento de energia, quem são os clientes com tarifas diferenciadas, onde estão os melhores consumidores, etc, e utilizarem essas informações como vantagem competitiva. Isso seria uma prática predatória e desleal ao mercado. Temos que universalizar a Geração Distribuída e não a transformar em um privilégio para poucos.